Começaram por ser reportagens de atletas que mudaram de equipa durante a pandemia para exercer funções de médicos ou enfermeiros na linha de frente. Em Espanha houve também casos de árbitros (e árbitras) que deixaram o apito e vestiram a bata. E dos Estados Unidos chegou a história de Laurent Duvernay-Tardif, canadiano que em fevereiro ganhou o Super Bowl pelos Kansas City Chiefs e dois meses depois, aproveitando uma fase que permitia que internos que ainda não tivessem terminado o estágio pudessem exercer, estava numa unidade no Quebec. Depois, há o caso de Frederico Varandas, militar na reserva que se voluntariara e que, após ter sido decretado o estado de emergência, trocou o fato e gravata da presidência do Sporting pelos hospitais.

“Haver um presidente que é médico e esteve no terreno deu confiança ao governo”, destaca Frederico Varandas

“No Hospital Militar, quando o médico entrou em serviço na pandemia de coronavírus, enfrentou pacientes com febre e tosse e ajudou a alinhar todos os seus cuidados. Alguns deles, no entanto, tinham uma pergunta curiosa. ‘Só de olhar nos meus olhos, eles diziam: ‘Ei, você não é o presidente do Sporting? Posso tirar uma selfie?'”, escreve o The New York Times, numa reportagem publicada este sábado sobre o líder dos verde e brancos.

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Recordando o passado militar e os tempos vividos no Afeganistão, o jornal norte-americano fala das seis semanas em que Varandas esteve na unidade durante turnos de 12 horas, a cuidar de membros do pessoal militar e também das suas famílias, “tendo como principal tarefa testar e avaliar pacientes quando chegavam antes de entregar os casos mais graves à equipa da unidade de cuidados intensivos”. Condicionante extra: o tempo a mais que tinha de gastar em relação ao normal na desinfeção dos equipamentos entre cada uma das consultas.

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Foi uma experiência inesquecível. É incrível ver que tudo simplesmente parou, é algo que nunca conseguiria imaginar que pudesse acontecer por uma coisa que parece tão benigna e que pode causar um dano incrível”, resumiu Varandas sobre a experiência de combate à pandemia.

“Como o desporto parou em Portugal pensei que era mais importante para o país a trabalhar como médico”, diz Varandas ao The New York Times. “O futebol em Portugal é uma loucura, é como uma religião, é uma doença”, acrescentou, recordando as noites a fio com debates entre os seis (que foram sete) candidatos à presidência entre agosto e setembro de 2018, naquelas que foram as eleições mais concorridas de sempre do clube. “Continuei a controlar as coisas porque o futebol parou mas o clube continuou. Não foi fácil ao longo de mês e meio estar a trabalhar no hospital e a gerir o clube”, admitiu, recordando os cortes que foram feitos no clube e na SAD, incluindo no seu ordenado como administrador da sociedade, para adequar os custos à crise.

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Sobre o regresso do futebol e os eventuais perigos, não tem dúvidas. “Os futebolistas são mais testados do que médicos que trabalham em hospitais. Para mim é uma coisa estúpida, é política. Percebo que seja assim pela parte política mas cientificamente é ridículo”, salientou, antes de abordar alguns dos problemas a curto e médio prazo dos clubes: “Neste fase, às vezes vou para a cama e imagino como seria se tentássemos vender agora o Bruno Fernandes. Que preço seria? Dez, 15 milhões? Deixei de ter noção de qual é o valor de um jogador nesta altura e Sporting, FC Porto, Benfica, todos os clubes em Portugal têm de vender jogadores”.

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