Comecemos por dar um pouco de contexto. Na antecâmara dos jogos da Liga dos Campeões, de acordo com aquilo que são os próprios regulamentos da UEFA, todas as equipas fazem uma conferência de imprensa com o treinador principal e um jogador. Depois, por norma (aqui não foi o caso), e tendo em conta a necessidade de tradução na maioria das vezes, a ordem costuma ser “perguntas para jogador, perguntas para técnico”. Agora, a outra parte mais recente: além das muitas câmaras que passam em direto o momento, algo ainda mais importante numa altura em que a pandemia obriga a algumas limitações, os telemóveis são muitas vezes utilizados para recolher imagens e vídeos. E foi aqui que entroncou o momento de maior relevo na antevisão do Manchester United.

Bruno decide goleada do Manchester United com golo e assistência. A única notícia foi mesmo ter falhado um penálti

Depois de Ole Gunnar Solskjaer ter anunciado que o capitão estava ao seu lado, Bruno Fernandes assumiu de viva voz que soubera ao mesmo tempo dos jornalistas da decisão. Ainda assim, a expressão facial do médio português contou muito mais do que a resposta. Um misto de orgulho, de surpresa, quase de timidez por receber algo que nem Ronaldo, ao longo dos seis anos que passou em Inglaterra, teve oportunidade quando Alex Ferguson era o treinador. Tem uma parte boa, que é provar de forma prática o impacto que o internacional teve desde que chegou a Old Trafford no final de janeiro. Tem uma parte “má”, que é mostrar a falta de referências que leva Maguire, chegado em 2019, a ser o número 1 da hierarquia, seguido neste caso pelo número 18 – e antes havia Ryan Giggs, Gary Neville, Paul Scholes e companhia. Para o ex-jogador do Sporting, era outra motivação.

Depois de ter marcado cinco golos noutros tantos jogos da fase de grupos da última Liga Europa ainda pelos leões, Bruno Fernandes apontou mais três em cinco partidas no momento a eliminar já pelos red devils, o que conferiu o título de melhor marcador da competição em 2019/20. Agora voltava à Champions, palco onde tinha estado só em 2017/18 nos seis jogos onde o Sporting somou duas vitórias (Olympiacos), um empate (Juventus) e três derrotas (duas com Barcelona e Juventus). O maior palco para aquele que quer ser ainda maior, como o próprio fez questão de referir quando instado a comentar essa aposta como capitão no jogo em França frente ao PSG, onde os vice-campeões europeus tentariam vingar a dura derrota de 2018/19 nos oitavos da prova (3-1).

Não esperava isto, soube ao mesmo tempo que vocês [jornalistas]… É uma honra e uma realização importante. O capitão tem de ajudar, ser um líder. A liderança é diferente em todos os jogadores. Não é sobre mim mas sim sobre a equipa. Penso que tenho vindo a jogar bem mas quero sempre evoluir e melhorar. Os meus números são bons mas tenho a certeza que irei fazer ainda melhor”, comentou.

Nove meses depois, Bruno Fernandes vai ser o que Ronaldo nunca foi: capitão. E nem o português esperava o anúncio de Solskjaer

Com um novo esquema tático onde assumia os três centrais com Luke Shaw por dentro e Alex Telles a fazer todo o corredor esquerdo, o Manchester United iniciou o encontro numa toada de expetativa, sem problema de dar a posse ao conjunto francês para evitar situações de saídas em transição que pudessem desequilibrar. E foi isso que aconteceu ao longo de quase toda a primeira parte, que teve apenas um remate com algum perigo de Di María para defesa de David de Gea até aos 20′. Depois, e num erro crasso de abordagem, Diallo deu um toque em Martial na área quando o internacional gaulês se virava num movimento quase de futsal e ofereceu uma grande penalidade aos visitantes para poderem inaugurar o marcador. Aconteceu mesmo, à segunda tentativa.

O milagre aconteceu: Manchester United vence em França e elimina PSG da Liga dos Campeões

Poucos dias depois de ter falhado a primeira grande penalidade desde que chegou a Inglaterra, Bruno Fernandes voltou a assumir a marcação com a paradinha do costume mas o remate saiu demasiado denunciado para o lado esquerdo de Keylor Navas, que travou a tentativa do português. No entanto, o lance acabaria por ser repetido, após a indicação de que o costa-riquenho tinha saído antes de tempo da linha de golo, perante os (muitos) protestos dos jogadores do PSG. Com a bola debaixo do braço enquanto se fazia essa cimeira em torno do árbitro, o capitão fez sinal com a cabeça de que seria ele a tentar de novo a conversão, sem receio da pressão extra que existiria naquele momento, e o 1-0 apareceu mesmo desta feita com o guarda-redes a ir para o lado contrário (23′).

Neymar, sempre com McTominay por perto sem vergonha de fazer faltas longe da área quando necessário, e Di María tentaram uma maior intensidade na frente para recuperarem da desvantagem ainda antes do intervalo mas o descanso chegaria com a melhor oportunidade a pertencer ao Manchester United: Bruno Fernandes puxou a bola para dentro fora da área, tentou a meia distância para grande defesa de Navas e, no canto, McTominay fez passar um desvio de cabeça muito perto do poste ainda com interferência de um defesa da equipa francesa (38′). O PSG procurava outras soluções, trocou Gueye por Moise Kean, e o encontro mudou de características, com a equipa da casa a ter mais hipóteses na frente como aconteceu por Mbappé para grande defesa de De Gea (50′) e os ingleses a tentarem explorar a profundidade com Bruno Fernandes a servir Martial e Rashford. O golo surgiria mesmo, com Martial a desviar para a própria baliza após uma bola na trave de Kurzawa um minuto antes (55′).

Pouco depois, Danilo, que foi pela primeira vez titular no PSG, teve mais um corte providencial perante uma equipa francesa que não aproveitou a supremacia emocional após o golo e deixou que o encontro se partisse, ficando mais a jeito para o Manchester United fazer aquilo que até aí não tinha conseguido fazer. Esse foi o principal erro de Tuchel, que pagaria caro essa incapacidade de agarrar de novo no comando da partida com Marcus Rashford a voltar a ser decisivo no Parque dos Príncipes marcando o golo do triunfo aos 87′ num lance onde o meio-campo dos franceses foi demasiado passivo na agressividade sobre o portador e o inglês marcou o 2-1 num encontro onde Bruno Fernandes voltou a ser um dos melhores (e só não foi o que correu mais, apesar dos quase 11 quilómetros, porque saiu nos últimos minutos e deixou esse “prémio” a Fred) e os ingleses voltaram a fazer a festa, neste caso quebrando uma série de 24 jogos consecutivos do PSG sem derrotas em casa na fase de grupos.