A novela em torno do Desp. Aves não tem fim e conheceu esta terça-feira, dia de jogo com o Benfica, mais alguns episódios insólitos que mostram bem a crise que a SAD avense vive: depois de os jogadores terem sido obrigados a rumar ao estádio para o encontro nas suas próprias viaturas, de táxi ou a pé, porque as chaves do autocarro que costuma transportar a equipa desapareceram, foi chamado um juiz e a GNR ao recinto porque as portas de duas salas utilizadas para a organização do jogo estavam trancadas e ninguém conseguia aceder a esse espaço.

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Mais tarde, uma notícia tão ou mais insólita: a Taça de Portugal de 2018, o troféu mais importante da história de um clube com mais de 90 anos, também estará desaparecido. Outro episódio em torno de um clube e de um grupo que no domingo ia treinar mas foi impedido porque a apólice do seguro estava caducada, que teve de ir para o pavilhão fazer os habituais testes à Covid-19, que não sabiam ao certo quantos iriam aguentar ou rescindir mas que, mesmo depois de uma derrota pesada frente ao Benfica em que Sheytanov e Veiga fizeram a estreia elevando para 44 o número de jogadores utilizados esta temporada, foram aplaudidos por dezenas e dezenas de adeptos. 

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“Quero enaltecer o esforço destes 19 homens, de toda a equipa técnica, dos médicos. Todos tiveram a coragem de ir para dentro do campo e isso é de enaltecer isso. Tem sido difícil, não só nos últimos dias. Foi um ano muito complicado para nós, com muitas dificuldades durante toda a época. Neste momento, as dificuldades estão mais expostas. E quero também agradecer aos adeptos, conseguimos ouvi-los daqui de dentro. Nunca deixaram cair este clube e tenho a certeza que nunca vão deixar cair porque as pessoas da Vila das Aves, nunca vi adeptos tão apaixonados pelo clube. Quero agradecer-lhes porque, sem eles, não era possível nós também estarmos aqui hoje. Também uma palavra para o presidente António Freitas, que fez tudo para que hoje estivéssemos aqui”, disse na zona de entrevistas rápidas da SportTV, Afonso Figueiredo, lateral esquerdo e capitão do Desp. Aves.

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“Primeiro minuto sem jogar? Queríamos aproveitar estes jogos, que sabemos que são vistos por milhares de pessoas, e queríamos mostrar ao mundo, sensibilizar a Liga e a Federação, o Sindicato, para que vissem bem este caso. Um país que é campeão europeu, que tem o melhor jogador do mundo, os melhores treinadores do mundo, não merece passar por isto. Só unidos, todos juntos, podemos conseguir resolver as coisas. Tem sido uma situação bastante complicada e só com a união de todos é que as coisas se vão resolver. A paixão que temos pelo futebol, é isso que nos move. Os jogadores têm de estar todos unidos. Hoje somos nós, amanhã podem ser outros. Só desejo que mais nenhum colega meu tenha de passar por isto, porque é muito triste”, salientou, antes de revelar que Bruno Fernandes, Ricardo Pereira e Cláudio Ramos foram alguns dos jogadores que se mostraram solidários.

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“Era fácil dizer muita coisa e arranjar muitas desculpas, toda a gente sabe as dificuldades e o contexto do Desp. Aves. Vamos continuar a dignificar a camisola do Desp. Aves enquanto nos permitirem. Apesar do resultado que não foi positivo, penso que a resposta dos jogadores honrou e muito o futebol português. A equipa teve momentos interessantes, tínhamos momentos muito importantes pela frente”, sublinhou também Nuno Manta Santos, que deixou a análise para o protesto para jornalistas e comentadores: “Foi uma forma de chamarmos à atenção para alguns problemas que surgem no futebol português atualmente. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa muito exigente mas no dia de jogo preciso muito deles. Como profissional que sou, tanto no dia de jogo ou de treino, se eu puder ajudar, ajudo os meus jogadores. Jogo com Portimonense? Não posso dar garantias disso, posso sim dizer que os jogadores querem jogar e que estão motivados para jogar. São coisas internas, da SAD”.

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Também Pedro Proença, presidente da Liga, deixou em comunicado uma palavra de apreço a todos os jogadores, treinadores e demais profissionais do Desp. Aves. “São públicas as dificuldades que os profissionais do Desportivo das Aves estão a passar e, depois de uma semana difícil para todos, foi notória a vontade dos jogadores em realizarem os dois jogos que faltavam para terminar a temporada. A Liga não podia deixar de elogiar este sinal de respeito por adeptos, dirigentes e, acima de tudo, pelo futebol”, frisou o líder do órgão.