A imunologista Maria de Sousa morreu esta terça-feira nos cuidados intensivos do Hospital São José depois de contrair o novo coronavírus, segundo avançou o Público e confirmou o Observador. A cientista portuguesa, de 81 anos, ficou conhecida pelo seu trabalho na área da imunologia, sobretudo no que à distribuição dos linfócitos diz respeito. Foi uma das primeiras mulheres portuguesas reconhecidas internacionalmente pelas suas descobertas científicas.

Formada em medicina em 1963, pela Faculdade de Medicina de Lisboa, Maria de Sousa trabalhou em Inglaterra, Escócia e Estados Unidos. Em Portugal também. No início da carreira académica foi Leitora na Universidade de Glasgow, na Escócia, onde fez o doutoramento em Imunologia. Nos EUA trabalhou enquanto professora associada na Escola de Estudos Pós-Graduados de Cornell Medical College e foi, em simultâneo, membro associado e diretora do Laboratório de Ecologia Celular no Memorial Sloan Kettering Cancer Center do Sloan Kettering Institute, em Nova Iorque, tal como pode se ler na nota biográfica publicada na página da Universidade do Porto.

É neste período que Maria de Sousa publica artigos científicos que atravessaram fronteiras e que são tidos como “fundamentais para a definição da estrutura funcional dos órgãos que constituem o sistema imunológico, entre os quais se destaca o consagrado à descoberta da área timo-dependente (1966), hoje conhecida universalmente por área T”. Os artigos foram publicados em duas das mais conceituadas revistas científicas, o Jounal of Experimental Medicine e na revista Nature. Em 1971 descobriu um fenómeno a que deu o nome de ecotaxis, termo proposto para designar a capacidade de células de diferentes origens migrarem e organizarem-se em áreas bem delineadas dos órgãos linfóides periféricos.

Posteriormente, conduziu os seus estudos para o sistema imunológico de pacientes com uma doença genética de sobrecarga de ferro, a hemocromatose hereditária. Foi precisamente com esta área de investigação que regressou em 1985 ao Porto, ingressando no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar para fundar o Mestrado em Imunologia. Foi docente e investigadora da Universidade do Porto — em 2010 foi-lhe atribuído o título de Professora Emérita. A equipa que liderou está implantada no meio científico como referência no estudo desta doença, muito frequente em Portugal, e na sua relação com o sistema imunitário.

O presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, anunciou que vai propor atribuir o nome de Maria de Sousa a uma artéria da cidade, “pelo inestimável contributo prestado à ciência e pelo contributo à inclusão da cidade do Porto entre os circuitos internacionais de investigação mais prestigiados e conceituados do mundo”, refere em comunicado.

Maria de Sousa contribuiu também para o ensino pós-graduado, tendo experiência anterior nesta área, em 1996 encabeçou a fusão de três mestrados para criar o “Programa Graduado em Biologia Básica e Aplicada” (GABBA) na Universidade do Porto, o primeiro em Portugal.

Foi ainda condecorada por três Presidentes da República — por Mário Soares, em 1995; por Cavaco Silva, em 2012 e por Marcelo Rebelo de Sousa, já em 2016. A cientista foi também distinguida com o Bial Merit Award in Medical Sciences (1994), o Prémio Estímulo à Excelência, atribuído pelo Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior (2004), o Prémio Universidade de Coimbra (2011), o Prémio Universidade de Lisboa (2017) e o Prémio Mina Bissel (2018).

Maria de Sousa morreu esta terça-feira aos 81 anos.