Há uma mesa num boteco do Rio de Janeiro que ficou mais pobre, sem clientes. Era nessa mesa que o autor de A Casa dos Budas Ditosos (de 1999) costumava encontrar-se para um chopinho e uma conversa com o autor de A Grande Arte (1983). Mas dos frequentadores da mesa já não resta nenhum: João Ubaldo Ribeiro – o autor de A Casa dos Budas Ditosos – morreu a 18 de julho de 2014; Zé Rubem Fonseca – o autor de A Grande Arte – faleceu esta quarta-feira, aos 94 anos. E com a sua morte perdemos o autor mais cru, realista e sexuado da língua portuguesa, o mais prodigioso observador e mais lúcido intérprete do machismo latino.

Não que isto vá interessar grandemente aos portugueses: por cá, neste momento, as trends do Twitter são Bruno Nogueira, Estado de Emergência, Slow J e Varandas. O irónico é que consigo imaginar Fonseca a escrever um romance sobre um presidente de futebol megalómano em cuja vigência a respetiva claque assalta o campo de treinos e agride a equipa, sem que nunca se saiba quem foi o responsável. Agosto, o prodigioso Agosto, é exatamente isso: um romance sobre quem fez o quê – que enfia o Brasil todo lá dentro.

Estamos muito distantes de 1973, quando O Caso Morel foi um escândalo no Brasil – o Morel do título era Paul Morel, um excêntrico artista plástico de vanguarda que foi preso na sequência de um crime (a morte de uma das suas namoradas), não sendo claro que ele seja realmente o autor do crime.

Morreu Rubem Fonseca: mestre do conto, um dos maiores escritores brasileiros e prémio Camões em 2003

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