O mais mediático dos casos faz-nos recuar até 2012, quando a intervenção de uma paroquiana de 80 anos correu mundo devido ao inesperado resultado na pintura Ecce Homo, de Elías García Martinez, fresco que ornamentava as paredes no santuário de Borja. Depois desse episódio em Saragoça, que originou centenas de memes, chegaria nova notícia do género em junho de 2018 — de novo oriunda do país vizinho.

O motivo de assunto era então a imagem de São Jorge, montado no seu cavalo a lutar contra o dragão, e que então foi vítima de um restauro “excessivo”, sendo que o uso da palavra restauro exige alguma ponderação. A peça com 500 anos encontra-se na igreja de San Miguel de Estella, em Navarra, foi restaurada sem autorização do Serviço de Património Histórico da região, e voltou a correr mundo, dada a concorrência que oferecia ao caricato percalço de 2012.

A imagem de São Jorge original, o restauro amador, e o novo restauro profissional já entretanto feito (imagens do Serviço de Património Histórico de Navarra)

Chegados a junho de 2020, há mais uma intervenção mal sucedida a dar que falar, e a levar a Associação de Conservadores e Restauro de Espanha a lamentar o sucedido, e a pedir uma regulação mais rígida para zelar pelo bom nome da classe e, sobretudo, a evitar a ruína de obras como estas, em qualquer dos casos citados entregues às mãos de amadores, ou pelo menos de artesãos não especializados. Pedem ainda que não se converta o assunto “num motivo de diversão mediática e social”, à semelhança do caráter viral que assumiu a proeza de 2012, da autoria de Cecilia Giménez que tentou pelo seu próprio punho consertar os efeitos nefastos da humidade em Ecce Homo, obra datada de 1930.

Em 2012, o resultado da intervenção na obra Ecce Homo feito por uma paroquiana correu mundo © DR

O flop mais recente não envolve uma iniciativa individual sobre um bem público, assumindo por isso menos relevo, desconhecendo-se inclusivamente o valor do quadro. Trata-se de um colecionador privado estabelecido em Valência, que terá ficado “atónito” quando conferiu o resultado final numa cópia do artista barroco Bartolomé Esteban Murillo (1617-1682). A notícia foi avançada pela Europa Press, que conta ainda como o proprietário do quadro pagou 1.200 euros pela limpeza da tela com a imagem da Imaculada Conceição, tendo recorrido aos préstimos de um especialista em restauro de… mobiliário. Apesar de duas tentativas para retificar o desfecho do processo, as imagens surgem agora totalmente descaracterizadas.

“Perde totalmente o sentido e o valor”, desabafou o colecionador, cuja identidade não foi revelada, à Europa Press depois da tentativa para recuperar as feições originais da Virgem, no rescaldo da intervenção nesta peça com 120 por 80 cm. Datada do começo do século XX, faz parte de uma coleção de família, estando na sua posse desde 2006. Escurecida pelo tempo, o proprietário confiou os destinos da sua limpeza a uma pessoa de confiança que conhecia “desde sempre”, e que cuidara do seu mobiliário com sucesso, rejeitando que tivesse assim optado por uma versão mais económica e menos especializada.

O original e as duas tentativas de restauro

O original e as duas tentativas de restauro. Europa-Press

Uma primeira abordagem resultou desde logo num resultado imprevisto e a segunda oportunidade concedida não trouxe melhor imagem. “Cada vez ficava pior”, admitiu o colecionador valenciano, com o rosto e as mãos a serem as partes mais afetadas na tela. “Este senhor como restaurador de móveis é muito bom, mas não como restaurador de pinturas. São coisas muito diferentes”, admite agora o dono da cópia.