De visita ao distrito de Vila Real, Rui Rio voltou a falar sobre a decisão do ex-governante, Pedro Passos Coelho, de negar ajuda a Ricardo Salgado, em 2014, para que fossem viabilizados empréstimos da Caixa Geral de Depósitos às holdings do Grupo Espírito Santo, e que tem sido alvo de vários elogios de militantes e deputados sociais democratas – agora que a acusação foi conhecida. Apesar desta atenção, Rui Rio afirma que “muitos nem terão entendido bem a dimensão do que o ex-primeiro-ministro fez”.

Para o atual presidente do PSD, a “coragem” de Passos Coelho não foi evitar que um criminoso continuasse com o crime, sendo que isso, por si só, não teria valor porque é uma “obrigação”. “O que ele fez não foi travar um criminoso, mas um poderoso, talvez o maior poderoso do país” o que é “raro” na política portuguesa, disse, salientando, ainda, que com o processo a decorrer na justiça, não é possível afirmar que Ricardo Salgado seja um “criminoso”. “Suspeitamos, no entanto, a sentença ainda não transitou em julgado”.

O discurso surge um dia depois de ter falado no Twitter da “lentidão da justiça” e não do papel do Governo PSD/CDS no caso BES. “De incidente em incidente e de recurso em recurso, quantos anos mais teremos de esperar para ser feita justiça no maior crime financeiro da nossa História?”.

Em relação aos fundos europeus para recuperar a economia portuguesa afetada pela Covid-19, Rui Rio concorda com o primeiro-ministro, António Costa, para quem este acordo tem de ser “rápido”, uma vez que a “carga burocrática” inerente ao próprio processo, vai fazer com que as verbas demorem mais tempo a chegar às economias do países mais fragilizados pela crise socioeconomica. Quanto a um acordo fechado no limite até domingo, Rui Rio tem “dúvidas”. “Ontem, participei por vídeo numa cimeira do PPE, que antecede os Conselhos Europeus. Não há ninguém que não tenha dito que não tenha de ser rápido”, acrescentou.

No entanto, reconhece, também, que devido ao desencontro de opiniões no seio da União Europeia, o mais difícil é encontrar um equilíbrio. Segundo Rui Rio, esse meio-termo está em “disponibilizar as verbas avultadas mas com regras que deem uma garantia de que os países as utilizam devidamente”, assumiu.

“Eu estou do lado dos que querem mesmo regras porque a última coisa que eu gostaria era de ver Portugal receber o dinheiro e depois o mesmo não ter o efeito multiplicador sobre a nossa economia e sobre o nosso futuro que é justo que tenha”

Questionado pelos jornalistas sobre a hipótese, avançada esta sexta-feira, de o Executivo querer deixar cair a limitação de passageiros nos transportes públicos, o presidente do PSD recorda a última reunião do Infarmed a que assistiu, e onde foi apresentado um estudo que não associava a utilização dos transportes da Área Metropolitana de Lisboa ao número superior de surtos de Covid-19 na região.

Uma teoria que lhe “custa um pouco a acreditar”, porque se trata de um dos sítios onde as pessoas estão “mais próximas”, e que se pode agravar caso deixe de ser imposta a limitação de 2/3. E mais uma vez, também aqui fala na necessidade de encontrar um “equilíbrio”. Mas não deixa de criticar as palavras de Pedro Nuno Santos, referiu ser “impossível” controlar o número de viajantes. “Isso é baixar os braços e dizer que não se consegue”.

Aos jovens que participaram numa conferência da juventude, em Vila Real, promovida pela Youth Academy, e onde interveio como orador convidado, Rui Rio falou das “assimetrias brutais” entre as concentrações urbanas, das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e o resto do país – o que, assumiu, ser um dos principais sintomas de que o país “não é desenvolvido”.

E se na Assembleia da República, conta, “ninguém está aberto à mudança”, dificultando a mudança, o mesmo se passa no Executivo, por exemplo, em relação à desconcentração de alguns serviços centrais, na sua grande maioria instalados em Lisboa, como se viu com o processo Infarmed – em setembro de 2019, o primeiro-ministro chegou a prometer levar a Autoridade do Medicamento para o Porto mas a decisão, pendente de um estudo, acabou na gaveta. O que não surpreendeu Rui Rio. “Para isso é preciso coragem”.

Sobre o processo de regionalização, admitiu estar “aberto a que essa hipótese seja estuda”, mas não diz que sim a “qualquer processo”, só um que reduza a dívida pública. “Se for para agravar, não faz sentido”, aponta. “Cada euro investido tem de ter um efeito multiplicador”.

Nesse contexto, PSD tem um projeto em curso, que quer ver concluído até ao final do ano, de eleger os presidentes das Comissões de Coordenação Regional, neste momento nomeados pelo Governo, através de um colégio eleitoral alargado (por todos os autarcas de câmara e deputados das assembleias municipais). É um primeiro passo, admite, que pode levar, mais à frente, a um possível “processo de descentralização equilibrado”.