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Mesmo antes de se ouvir alguma declaração dos Açores, no Rato, o secretário-geral dos socialistas, António Costa puxava dos galões para tentar esconder o óbvio: o PS teve o pior resultado dos últimos 24 anos na Região Autónoma. António Costa preferiu, no discurso, apontar para o copo meio-cheio, apesar da perda da maioria absoluta. Na direita também se cantou vitória e as próximas horas serão de calculadora em riste a somar e subtrair mandatos e deputados ao Parlamento Regional.

PS perde maioria absoluta nos Açores e PSD diz-se disposto a negociar com todos, incluindo Chega

“Esta é a sétima vitória consecutiva do PS desde 1996”, recordou António Costa. Numa primeira parte do discurso esvaziada de política eleitoral, o primeiro-ministro tentou recentrar o discurso nos desafios que o país enfrenta: “Não nos podemos esquecer da grande prioridade: combater a pandemia”. Já sobre o futuro governativo dos Açores, António Costa evitou a todo custo comentar futuras alianças regionais, limitando-se a notar que foi, de facto, o PS que venceu as eleições.

“O PS/Açores goza de total autonomia. Não cabe ao PS nacional pronunciar-se sobre a forma como o encontrará para construir soluções governativas. Tenho a certeza que Vasco Cordeiro conseguirá. Não vou de forma alguma interferir”, diz. A terminar, Costa remeteu ainda para as declarações de Rio. “Matematicamente o PS ficou em primeiro, matematicamente o PSD ficou em segundo. Quanto a mim, respeito a autonomia regional.”

Na mesma linha, Vasco Cordeiro notou que “o PS ganhou de forma clara e inequívoca”. Acompanhado pela família e por Carlos César, Vasco Cordeiro saudou os açorianos, os candidatos do PS que integraram as listas e o mandatário regional e presidente do PS Carlos César.  “Esta é a noite da vitória eleitoral do PS. O PS ganhou estas eleições, ganhou com mais votos e mais mandatos, ganhou em 7 das 9 ilhas, ganhou de forma clara e inequívoca”, disse, olhando para o copo meio cheio.

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“É um facto que o PS nesta próxima legislatura não detém uma maioria absoluta no Parlamento, isso já aconteceu no passado e acontece agora”, notou referindo-se à perda de maioria absoluta que já não acontecia nos Açores há 20 anos. “Continuamos a ser um referencial de estabilidade, de segurança e de fazer cumprir a vontade dos açorianos, mesmo sem maioria”, diz. “A vontade dos açorianos foi dar vitória ao PS”.

Quando questionado sobre se era o PS que devia governar, mesmo tendo a direita maioria no Parlamento regional, o presidente do PS Açores repetiu que o PS é que tinha ganho as eleições — e que “governa quem ganha as eleições”. Então e o que aconteceu em 2015 quando António Costa foi para o governo nacional com o argumento de que, apesar de o PSD/CDS ter ganho as eleições, era a esquerda que tinha maioria no Parlamento? Aí, Vasco Cordeiro atirou para os “arquivos”. É que nessa altura, o líder do PS Açores terá sido “o único” a defender internamente a regra do ‘governa quem ganha’.

Açores acordam sem saber quem vai governar. “Caranguejola” de direita à vista?

Quem também cantou vitória foi o PSD. Segunda força política mais votada, pode mesmo governar numa espécie de vingança açoriana da “geringonça” nacional. O líder dos sociais-democratas Rui Rio não descartou uma “geringonça” de direita e deixu a decisão nas mãos do PSD/Açores. Rui Rio diz que “a vitória não sabe a pouco” para o PSD, já que “o mais normal é que o PS ganhasse a maioria absoluta” e “ficou muito longe”. O presidente do PSD destaca que não consegue “uma maioria”, nem com o Bloco de Esquerda e o PAN.

No entanto, Rio destaca que “em termos aritméticos, o PS ficou em primeiro, o PSD ficou em segundo”. Ao mesmo tempo destacou também que José Manuel Bolieiro é “equilibrado”.

Rui Rio diz que “com base nestes resultados a governabilidade dos Açores não é simples”. Não descarta, no entanto, “geringonça” de direita: “A direita toda consegue, mas é muito fracionada, tem muitos partidos, mas também não será fácil. A direção regional tem de decidir”. O líder social-democrata diz, no entanto, que “o primeiro partido a ser chamado a formar governo é o PS, que ficou em primeiro”.

O presidente do PSD, Rui Rio, começa por destacar que o PS perdeu 7% e o PSD ganhou 3%. O líder social-democrata diz que o PSD “se afirmou com alternativa” na região com o reforço de votação.

Rui Rio criticou, no entanto, “os métodos que o PS” utilizou na campanha, acusando os socialistas de tirar “partido do poder”. O líder do PSD disse ainda que “o PS fez que publicar uma notícia” contra o candidato do PSD, José Manuel Bolieiro. Numa referência a uma notícia do jornal Público que dava conta de que o candidato do PSD/Açores estava a ser investigado pelo Ministério Público por atos de quando era presidente da câmara municipal de Ponta Delgada.

José Manuel Bolieiro, presidente do PSD Açores, falou numa “noite histórica na democracia e na autonomia dos Açores”. “Há muito tempo que não víamos a alegria do PSD pela participação que ajuda a mobilizar o partido e a ter crença nos nossos valores”, disse, destacando o contributo do PSD para diminuir a abstenção.

“Há na democracia autonómica uma mudança histórica, é no parlamento que agora se centra a decisão política. Não há nenhuma decisão unilateral de nenhum partido. Não há nenhuma decisão que não tenha de passar pelo diálogo e pelo respeito parlamentar”, diz, destacando que o PSD sobe mais 6 mil votos em relação a 2016, e o PS desce 2.500 votos face a 2016.

“Há uma nova responsabilidade para o PSD, e o PSD assume com a firmeza democrática e a humildade institucional que estará responsavelmente atento a este novo quadro político e parlamentar para conseguir estabilidade governativa para os Açores”, afirma, sublinhando que o quadro político nos Açores é de “diálogo” a partir de agora.

Questionado sobre se rejeita aproveitar uma maioria de direita por causa do Chega, Bolieiro diz que “atitudes extremistas e populistas não me comovem”. Mas há um ‘mas’. “O que posso hoje garantir humildemente é a minha total disponibilidade para o diálogo e para a concertação, não haverá nenhuma declaração unilateral sem ante dialogar”, disse acrescentando que “o quadro é tão polivalente que pode admitir tudo”.

“Pode admitir uma solução de liderança de oposição como até uma responsabilidade alternativa. Hoje é o parlamento que determina a formação do governo e não apenas o ato eleitoral e o voto. Reafirmo a minha disponibilidade mas nunca através de uma declaração unilateral”, disse, deixando a porta aberta a uma maioria de direita nos Açores.

Chega deixa mensagem dúbia, CDS diz que resultado mostra que quem lidera à direita são os democratas-cristãos

Já o Chega parece ter maior resistência a esta coligação de direita, numa mensagem dúbia deixada pelo líder do partido em Ponta Delgada. André Ventura primeiro disse que o Chega vai estar fora de qualquer acordo de coligação. Depois, disse que foi o PSD que se afastou do Chega e não o contrário; e ainda garantiu que “a última coisa que deseja” é ver o PS a governar os Açores. Ou seja? O Chega, com dois deputados, pode inviabilizar um governo do PS, mesmo que não entre numa coligação de direita e se abstenha nessa situação.

“Nós temos valores e convicções. Ou aceitam ceder e juntar-se a nós nestas convicções ou nós não aceitamos vender-nos por lugares, nem por governabilidades, nem por chantagens, que é isso que os outros partidos estão a fazer”, disse André Ventura em Ponta Delgada. É o PSD que tem de ir ao seu encontro, e não o contrário. O PSD, por seu lado, diz que rejeita “compromissos com lógicas populistas nem demagógicas”, mas insiste que o diálogo é para ser feito “com todos”. Ficou, portanto, tudo em aberto.

Ainda na direita, o líder do CDS dá liberdade ao CDS Açores, mas sugeriu a preferência por uma geringonça de direita: CDS/Açores saberá “ler a vontade de mudança”. Francisco Rodrigues dos Santos afirmou que “o CDS foi partido determinante para tirar a maioria ao PS” e que o CDS é uma “direita que acrescenta e que soma” e “não a direita que divide”.

O presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, começou por assinalar que as notícias da morte do CDS nos Açores “foram manifestamente exageradas e desmentidas em urnas” acrescentando que este foi  “um dia triste para os fabricantes das sondagens”, lembrando que o “CDS teve cinco vezes mais do que nos davam as sondagens”.

Francisco Rodrigues dos Santos diz que o CDS é “o terceiro partido político nos Açores e o maior de direita” e diz que isto prova que “à direita, lidera o CDS”. Num sinal para dentro, Rodrigues dos Santos deixou uma mensagem para aqueles que “diziam que era um teste” à sua liderança, para lembrar que o ultrapassou esse teste.

Já o líder do CDS Açores, Artur Lima, quando questionado sobre uma eventual coligação à direita destacou que o CDS é um partido “responsável e não deixará os Açores num cenário de ingovernabilidade”. “Vamos conversar, naturalmente, pondo sempre em primeiro lugar as pessoas e os interesses dos açorianos”, diz.

Questionado sobre uma geringonça de direita, não fecha a porta. “Vamos ponderar, com responsabilidade”, disse, reafirmando que o CDS “viabiliza compromissos eleitorais”.

“O CDS foi o primeiro a enfrentar o embate forte de oposição à direita com o Chega e o Iniciativa Liberal. O que mostra que o CDS é um valor seguro para os açorianos e temos conseguido sustentadamente ser a terceira força nos Açores”, disse, sublinhando a ideia de que “o CDS está vivo e recomenda-se”. “Ainda não foi desta que morreu”, diz.

Artur Lima criticou fortemente a “gentalha das sondagens” devido à sondagem que foi divulgada na última semana de campanha, por ser feita apenas em duas ilhas e não ser reflexo do que se passa nos Açores.

Também a Iniciativa Liberal se mostrou disponível para fazer negociações nos Açores à direita. João Cotrim Figueiredo, presidente da Iniciativa Liberal, celebrou o resultado “histórico” do partido nos Açores e, ainda que rejeite o rótulo de direita ou esquerda, reconheceu que o objetivo do partido foi sempre o de retirar da equação o PS. Logo, afirmou, está disponível “para fazer negociações” com os partidos de direita, nomeadamente o PSD.

Jerónimo fala em resultado “particularmente negativo” e no Bloco fez-se a festa com “resultado extraordinário”

Na esquerda, onde a CDU perdeu a representação parlamentar nos Açores, Jerónimo de Sousa lamentou o resultado “particularmente negativo” e apontou a perda de maioria absoluta do PS como um sinal de um “descontentamento crescente”.

“A perda de representação parlamentar pela CDU constitui um resultado particularmente negativo na vida política regional, um significativo empobrecimento democrático e sobretudo uma fragilização da intervenção em defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo açoriano, como aliás já foi comprovado entre 2004 e 2008, período em que a CDU não teve representação parlamentar”, apontou o secretário-geral dos comunistas.

Mas dos comunistas vieram também críticas. Jerónimo de Sousa apontou às “forças políticas sem percurso ou contribuição real na vida política e social regional” que “sem proposta ou projeto para a região encontraram campo na demagogia e na exploração de um ambiente de descrença generalizada”.

E na mesma noite em que o BE anunciava o voto contra o Orçamento do Estado para 2021, deixando o PS sem o apoio que teve nos últimos cinco anos para aprovação de Orçamentos, o Bloco celebrava um “resultado extraordinário” e diz estar disponível para alianças com PS na Região Autónoma.

Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, reagiu à noite eleitoral a partir da sede de Lisboa, falando em “resultado extraordinário”, o “melhor de sempre” na história do partido.

Mais importante: o bloquista garante que o partido “não apresentará nenhuma moção de rejeição” ao programa de governo do PS e que está disponível para alianças com o PS.

O líder parlamentar do BE recusou ainda uma “leitura nacional” direta das regionais, mas fez um alerta que é necessária “uma mudança de política”, porque isso foi “pedido nas urnas”.

“Estas eleições são açorianas, refletem a escolha dos açorianos. Sempre que há descontentamento com pobreza, com a exclusão social, quem está no poder perde com esse descontentamento porque não está a responder às pessoas e muitas vezes perde para o aumento da extrema-direita”, disse ainda.