Nome: Caronte à Espera
Autor: Cláudia Andrade
Editora: Elsinore
Páginas: 136

A capa de “Caronte à Espera”, de Cláudia Andrade

Logo no início de Caronte à Espera, Artur, um reformado com desejos suicidas, persegue pela rua um folheto da cinemateca que o vento tinha arrancado das suas mãos. Cláudia Andrade descreve esse episódio dizendo que esta situação parecia “o passeio tenso de um casal desavindo, ela [a folha de papel] à frente, enérgica, arrebatada, esperando-o a passos com fastio calculado” (p. 13). Nestas poucas linhas, encontramos, para além de uma prova cabal das virtudes literárias de Cláudia Andrade, uma imagem bastante certeira do que é, ou pelo menos deveria ser, a literatura. O trabalho do escritor pode, em grande medida, ser descrito como o de conferir vida ao que não a tem. No caso em análise, uma folha de papel que se transforma, diante dos nossos olhos, numa mulher caprichosa, mas, mais genericamente, no caso de Caronte à Espera, cento e trinta e seis folhas de papel que se transformam em Artur e no caminho que este pretende trilhar em direção ao barqueiro que o aguarda para a derradeira travessia.

Cláudia Andrade trata o hipotético suicídio de Artur sublinhando o lado cómico que subjaz não só a este suicida em particular, mas a todos os suicídios. Parecerá, decerto, bizarra e até ofensiva a ideia de que existe um lado cómico na trágica decisão de se colocar um ponto final à própria vida. No entanto, Cláudia Andrade tem razão no seu diagnóstico e demonstra esta faceta pouco explorada do suicídio de forma extraordinariamente original, subtil e persuasiva. Esta comicidade advém desde logo do contraste entre a absoluta solenidade do momento e os passos recorrentemente atabalhoados dados pelos requerentes da morte. Encontramos um exemplo perfeito deste contraste de contornos cómicos na descrição da suicida que, desejosa de imitar Virginia Woolf:

“na beira [de um rio], pinçou o nariz entre o polegar e o indicador (tal como a Artur faltava-lhe a etiqueta para evitar o absurdo), e lá vai ela para a água, na qual não conseguiu obrigar-se a parar de esbracejar até estar de volta à margem” (p.77).

A intenção de Cláudia Andrade não parece, contudo, a de ridicularizar o suicídio de forma a gerar risos no leitor (o que não teria, evidentemente, problema nenhum), mas demonstrar como, até no momento em que decidem recuperar o absoluto controlo sobre as suas vidas, os suicidas não deixam de ver a vida a rir-lhes na cara, demonstrando-lhes cabalmente que a batalha da qual desejam sair vencedores está irremediavelmente perdida. A solenidade de uma despedida cujos termos desejam sempre controlar é, assim, contrariada pela vida, que arruína o definitivo adeus através do receio inconsciente e ridículo de uma eventual otite, ficando desta forma demonstrado que a mulher que pretende abandonar o mundo cruel continua, afinal, presa a ele, uma ideia que nem precisava de ser reforçada pela resistência que, à sua revelia, o seu corpo exerce contra o rio onde gostaria de se afogar. Ao pinçar o seu nariz, esta suicida demonstra que o seu alegado desejo de morte é, afinal, em tudo semelhante ao gesto de alguém que, ao terminar uma relação, torna claro não o fim do seu amor mas o seu absoluto extravasamento.

Em momentos como este, Cláudia Andrade parece mostrar-nos que o desejo de morte é, acima de tudo, um desejo de vida. Mais do que vontade de acabar com a nossa vida, o suicídio parece ter que ver com uma incontrolável vontade de eternizar uma certa visão desta diante dos que ficam, ainda que para isso, por paradoxal que pareça, nos vejamos forçados a morrer. Assim, o suicídio, mais do que a busca por um fim derradeiro, seria a busca de uma vida eterna, o que torna a morte corporal apenas uma negligenciável e secundária consequência dessa mesma busca pela eternidade não num suposto além, mas aqui mesmo, junto de familiares e amigos.

Verificamos esta característica do suicídio segundo Cláudia Andrade na segunda página da novela, quando Artur hesita pela primeira vez em relação à decisão de se matar. Até ao momento em que vê um rosto desconhecido numa fotografia do seu próprio casamento, Artur estava convicto de que se iria suicidar no decorrer daquela semana em grande medida por imaginar que a sua mulher, Beatriz, iria continuar pesarosamente a recordá-lo, sentada no restaurante a que tantas vezes foram juntos, e que, depois, à noite, se estenderia “cuidadosamente no lado da cama que sempre foi o seu, deixando livre um espaço para o seu pálido fantasma se acomodar” (p. 8). Artur sabia que, mais tarde ou mais cedo, primeiro inconscientemente e depois com uma certa naturalidade, o seu espaço na cama seria ocupado pelo corpo dormente de Beatriz, mas localizava esse doloroso momento num futuro vago e longínquo. Contudo, ao ver a fotografia desse estranho causar um rubor na face de Beatriz, tudo se transforma e Artur perde a vontade de morrer. Não por a sua vida se ter tornado naquele momento miserável (antes pelo contrário) mas porque não conseguia agora deixar de imaginar Beatriz:

“penteando com os dedos o peito encanecido de algum avô divorciado dado ao jogging, relatará com carinhosa malícia que o pénis em ereção do marido falecido, como uma bússola enlouquecida, tinha o hábito de apontar insistentemente para a esquerda. Rirão, cúmplices” (p.9).

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