Pedro Nuno Santos criticou Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, que foi defendido por Porfírio Silva e Ana Catarina Mendes. Ana Gomes, antiga eurodeputada e militante do PS, mereceu uma menção honrosa da direção do PS, mas foi Marcelo quem saiu como o candidato oficioso da cúpula do PS — e com o voto anunciado de Fernando Medina, apontado como rival de Pedro Nuno. No final, Antónia Costa acabou a jurar a pés juntos que o partido “estava unido” e que o tema das presidenciais estava ultrapassado. Mas a Comissão da Nacional do PS contou uma história muito diferente.

Para a reunião magna do partido, que decorreu esta tarde, em Lisboa, António Costa levou um perfil que encaixa que nem uma luva no único que ainda nem sequer é candidato: Marcelo Rebelo de Sousa, com quem o Governo tem tido uma boa “cooperação institucional”. O plano estava escrito há muito: o PS não vai aprovar formalmente qualquer candidato, os militantes têm margem para apoiarem quem entenderem e só André Ventura está completamente riscado. A moção foi aprovada por “esmagadora maioria” e sem especial dificuldade. Mas isso quer dizer que o partido está unido? Não, de todo. Pedro Nuno Santos foi a jogo, não escondeu o desagrado, e, em troca, ouviu duras críticas de alegada “superioridade moral”.

Foi talvez o maior momento de tensão da reunião magna do partido, que, devido à pandemia, se realizou em formato digital: Pedro Nuno Santos falou, via Zoom, para deixar claro ao que ia — vai apoiar Ana Gomes e não concorda com a avaliação positiva que António Costa faz do mandato de Marcelo. Ao que o Observador apurou junto de fontes presentes na reunião, o ministro das Infraestruturas e dirigente socialista criticou a direção do partido pelo atraso da reunião interna para discutir o tema das presidenciais — que acontece dois meses depois de Ana Gomes anunciar a sua candidatura e a dois meses da ida às urnas — e acusou Marcelo Rebelo de Sousa de chamar a si toda a “centralidade política” desta legislatura, o que é, em última análise, um erro imputado ao próprio PS.

A posição do ministro das Infraestruturas e do principal rosto da ala mais à esquerda do PS não surpreendeu, mas, nem por isso, deixou de causar mal-estar na direção do PS. Porfírio Silva, presente na sala onde estava António Costa, não gostou e fez aquilo que foi descrito ao Observador como um ataque “muito duro”. Entre várias considerações sobre a importância e o timing da discussão do tema “presidenciais” nas bases e na cúpula do partido, o dirigente e deputado socialista acusou o ministro das Infraestruturas de não “aparecer” nas reuniões da cúpula do partido — o Secretariado, do qual ambos fazem parte — e de, depois, aparecer na reunião mais alargada, onde estão militantes como Daniel Adrião, o crítico do costume de António Costa, a despachar críticas para todos os gostos.

Pedro Nuno anuncia apoio a Ana Gomes e culpa Marcelo pela instabilidade da geringonça

É “particularmente grave” que Pedro Nuno Santos faça as críticas que faz quando “não aparece nas reuniões do Secretariado Nacional”, acusou Porfírio Silva, segundo confirmou o Observador depois de a agência Lusa ter avançado essa mesma informação. Porfírio Silva foi ainda mais longe e criticou o facto de Pedro Nuno se estar a pôr no mesmo nível de Daniel Adrião, que, ao contrário do primeiro, não tem lugar na direção mais restrita do partido. “És demasiado grande para te meteres na conversa de Daniel Adrião“, terá dito.

Certo é que Pedro Nuno Santos não esteve na reunião do Secretariado, na sexta-feira à noite, onde foi afinado o texto sobre o não-apoio do PS a nenhum candidato, que seria este sábado apresentado à Comissão Política e posto à discussão e votação na Comissão Nacional. Ao Observador, o ministro e ex-líder da JS, alegou “motivos pessoais” por não ter marcado presença naquela reunião, mas não se livrou de críticas internas.

Além de Porfírio Silva, que agudizou o tom da crítica, também Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do partido, fez uma crítica que pode ser entendida como tendo como alvo Pedro Nuno Santos: “O facto de ter uma opinião diferente de outro camarada não me dá o direito de dizer que sou moralmente superior“, terá dito na reunião, lembrando ao partido que os socialistas “devem respeitar-se” todos e não devem procurar “reescrever a história do PS”.

História essa que Pedro Nuno Santos tinha criticado, na sua intervenção, quando criticou implicitamente António Costa por ter deixado que Marcelo Rebelo de Sousa assumisse a “centralidade política” da legislatura e por não ter exigido um acordo escrito com a geringonça, em 2019, culpando-o pela instabilidade política que o Governo atravessa com os parceiros da esquerda. Segundo disse Ana Catarina Mendes, em mais um recado entendido como dirigido a Pedro Nuno, a responsabilidade pela atual ausência de acordo escrito “não é de nenhum presidente de Câmara, nenhum Presidente da República, nenhum primeiro-ministro, nem dos deputados ou líderes parlamentares”. É apenas da vontade política dos parceiros.

Um apoio que é um posicionamento

Foi em 2018, no último congresso do PS, que Pedro Nuno Santos deu o primeiro passo rumo a uma eventual candidatura à liderança do PS, pós-Costa, quando se procurou posicionar como o rosto da ala esquerda do PS. Na altura, o seu discurso fez levantar o Congresso como mais nenhum outro e levou até António Costa, no final da noite, a subir ao palco para afirmar que ainda não tinha postos “os papéis para a reforma”.

Na altura, como agora, Pedro Nuno tinha entrado num debate ideológico com a ala mais à direita do partido, representada por Augusto Santos Silva, que encheu páginas e páginas de jornais. Foi o que voltou a fazer desta vez, a propósito do debate sobre as eleições presidenciais, tendo entrado em diálogo com o ministro dos Negócios Estrangeiros, via jornais, sobre o posicionamento do PS no sufrágio de janeiro. De um lado, Santos Silva defendia a continuidade de Marcelo e as boas relações que Governo e Belém têm tido, e deixava escapar que Ana Gomes era uma boa candidata mas não uma boa candidata para o PS. Do outro, Pedro Nuno aparecia perante os jornalistas a dizer que não apoiar o atual Presidente da República não significa “desconsideração, desrespeito ou deslealdade”, e a sair em defesa de Ana Gomes, dizendo que não é justo que sirva para cargos como eurodeputada ou dirigente nacional e agora, “porque não dá jeito”, não sirva para uma candidatura presidencial.

A cama estava feita e tudo estava preparado para a chegada do dia de hoje: o dia em que, finalmente, ao fim de três adiamentos devido à pandemia e às eleições nos Açores, o PS reunia os órgãos próprios e discutia o tema tabu para o qual António Costa tinha pedido recato. Assim foi. Mesmo à distância, via Zoom, Pedro Nuno Santos fez o que tinha previsto que ia fazer — criticou a direção do partido, criticou Marcelo, não votou a moção da sua própria direção por não ter direito a voto (por ser inerente na Comissão Nacional) e anunciou o apoio a Ana Gomes.

Um apoio que deverá ser seguido por alguns dirigentes e militantes socialistas da ala mais à esquerda, mas não só (e não por todos), já que o grande promotor da candidatura de Ana Gomes foi Francisco Assis, que representa precisamente o mais à direita que há dentro do Partido Socialista. Em todo o caso, o posicionamento de Pedro Nuno pode ser visto como um statement político, e contrasta claramente com o posicionamento de outro putativo candidato à liderança do PS, no futuro, Fernando Medina.

Medina, que também faz parte do Secretariado e que, ao contrário de Pedro Nuno, estava ao lado de Costa e Carlos César na sala do Centro da Esquerda, em Lisboa, onde foi conduzida a reunião, interveio precisamente para anunciar o seu sentido de voto em Marcelo Rebelo de Sousa.

Seguindo a linha de algumas personalidades de peso na cúpula de Costa, como Santos Silva, Carlos César ou Ferro Rodrigues, o presidente da câmara de Lisboa defendeu as boas relações institucionais do Governo com Belém no primeiro mandato e a importância de isso continuar, fazendo uma avaliação positiva do mandato de Marcelo em Belém. Já Ana Catarina Mendes, que também se pode posicionar neste quadro de sucessão, optou por não revelar já o seu sentido de voto.

Costa garante que partido está unido sobre as presidenciais

Costa pede voto em candidato que valorize cooperação com Governo (e elogia cooperação de Marcelo)

António Costa não diz nem dirá em quem vai votar nas presidenciais de janeiro; nem diz nem dirá em quem o PS deve votar — desde que não seja em André Ventura. No final da reunião, que não foi longa nem especialmente participada, António Costa anunciou o resultado: partido aprovou moção por “esmagadora maioria”, com duas abstenções e cinco votos contra, e está “unido” na ideia de que não deve apoiar nenhum candidato presidencial, deixando o caminho aberto para cada um participar como entender nas várias candidaturas e para votar em quem entender.

Mas o texto da moção, que saúda a candidatura de Ana Gomes, dizendo que se trata de uma “distinta militante” do PS, é bastante elogioso da cooperação institucional do atual Presidente da República com o Governo, ao mesmo tempo que é claro no perfil que traça daquilo que deve ser o próximo Presidente: o que melhor valorizar essa mesma cooperação.

Sem dar orientação de voto aos socialistas, o partido limita-se a dizer que os socialistas devem apoiar que, entre outras coisas, “valoriza a cooperação institucional entre Presidente e Governo”. Devem apoiar “quem tem demonstrado, ao longo da sua vida política, adesão genuína e plena aos valores da Constituição, do Estado de Direito e da democracia; quem está em melhores condições para cumprir e fazer cumprir a Constituição; e quem valoriza a solidariedade e cooperação institucional entre Presidente e Governo, no respeito escrupuloso das competências dos diferentes órgãos de soberania”, lê-se no documento.

E mais: devem apoiar “quem compreende o valor da estabilidade política em todas as circunstâncias, mas com especial acuidade em circunstâncias económicas e sociais difíceis como aquelas que atravessamos”, lê-se ainda. Um perfil que encaixa que nem uma luva na “avaliação positiva” que António Costa, minutos depois, faria do mandato de Marcelo em declarações aos jornalistas no final da reunião.

“O PS fez e faz uma avaliação positiva do atual mandato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, e valoriza em particular o entendimento que tem sido marcado pela solidariedade institucional e pela forma como tem assegurado a representação externa do Estado português”, disse Costa, elogiando ainda a “correta cooperação institucional entre PR e Governo”, que foi um “contributo importante para superar a crise económica, no passado, e afirmar a credibilidade do país”. Uma cooperação que também “tem sido decisiva nesta fase de emergência sanitária, e no consequente esforço conjunto para a reconstrução de Portugal”. Uma emergência que se prevê que continue para lá de janeiro e que, portanto, não se coaduna com sobressaltos institucionais. Não disse Costa, mas podia.