É um novo desenvolvimento do mais recente escândalo angolano. Carlos São Vicente, genro de Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, foi esta terça-feira preso preventivamente por suspeitas da prática dos crimes de peculato, corrupção, branqueamento de capitais e tráfico de influência, bem como recebimento de vantagem indevida e participação económica em negócio. Este processo já levou à apreensão de vários dos seus bens em Angola, depois de a Suíça lhe ter congelado 900 milhões de dólares, cerca de 760 milhões de euros, numa investigação sobre lavagem de dinheiro.

Segundo um comunicado da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-presidente da seguradora AAA deu entrada na cadeia de Viana, nos arredores de Luanda, depois de ter sido ouvido, pela segunda vez, durante aproximadamente sete horas na Direção Nacional de Investigação e Ação Penal (DNIAP), confirmou ao Observador fonte da PGR.

Há três dias, já as autoridades angolanos tinham congelado as contas e arrestado bens da mulher de Carlos São Vicente, Irene Neto, ex-deputada e membro do Bureau Político do MPLA.

PGR angolana ordena congelamento de contas e apreensão de bens de Irene Neto

Entretanto já foram também enviadas cartas rogatórias a Portugal e ao Luxemburgo, a pedir a colaboração das autoridades judiciais nestas investigações e procuradores angolanos deslocaram-se à Suíça, na semana passada, para tentar recuperar os 900 milhões de dólares que estão na conta congelada do empresário angolano. Isto depois de terem sido apreendidos vários edifícios do grupo AAA — um dos maiores grupos empresarias de Angola na área dos seguros e da hotelaria —  os hotéis da rede IU e IKA em todo o território nacional e o edifício IRCA, em Luanda, que são de Carlos São Vicente. E de o Serviço Nacional de Recuperação de Ativos da PGR angolana ter apreendido a participação social minoritária de 49% da AAA Ativos no Standard Bank Angola, onde São Vicente é administrador não-executivo.

Este caso não tem passado ao lado das famílias dos dois ex-Presidentes de Angola. Isabel dos Santos referiu numa recente entrevista que na sua gestão da Sonangol tinha posto em causa os contratos com a AAA. A filha de José Eduardo dos Santos disse mesmo ter irritado “muita gente” ao anular contratos que lesavam a Sonangol como os da empresa liderada por São Vicente.

Isabel dos Santos diz que “irritou muita gente” quando quis cancelar contratos lesivos para a Sonangol

Por outro lado, a  referência pelos órgãos de comunicação social ao nome do primeiro Presidente de Angola quando se noticia este assunto tem incomodado a família e a Fundação Agostinho Neto que a qualifica de “massacre mediático de uma crueldade indizível”.

Num comunicado assinado pela viúva do antigo Presidente, Maria Eugénia da Silva Neto e pelos filhos Mário Jorge da Silva Neto, Irene Alexandra da Silva Neto e Leda da Silva Neto, a fundação diz que “sejam quais forem as circunstâncias do processo judicial em curso em Angola é absolutamente condenável que, seja quem for, diretamente ou por intermédio de terceiros evoque o nome do presidente Agostinho Neto”.

Essa nota sublinha que Irene Neto casou com Carlos São Vicente seis anos após a morte de Agostinho Neto (há 41 anos) e que este “não o conheceu e nem tem qualquer ligação com a sua vida pessoal e profissional”.