Os presidentes executivos (CEO) do BCP e do BPI afirmaram esta sexta-feira a “disponibilidade” da banca para colaborar com o Governo no “desenho de soluções” adicionais e específicas para os setores mais afetados pela pandemia, como a restauração.

“Creio que a restauração é um dos setores em que, provavelmente, o Estado tem de dar mais apoios. Mas não se pode pedir aos bancos que concedam crédito se não tiverem capacidade de recuperar esses créditos, isso é uma mera destruição de valor. Cabe ao Governo trabalhar em soluções e a banca também está disponível, pelo menos o BCP está, seguramente, empenhado no desenho de soluções que possam ajudar esses setores muito específicos”, afirmou o CEO do Millennium BCP.

O banqueiro falava durante a conferência ‘online’ “A Banca no pós-Covid-19”, promovida pelo Dinheiro Vivo e TSF. Apontando o setor da restauração como “talvez o caso mais dramático” entre o grupo de setores mais penalizados, Miguel Maya considerou que poderia ser apoiado, por exemplo, “com linhas específicas (de crédito) com garantia de Estado, como já foi feito, que permitam que essas entidades superem este período”.

Na mesma linha, o CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, salientou que a crise gerada pela pandemia está a ter “impactos completamente assimétricos”, havendo “setores muitíssimo mais afetados para os quais os apoios não podem ser iguais aos outros, como a restauração”.

Agora a solução não passa por dar mais crédito, tem de se encontrar outras soluções e o BPI também está disponível para isso”, assegurou.

João Pedro Oliveira e Costa, numa posição partilhada pelos restantes banqueiros que participaram na conferência, fez um balanço muito positivo da resposta dada pelo Governo para apoiar a economia no atual contexto de crise pandémica, salientando que “para o Estado isto também é novidade” e “não há receitas certas, com efeitos imediatos”.

“O que foi feito até à data pelo Estado foi muitíssimo bem feito. O impacto direto das moratórias foi enorme”, sustentou, rejeitando que sejam um “empurrar com a barriga” e considerando que foram “fundamentais no momento zero”.

Também para o CEO do BCP, o “equilíbrio” conseguido entre moratórias e apoios públicos “foi o correto e adequado para superar” a atual situação, sendo que, dadas as limitações impostas pelo elevado peso da dívida pública portuguesa, “a banca teve de se chegar à frente de forma muito mais pesada” do que noutros países nas medidas a tomar, assumindo a concessão de moratórias um “papel muito importante”.

Para Miguel Maya, numa visão partilhada pelo CEO do Novo Banco, Ângelo Ramalho, “o grande risco” que se coloca neste momento à banca “não tem a ver com as moratórias” e as perdas imediatas que implicam para os bancos, nem com a subida do nível de crédito vencido, mas com “retirar as moratórias antes de a economia começar a mexer novamente”.

“Tivemos um sinal [de alguma retoma da atividade] em julho e agosto, mas há setores muitíssimo importantes que continuam a não ter ‘cash flow’. E vamos nós, sistema financeiro, não apoiar esses empresários?”, questionou.

Para o líder do BCP, “era quase que criminoso não apoiar as empresas a atravessar este deserto a que são alheias”, mas para tal é essencial “distinguir as que são viáveis neste contexto de nova normalidade”. Corroborando as palavras do governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que tinha falado momentos antes, o CEO do Novo Banco salientou que, quando a crise pandémica surgiu, “Portugal estava numa circunstância bastante melhor”, com empresas e um sistema bancário muito mais capitalizados.

“De facto há um desafio à nossa frente e, do ponto de vista da banca portuguesa, naturalmente ainda há riscos pelo facto do nosso índice de NPL [‘non performing loans’ ou crédito vencido] ainda ser mais elevado do que que na Europa, o que obriga a cautelas excecionais. Devemos estar atentos, como temos estado”, sustentou António Ramalho.

Para o administrador executivo do banco Santander, Miguel Belo de Carvalho, após o “caminho extraordinário” percorrido pela banca em Portugal na recuperação de NPL, o que importa é pensar nas dificuldades dos clientes e em encontrar soluções para o pós-moratórias e o pós-crise. “De facto, vimos num caminho extraordinário de baixar os NPE [exposições não produtivas] dos 17% para os 5,5% e se pensarmos que, depois desta crise, voltaremos a ter pelo menos um ‘double digit’ [dois dígitos] de NPL — o que não me parece que seja assim fora da caixa — isto implica, para mantermos as taxas de cobertura que temos atualmente, um esforço muitíssimo importante do ponto de vista de provisões, que pode andar nos três, quatro ou mais milhões de euros, e isso vai diretamente ao capital”, disse.

Ainda assim, sustentou, tal não significa que seja de trazer para cima da mesa um cenário de aumentos de capital em 2021: “Não me parece que devamos questionar já a questão do aumento de capital. O mais importante é estarmos a montante disso e trabalharmos todos para encontrar soluções para evitar que o problema dos NPE se venha a tornar um problema de capital e evitar a necessidade de aumentos de capital”, defendeu.