Um advogado que representa os manifestantes que saíram às ruas de Luanda no sábado, esta segunda-feira presentes a julgamento, afirmou que mais de cem pessoas estão detidas sem acusação e que alguns apresentavam sinais de agressões, num “cenário que demonstra tortura”.

“Houve sinais de agressões, muitos deles estão com as camisolas, os vestidos, ensanguentados, é um cenário que demonstra tortura, condenável a todos os títulos”, disse Laurindo Fonseca, do coletivo de advogados que está a ser apoiado pela Associação Mãos Livres, à porta do Tribunal Provincial de Luanda (Palácio Dona Ana Joaquina).

O advogado disse que já houve um contacto prévio com os manifestantes para “apurar o que realmente terá acontecido ou em que condições foram detidos”, estimando que haja mais de cem pessoas presas desde sábado, embora “as autoridades se neguem a dar um número exato”.

Entre estes estarão três menores de idade.

Parte dos detidos encontram-se na 3ª secção, mas ainda não há informações sobre a hora a que irá ter início o julgamento.

“Não temos quaisquer informações, o julgamento ainda não começou, estamos à espera que o tribunal se pronuncie”, afirmou Laurindo Fonseca, indicando que os advogados desconhecem os crimes de que os detidos são acusados.

Não nos prestaram informações e estamos aqui sem conhecer o crime que terão cometido os manifestantes”.

No sábado, uma manifestação convocada por jovens ativistas e apoiada pela UNITA foi violentamente reprimida pela polícia, com recurso a gás lacrimogéneo e um forte dispositivo policial, havendo vários relatos de detenções e agressões a jornalistas, que foram também obrigados a apagar imagens das suas câmaras.

Questionado sobre se os três jornalistas ainda detidos se encontram no tribunal, Laurindo Fonseca respondeu que não se encontram presentes e estariam a ser interrogados pelo Ministério Público no Serviço de Investigação Criminal provincial.

A chegada dos detidos ao tribunal, transportados em carros prisionais, foi saudada por algumas dezenas de jovens que se encontram à porta do edifício, na baixa de Luanda, com gritos de “Liberdade, já”.

A governadora de Luanda, Joana Lina, considerou a manifestação como um “ato de vandalismo” alegando que a marcha não poderia realizar-se devido às medidas de prevenção para fazer face à Covid-19.

Na sexta-feira ao final da tarde, o governo atualizou a situação de calamidade pública com medidas mais restritivas, incluindo a proibição de ajuntamentos com mais de cinco pessoas na via pública.

O decreto presidencial em vigor deveria prolongar-se até 08 de novembro, mas o governo decidiu adotar as novas regras, que entraram em vigor cerca de cinco horas depois de anunciadas, face ao aumento exponencial do número de infeções nos últimos dias.