“O Shakhtar vai jogar de acordo com as suas características, alternando fases de alta pressão com fases de baixa pressão para controlar. Eles têm uma identidade própria e atingiram um nível respeitável em termos europeus. O [Luís] Castro conseguiu convencer todos os jogadores talentosos a trabalharem para a equipa. Não é fácil juntar tantos criativos no meio-campo e no ataque e manter um bloco defensivo consistente. Têm uma identidade clara e isso significa trabalho. Temos muito respeito pelo Shakhtar, são a equipa mais forte que defrontámos nesta competição mas estamos nas meias-finais por algum motivo. Vamos lutar com tudo para chegar à final”.

Uma equipa que tem um Júnior como motor mas anda a ritmo de sénior (a crónica do Shakhtar Donetsk-Basileia)

Ao contrário do que acontecia na primeira meia-final da Liga Europa, em que o Sevilha até poderia parecer mais forte no plano coletivo mas o Manchester United tinha jogadores com maior capacidade para desequilibrarem o jogo até de forma individual, o encontro entre o Inter e o Shakhtar começava com um claro favorito na perspetiva teórica. Também por isso, Antonio Conte, treinador dos transalpinos que como jogador ao serviço da Juventus ganhou não só a Taça UEFA mas também a Champions, quis colocar alguma água na fervura de quem apontava a um vencedor por antecipação. No entanto, a descrição que fez dos ucranianos encaixa na perfeição nas explicações para o sucesso do técnico português. Se o conjunto de Milão já tinha enfrentado muitas dificuldades com o Getafe nos oitavos e com o Bayer Leverkusen, teria tantas ou mais pela frente com o conjunto de Donetsk.

De regresso à Liga ucraniana ainda no último dia de maio, após cerca de dois meses e meio de paragem onde quis ter a garantia que nada faltava aos jogadores estrangeiros durante a pandemia, Luís Castro foi desenhando vários modelos de pré-temporada numa longa época de mais de um ano que começou a 28 de julho de 2019 com uma derrota na Supertaça frente ai Dínamo Kiev e que ambicionava prolongar até 21 de agosto, dia da final da Liga Europa. E se a equipa já antes tinha demonstrado a sua superioridade, o regresso à competição mostrou uma formação ainda mais forte que precisou apenas de quatro vitórias no reatamento (Dínamo Kiev, Desna, Kolos Kovalivka e Oleksandriya) para garantir o quarto Campeonato consecutivo com cunho português, depois dos três sucessos seguidos de Paulo Fonseca antes da chegada de Luís Castro, ainda com cinco rondas por jogar.

Os nove jogos de Lukaku a marcar, os nove anos sem glória que o Inter continua a querer esquecer (a crónica do Inter Milão-Bayer Leverkusen)

Se nas muitas entrevistas que foi dando ao longo da pandemia, nomeadamente ao Observador, o treinador foi sempre deixando para segundo plano as conversas sobre a Liga Europa, destacando até que a equipa não estava ainda sequer confirmada na Final Eight porque teria de jogar a segunda mão dos oitavos com o Wolfsburgo, nesse momento havia um novo objetivo em termos europeus de poder repetir a vitória na Taça UEFA de 2009, na altura frente ao Werder Bremen. Tanto no 3-0 ao Wolfsburgo (dois golos de Júnior Moraes e um de Solomon) como no 4-1 ao Basileia (golos de Júnior Moraes, Taison, Alan Patrick e Dodô) o samba que constitui parte do ADN da equipa veio ao de cima e o Shakhtar venceu e convenceu rumo às meias antes do jogo da carreira de Luís Castro.

“Apesar de quando estava no FC Porto ter jogado uns quartos da Liga Europa contra o Sevilha, em 2014, fazendo o balanço de tudo sim, este é o encontro mais importante”, assumiu em entrevista à Marca esta segunda-feira. “Nós os treinadores temos de construir o nosso caminho. Estive dez anos no FC Porto, sete na formação como diretor técnico e depois três como treinador. Quando saí disse ao meu assistente que queria fazer as coisas de uma forma rápida porque o meu objetivo era no prazo de três a quatro anos estar na Champions e foi o que aconteceu”, disse ainda na retrospetiva de uma carreira onde recusou convites da China e de Inglaterra até apareces esta hipótese de assinar pelo Shakhtar. “O nosso objetivo enquanto equipa é fazer feliz quem nos vê a jogar”, referiu depois.

Esse foi o grande segredo para esta campanha dos ucranianos em termos europeus, depois de terem ficado muito perto da passagem aos oitavos da Champions num grupo que tinha Manchester City, Atalanta e Dínamo Zagreb: desde que chegou à  Ucrânia, Luís Castro aceitou o compromisso pedido pelos dirigentes para ter um estilo de jogo atrativo e apresentou uma proposta aos jogadores que permitisse ganhar a jogar bem, como aconteceu. Seguia-se o grande desafio de 2020 para o Shakhtar, frente a uma equipa que faz da tática a sua maior força e que chegava a este final de temporada no melhor momento. “O Conte é um treinador muito complexo. Temos noção de que será um jogo difícil, da mesma forma como o Inter sabe que vai jogar contra um adversário complicado”, resumiu antes do jogo, elogiando o equilíbrio defensivo e ofensivo da equipa italiana e assegurando que não falou com Paulo Fonseca, técnico da Roma que nas últimas três temporadas tinha estado no comando do Shakhtar.

O arranque do encontro teve esse cunho mais tático em momentos distintos: numa primeira fase, o Inter chegou com as linhas mais à frente para tirar metros ao Shakhtar e condicionar por completo a passagem de bola entre setores para os jogadores mais criativos; depois foi o Shakhtar a jogar com mais paciência em posse a roda a bola entre flancos testando a paciência do Inter e chamando os transalpinos para explorar depois os espaços que iam ficar sobretudo nas costas dos alas contrários. Era no erro que estaria a chave para desbloquear o encontro e foi no erro que a equipa de Conte conseguiu passar para a frente. E que erro: Pyatov teve uma má reposição na saída a partir de trás, Barella recuperou a bola, trabalhou na direita, cruzou e Lautaro Martínez desviou de cabeça para o golo inaugural perante a passividade da defesa ucraniana a todos os níveis nos vários momentos (19′).

O Shakhtar começou a partir daí a ter mais bola, tentou arriscar um pouco mais nas zonas de pressão mais altas mas o Inter não só foi controlando o jogo como criou as melhores oportunidades até ao intervalo, com Lautaro Martínez, Lukaku e D’Ambrosio a não conseguirem desviar no coração da área e um cruzamento prometedor da esquerda (26′) e Barella, na sequência de um lançamento lateral com desvio de Lukaku, a arriscar o remate cruzado para defesa de Pyatov (34′). Júnior Moraes, num remate ao lado após cruzamento de Dodô no final de um lance muito bem trabalhado entre passes curtos antes da variação rápida de flanco, teve a única chance do Shakhtar na área (30′) antes da tentativa com maior perigo de Marcos António, de fora da área, que passou perto da trave. Os ucranianos tinham mais bola, os transalpinos eram mais pragmáticos no que faziam com ela.

As características do jogo voltaram com algumas nuances mas sempre com uma ordem tática a fazer rolar tudo o resto: o Inter, sempre com uma dinâmica decisiva no corredor central com Gagliardini, Barella e Brozovic com e sem bola, a explorar a profundidade mais em velocidade (Lautaro Martínez) ou em termos posicionais (Lukaku), criando uma grande oportunidade de novo pelo argentino num chapéu bem defendido por Pyatov que deveria ser anulado por falta no início da jogada (48′); o Shakhtar, em desvantagem, a jogar de linhas mais subidas mas nem sempre a explorar como poderia os corredores laterais. Na primeira vez em que aconteceu pela esquerdo teve a grande chance do jogo, com Júnior Moraes a cabecear sozinho na área para defesa de Handanovic (62′).

A defesa não teve grande nota artística, pareceu até ser quase um gesto reflexo perante a proximidade do dianteiro brasileiro na altura do remate, mas acabou por ser o momento determinante que desequilibrou em definitivo a partida: na sequência de um canto, apenas dois minutos depois dessa oportunidade clara, D’Ambrosio furou a defesa à zona ao segundo poste (ainda para mais com um canto batido com o arco a fugir à baliza, o que atribui ainda mais demérito na marcação) e aumentou a vantagem dos transalpinos para 2-0 (64′). Esse momento quebrou de vez a resistência emocional e anímica da formação de leste, que começou a entrar numa espiral de erros na saída de bola que foi aproveita de forma letal pelo Inter, que chegou ao 3-0 numa recuperação de Brozovic que terminou com um grande remate de fora da área de Lautaro Martínez (74′), aumentou a goleada para 4-0 num lance que começou num mau passe de Matviyenko e terminou com golo de Lukaku após assistência do argentino (78′) e fechou as contas em 5-0 numa arrancada fabulosa do belga que só terminou com o remate certeiro (83′).

Olhando para o que Luís Castro disse antes do jogo, vendo o que Shakhtar fez nos últimos encontros e percebendo a ideia que trazia para os 90 minutos mais importantes da carreira do treinador, o treinador português sabia tudo o que iria encontrar pela frente. O problema é que, perante a dinâmica ofensiva demasiado longe da baliza sem explorar como devia as diagonais e o jogo pelos corredores laterais e os erros em catadupa nas transições e na saída de bola, pouco ou nada haveria a fazer frente a um Inter que terá agora o Sevilha pela frente na final da Liga Europa, em mais um duelo de estilos de resultado imprevisível mas com a certeza de ser um grande jogo.