Continua o pingue-pongue de acusações entre Mário Ferreira, escolhido como novo presidente da Media Capital, e a Cofina, um grupo ao qual o empresário do Norte se juntou, inicialmente, numa OPA sobre a dona da TVI.

Em declarações esta quarta-feira à Lusa, fonte oficial da Cofina afirmou que “a fragilidade da situação atual do grupo Media Capital e os fatores que para ela contribuem encontram-se aprofundadamente descritos na decisão da CMVM [Comissão do Mercado de Valores Mobiliários] e na deliberação da ERC, a quem caberá, eventualmente em conjunto com outros reguladores, e com os tribunais, valorar e extrair as devidas consequências das condutas em causa”.

Mais: a Cofina diz que, enquanto oferente na oferta pública de aquisição (OPA) em curso, continua disponível para fazer parte de uma solução de viabilidade e crescimento da Media Capital”.

Questionado pelo Observador, Mário Ferreira respondeu – por escrito – às declarações da Cofina. Se há fragilidade na Media Capital, diz o empresário do Norte, esta deve-se ao facto de a Cofina ter abandonado o negócio da OPA ainda em curso.

“Quem torpedeou gravemente a Media Capital foi quem, desistindo do negócio anterior, podia ter tornado a empresa insolvente. É esta decisão de investir que salvou a empresa”, considera Mário Ferreira na resposta ao Observador.

Aliás, Mário Ferreira admite que nem sequer pensava em responder a mais uma posição da Cofina sobre o assunto. “Confesso que não estava a pensar fazer qualquer comentário mas, realmente, pela inconsistência e o desfasamento da realidade desse comunicado sempre me ocorre dizer-lhe que somos proativos e abertos com todos os reguladores, respeitando sempre a lei. Respeitarmos a lei quer dizer, também, proteger a liberdade de expressão e a ética e deontologia do jornalismo…”, salienta o presidente da Media Capital.

E repetiu uma insinuação já deixada em conferência de imprensa na terça-feira, a de que a Cofina está a utilizar os meios de comunicação que integram o grupo para travar uma guerra contra os atuais administradores da Media Capital. “Nunca utilizámos qualquer meio de comunicação social para atacar terceiros no que a este negócio respeita e, muito menos, naquilo que cada um deve preservar na sua vida pessoal”, considera.

Na terça-feira, o empresário Mário Ferreira, que detém 30,22% da Media Capital através da Pluris Investments, foi eleito presidente do Conselho de Administração da dona da TVI, na assembleia-geral que reuniu os novos acionistas da empresa.

Na véspera, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) tinha divulgado uma deliberação na qual afirma ter “fundadas dúvidas sobre a identidade” dos acionistas da Media Capital, avisando que qualquer decisão tomada na assembleia-geral que possa envolver alteração de domínio poderia não ser reconhecida.

Em 12 de agosto, a Cofina lançou uma OPA sobre 100% do capital da dona da TVI, alterando a oferta de 21 de setembro, sendo o valor de referência proposto de 0,415 euros por ação, a que corresponde um montante total de 35 milhões de euros e considera um ‘entreprise value’ de cerca de 130 milhões de euros.

A CMVM considerou que houve exercício de concertação entre a Pluris Investments (de Mário Ferreira) e a Prisa (Vertix) na Media Capital, determinando que o empresário Mário Ferreira lance no prazo máximo de cinco dias, que termina precisamente esta quarta-feira, uma OPA obrigatória sobre 69,78% do capital da dona da TVI.

Em conferência de imprensa, na terça-feira, a primeira enquanto presidente do Conselho de Administração da Media Capital, Mário Ferreira remeteu para esta quarta-feira uma resposta à CMVM, salientando que o que houve foi “um alinhamento de ideias” e não uma concertação.

Relativamente à ERC, Mário Ferreira disse que a deliberação da entidade reguladora “é muito grave” e pode “pôr em causa a sobrevivência da TVI”, referindo que “não haverá plano B”. Mário Ferreira acusou ainda a Cofina de “ameaças” e difamação a acionistas da Media Capital.

Em 14 de maio, praticamente dois meses depois de a Cofina ter desistido da compra da Media Capital, Mário Ferreira tornou-se acionista da dona da TVI.

Em março, quando o mercado dava praticamente como certa a compra da Media Capital pela dona do Correio da Manhã, o anúncio da desistência – em 11 de março e em vésperas de estado de emergência – apanhou a maioria de surpresa, incluindo Mário Ferreira, que tinha sido desafiado pelo presidente da Cofina, Paulo Fernandes, a envolver-se no negócio.

A operação de aumento de capital da Cofina, de 85 milhões de euros, tinha ficado aquém do objetivo por cerca de três milhões de euros. Perante esta desistência, a espanhola Prisa, na altura dona da Media Capital, contactou Mário Ferreira em busca de uma parceria, o que veio a concretizar-se em maio.

Entretanto, em 12 de agosto, a Cofina anuncia o lançamento de uma OPA sobre a totalidade do capital da Media Capital, alterando a oferta de 21 de setembro, sendo o valor de referência proposto de 0,415 euros por ação, a que corresponde um montante total de 35 milhões de euros e considera um ‘entreprise value’ de cerca de 130 milhões de euros.

Já em 15 de outubro, a ERC deliberou “instaurar um processo de contraordenação contra a Vertix/Prisa e Pluris/Mário Ferreira pela existência de fortes indícios de ocorrência de uma alteração não autorizada de domínio nos operadores que compõem o universo da Media Capital”, o que envolve a nulidade do negócio, no âmbito da análise sobre a alteração da estrutura acionista da dona da TVI.

No início de novembro a Prisa concluiu o processo de venda da totalidade dos 64,47% que detinha na Media Capital, através da Vertix, dando lugar a novos acionistas, os quais a ERC tem “fundadas dúvidas sobre a identidade” e deu 10 dias “para apresentarem provas ou tomarem medidas com vista a assegurar a transparência da titularidade das participações qualificadas”, de acordo com a deliberação.

No âmbito do processo de contraordenação em curso na ERC relativo à compra, pela Pluris Investments de uma participação correspondente a 30,22% do capital social e dos direitos de voto do grupo Media capital, anteriormente detida pela Vertix SGPS, sociedade Promotora de Informaciones [Prisa], subsistem fundadas suspeitas que aquele possa concluir pela ineficácia (seja por nulidade ou por anulabilidade) do(s) contrato (s) em causa)”, refere a ERC.

A Media Capital, de acordo com dados de 03 de novembro, tem como acionistas, além da Pluris Investments (30,22%), Triun (23%), Biz Partners (11,97%), CIN (11,20%), Zenithodyssey (10%), Fitas & Essências (3%), DoCasal Investimentos (2,5%) e o NCG Banco (5,05%).