Era a intervenção mais esperada da tarde. Depois de António Costa falar à Comissão Nacional, apresentando a proposta da direção do PS de não apoiar nenhum candidato presidencial, Pedro Nuno Santos fez o que já há meses ameaçava fazer: anunciou o apoio a Ana Gomes e demarcou-se dos elogios a Marcelo Rebelo de Sousa, culpando o atual Presidente pelo momento de instabilidade que vive a geringonça, uma vez que, ao contrário do que fez Cavaco Silva em 2015, Marcelo não exigiu em 2019 um acordo escrito que fosse garante de estabilidade. Uma crítica que pode também ser estendida a António Costa, uma vez que o primeiro-ministro dispensou um acordo escrito com o Bloco de Esquerda no início da legislatura — por não concordar com as condições.

Com este assumir de posição, Pedro Nuno Santos dá mais um passo no sentido de se assumir como figura de relevo no futuro do partido pós-Costa. Ao que o Observador apurou junto de fontes presentes na reunião, que decorre esta tarde em formato digital, o ministro das Infraestruturas e dirigente socialista criticou a direção do partido pelo atraso da reunião interna para discutir o tema das presidenciais — que acontece dois meses depois de Ana Gomes anunciar a sua candidatura e a dois meses da ida às urnas — e acusou Marcelo Rebelo de Sousa de chamar a si toda a “centralidade política” desta legislatura, o que é, em última análise, um erro imputado ao próprio PS.

Pedro Nuno Santos falou ao órgão máximo do PS entre congressos logo a seguir a António Costa ter apresentado a proposta da direção — e fê-lo por Zoom, uma vez que presencialmente no Centro da Esquerda, no Largo do Rato, está apenas a Mesa, presidida por Carlos César e António Costa, e o núcleo de direção mais restrito (o Secretariado Nacional e a comissão permanente). Núcleo esse que Pedro Nuno Santos faz parte, tendo lugar no Secretariado Nacional, mas o Observador sabe que o ministro não esteve presente nem na reunião do Secretariado, ontem à noite, nem esta manhã na Comissão Política Nacional. Questionado pelo Observador sobre o motivo para não ter ido à reunião da direção mais restrita, o dirigente socialista invocou “motivos pessoais”.

Presidenciais. O dia em que o PS vai discutir o que Costa nem quer ouvir falar

A reunião começou às 15h e arrancou com uma intervenção de António Costa a apresentar a proposta da direção socialista de não apoiar nenhum candidato, libertando os socialistas para apoiarem todos os que candidatos que se insiram no espectro político democrático — de Marcelo a João Ferreira (PCP), passando por Ana Gomes e Marisa Matias (BE). Nessa intervenção, ao que o Observador apurou, Costa fez elogios ao atual Presidente da República, com quem o Governo tem tido boas relações institucionais, mas também a Ana Gomes, militante socialista.

A proposta da direção socialista sobre o não-apoio a nenhum candidato vai ser votada esta tarde na Comissão Nacional, depois de ter sido aprovada na reunião do Secretariado Nacional, ontem à noite, e de ter sido apresentada à Comissão Política Nacional esta manhã. Nesta fase, poucos são os que discordam de que o partido não tenha candidato presidencial assumido, e até Pedro Nuno Santos deverá acompanhar esta posição da direção, depois de ter deixado claro qual vai ser a candidata que vai apoiar.

Em contrapartida, Medina anuncia apoio a Marcelo

Em sentido contrário ao de Pedro Nuno Santos está Fernando Medina, outro nome de que se fala quando toca ao capítulo da sucessão pós-Costa. Ao que o Observador apurou junto de fontes presentes na reunião, o presidente da câmara de Lisboa anunciou na intervenção desta tarde na Comissão Nacional que irá apoiar Marcelo Rebelo de Sousa. O argumento foi o da boa relação institucional com o Governo e a forma como exerceu o primeiro mandato numa altura em que a estabilidade política é fundamental.

Quem criticou “duramente” Pedro Nuno Santos foi o dirigente e deputado Porfírio Silva, que acusou o ministro de não ir às reuniões do Secretariado Nacional, tal como não foi à reunião desta noite para decidir a posição do partido sobre este tema. “Foi um ataque muito duro”, diz uma fonte presente na reunião.

Ao que o Observador apurou, falaram “poucas pessoas” nesta reunião, que irá votar a proposta da direção do PS sobre o posicionamento do partido nas presidenciais. Ana Catarina Mendes, por exemplo, falou para defender a posição do partido de dar liberdade de voto sem deixar nenhuma orientação à partida, e deixou um alerta para o perigo dos populismos nesta corrida presidencial, mas não foi clara sobre o nome que irá apoiar.

Numa linha não taxativa pró-Marcelo nem pró-Ana Gomes houve também quem interviesse no sentido de Ana Gomes ser uma espécie de mal menor, como foi o caso do vice-presidente da bancada parlamentar socialista, João Paulo Correia, que assumiu estar a ponderar um voto em Ana Gomes mas apenas por uma questão matemática anti-Ventura e por não querer votar em Marcelo. “A candidatura de Ana Gomes tem mais virtudes do que a própria candidata”, terá dito o deputado, defendendo que um voto e Ana Gomes é um voto em que não quer apoiar Marcelo e quer criar uma espécie de tampão à candidatura de André Ventura.

Crítico de Costa ainda quer primárias

O que poderá não ser votado esta tarde é a convocação de eleições primárias para a escolha do candidato presidencial apoiado pelo PS — que Daniel Adrião, conhecido crítico de Costa, e outros 21 membros da Comissão Nacional, assinaram. Ao Observador, Daniel Adrião, que apoia Ana Gomes e que considera que o PS devia apoiar esta candidatura, afirma que Carlos César, na qualidade de presidente da Mesa, não colocou a sua proposta à discussão e avançou, à mesma, com uma proposta de votação nesse sentido.

“Os membros da Comissão Nacional subscritores da presente proposta requerem que a Comissão Nacional do PS, reunida em Lisboa no dia 7 de novembro, delibere 1) a realização de eleições primárias para a escolha do candidato à Presidência da República a ser apoiado pelo PS; 2) mandatar o Secretariado Nacional para elaborar o regulamento próprio e conduzir o processo eleitoral”, lê-se na proposta de deliberação.

Daniel Adrião escuda-se nos estatutos do partido, artigo 68º, para defender que “a Comissão Nacional, “por sua iniciativa ou sob proposta do Secretariado Nacional, pode deliberar sobre a convocatória de eleições primárias fechadas ou abertas para a escolha dos candidatos a titulares de cargos políticos nos termos e condições estabelecidas em regulamento próprio por si aprovado”.