O assunto tomou o mundo de assalto. E quando dizemos o mundo, dizemos todos os quadrantes desse mesmo mundo. Começou na sociedade, depressa se tornou um tema político, alastrou às artes, à música, ao cinema e à literatura, aterrou no desporto e deu a volta aos cinco continentes. A morte de George Floyd tornou-se o ponto de partida para uma questão muito mais abrangente: o racismo, a injustiça social, a falta de igualdade, a discriminação e a xenofobia, tudo tópicos aos quais faltam muitos outros e que nos entram agora pelas casas adentro pela escassez e não pela esperada abundância.

De repente, a pandemia passou para o segundo lugar na escala de importância, de urgência e de atualidade. No desporto, tal como em todos os outros setores, o assunto atual são as reações, as atitudes e as interpretações do que aconteceu a Floyd e do que ainda está a acontecer nos Estados Unidos. Desde Floyd Mayweather, que se ofereceu para pagar o funeral do norte-americano, a Michael Jordan, que procurou apagar os deslizes de outrora com uma mensagem forte, multiplicam-se as respostas ao tema do momento. Incluindo as de quem nem sequer é muito conhecido, quem podia passar despercebido na rua — mas quem sabe perfeitamente daquilo de que tanto se fala.

Obama: “Devemos ter um presidente que reconheça o papel corrosivo do racismo”

DeAndre Yedlin tem 26 anos. Nasceu em Seattle, nos Estados Unidos, veio para a Europa através do Tottenham e é jogador do Newcastle desde 2016. Esta terça-feira, no Twitter, o norte-americano partilhou uma SMS que recebeu há uns dias, do avô, que ainda vive nos Estados Unidos e que se mostrou “contente” por o neto não estar no país. “Uns dias depois da morte do George Floyd, o meu avô mandou-me uma mensagem a dizer que estava contente por eu não estar a viver nos Estados Unidos atualmente. Disse que tinha medo por mim, pela minha vida, enquanto jovem negro. Com os últimos dias, esta mensagem do meu avô ainda não me saiu da cabeça”, começou por dizer o lateral direito, que é internacional pela seleção norte-americana.

“O meu avô nasceu em 1946, viveu durante o movimento pelos direitos civis, viveu durante alturas terrivelmente racistas da história dos Estados Unidos. E 70 anos depois, AINDA teme pela vida do neto negro, no país em que ele e os neto nasceram, no país que o neto dele representa quando joga pelos Estados Unidos, no país que o neto dele representa quando joga em Inglaterra”, acrescentou Yedlin. O jovem jogador recordou ainda quando, no ensino básico, teve de recitar o Pledge of Allegiance, Juramento de Fidelidade em tradução livre, o texto que é uma expressão de lealdade à bandeira e à República dos Estados Unidos.

“O texto termina com ‘com liberdade e justiça para todos’. Todos os americanos precisam de se questionar a si mesmos se existe ‘liberdade e justiça para todos’. Se a resposta for sim, então são parte do problema. De forma alguma estamos a pedir que as vidas dos negros importem mais do que as vidas dos brancos. Tudo o que pedimos é que sejamos vistos como iguais, mais do que três quintos de um homem, como humanos”, termina o jogador do Newcastle.