O ex-primeiro-ministro português e também ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso recordou a Cimeira das Lajes — que ficou para a história como o primeiro momento da Guerra no Iraque —, frisando que as motivações para a realização do encontro estão “amplamente documentadas” e que Portugal nunca apoiou a ideia da guerra, mas que não podia virar as costas ao maior aliado político, os Estados Unidos da América.

“A minha posição — exprimi-a quatro vezes no parlamento português — foi ‘nós não queremos a guerra’, mas não somos nós, Portugal, que decidimos se há uma guerra ou não. Mas se eu tiver uma guerra entre os Estados Unidos, o nosso maior aliado, uma grande democracia, e um regime como o de Saddam Hussein, nós não podemos ser neutros, temos de apoiar politicamente o nosso aliado”, afirmou o atualmente chairman do banco Goldman Sachs International, numa entrevista ao Atlantic Talks, o novo podcast da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento (FLAD).

Questionado sobre se considera que, ainda assim, à data tomou a decisão mais acertada, Durão Barroso diz que “com a informação que tinha na altura, sim”, mas o caso muda de figura se a questão for outra. O antigo primeiro-ministro diz que “com o que sabe hoje” — essencialmente o facto de não haver armas de destruição maciça no Iraque — provavelmente não teria tomado a mesma posição.

“A nossa posição não foi ideológica ou belicista. Foi uma posição em que ponderámos o facto de haver o nosso maior aliado, os EUA — sem dúvida o aliado mais importante de Portugal — que nos pedia o nosso apoio político, e também o nosso mais antigo aliado, o Reino Unido pedia, com Tony Blair, e Espanha, o nosso único vizinho, nos pedia isso. Tudo isso ponderado, tomámos essa decisão, que é uma decisão que eu sei que é controversa, legitimamente controversa — até porque depois, infelizmente, não se verificou aquilo que nos tinha sido comunicado, que haveria armas de destruição maciça no Iraque”, notou Durão Barroso.

“Acho que depois houve erros muito graves na forma como foi gerido todo o processo do Iraque, erros gravíssimos. A ideia de querer, por exemplo, passe a expressão, limpar toda a administração do Iraque foi um erro completo”, apontou criticando a “desnazificação que os americanos e aliados fizeram na Alemanha a seguir a Hitler”: “Não era sensato fazer ali”.

Durão Barroso lembrou ainda as “várias vezes” em que questionou o presidente dos Estados Unidos sobre o “the day after” [‘o dia seguinte’] àquilo que era considerada a vitória garantida na guerra. “Na altura o cenário apresentado era de que as coisas estariam mais ou menos, ou muito, garantidas, mas eu acho que foi muitíssimo mal gerido. Portanto, é fácil hoje, com o benefício de podermos fazer julgamentos retroativos, dizer que foi um erro”, disse apontando que o governo português tinha que optar entre apoiar politicamente os Estados Unidos ou manter uma posição neutral, tendo optado por “reafirmar uma aliança que sempre se considerou em Portugal natural no posicionamento externo”.

Barack Obama “podia ter feito mais”

Ainda que aponte que Obama foi “dos políticos mais inteligentes” que já conheceu, Durão Barroso diz que o mandato do ex-presidente norte-americano foi “uma oportunidade perdida”.

“Tínhamos as condições ideais: havia o presidente Obama nos EUA, que, em muito aspetos, no modelo que ele defende para os EUA, é mais perto do modelo europeu do que os republicanos, para não falar do atual presidente norte-americano. E tínhamos líderes europeus absolutamente pro-americanos. Podíamos ter feito muito mais coisas juntos”, apontou notando que Obama “não tinha intuitivamente ou instintivamente uma inclinação natural para a Europa” e algumas conversas que teve com Obama que lhe reafirmava a prioridade dos EUA pela Ásia.