Teve os primeiros sintomas de Covid-19 há mais de um mês, ficando depois em isolamento e sem contacto com mais nenhum dirigente da Direção ou da SAD do FC Porto. Já não acompanhou a comitiva dos azuis e brancos no jogo em Manchester, que marcou a estreia em mais uma edição na Liga dos Campeões. Na segunda-feira, dia 26 de outubro, soube-se que estava internado na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São João, no Porto, a necessitar de respiração assistida não só como resultado da infeção pelo novo coronavírus mas também pelo histórico de problemas de saúde. Estabilizou, mesmo dentro de um quadro clínico que nunca deixou de ser grave, mas não resistiu aos últimos dias. Morreu Reinaldo Teles, histórico dirigente do FC Porto. Tinha 70 anos.

A informação foi confirmada pelo Observador junto de fonte próxima do clube e do próprio Hospital de São João. Antes de falecer, Reinaldo Teles ainda recebeu a visita da família, dentro das atuais contingências existentes. Nos últimos dias, os médicos da Unidade de Cuidados Intensivos que foram acompanhando o dirigente nas últimas semanas foram tentando retirar a ajuda da respiração artificial mas a reação nunca foi a pretendida. Foi também no São João que, em 2008, o histórico portista recuperou após ser vítima de um enfarte no miocárdio.

Na receção dos azuis e brancos aos gregos do Olympiacos que marcou o regresso do público ao estádio do Dragão, uma frase colocada no topo Sul do recinto onde costumam estar concentrada a claque Super Dragões resumia muito do que representava no clube: “Força tio Reinaldo”. Se Pinto da Costa será sempre uma figura incontornável pelas quase quatro décadas na liderança do clube, Reinaldo Teles, antigo campeão de boxe pelo FC Porto, era outro dos dirigentes históricos e mais acarinhados no universos portista. Antes do último jogo no Dragão, frente ao Portimonense, dezenas de elementos dos Super Dragões estiveram à porta do São João, entoando cânticos de apoio ao “tio Reinaldo” com mais uma tarja dedicada ao dirigente que sempre teve uma ligação estreita com a claque.

Reinaldo Teles não gostava de dar entrevista. Evitava mesmo a todo o custo. Por um lado, explicava sempre que não tinha chegado ao futebol para ser protagonista porque nesse mundo não deveriam ser os dirigentes a assumir o palco principal. Por outro, e se a pergunta tivesse um conteúdo mais direto, dava a volta e dizia que só Pinto da Costa, o presidente, falava sobre isso. Quebrou a regra este ano, ao Jornal Tribunal de Macau, onde aceitou falar sobre a carreira no boxe. “Eu tinha muito jeito mas, acima de tudo, treinava muito. Chegava a estar mais de uma hora aos murros ao ‘saco’ e fui campeão porque era mais forte, mais ágil de pernas e braços. Que me lembre, nunca fui ao tapete e nunca perdi por KO”, disse. No restaurante Antunes, claro.

Ainda assim, com mais ou menos entrevistas, a ligação ao líder dos azuis e brancos era por demais conhecida (e o próprio não perdia uma oportunidade para mostrar o sue orgulho na mesma). Reinaldo Teles admirava Pinto da Costa por ser um visionário no futuro do FC Porto, pela capacidade de liderança, pela maneira de ser. Pinto da Costa admirava Reinaldo Costa pela dedicação ao clube, pela perseverança na vida, pela maneira de ser. Assim, foi natural que, em 1982, quando assumiu o comando dos portistas, o número 1 tenha apostado naquele que viria a ser o seu eterno braço direito para diretor adjunto do futebol, antes de integrar os órgãos sociais quatro anos depois. Em 1988, Reinaldo assumiu a direção do futebol, sempre em estreita ligação com Pinto da Costa na altura em que o presidente dos dragões ia de quando em vez para o banco dos suplentes. Em 1997, quando a SAD foi criada, assumiu um cargo na sociedade. Até hoje. Pelo meio, também integrou o Conselho Superior do FC Porto, entre várias distinções como o Dragão de Ouro para dirigente em 1989 ou o Dragão de Honra, em 1998.

Reinaldo Teles, Pinto da Costa e Artur Jorge no banco do FC Porto no antigo Estádio das Antes Foto: D.R.

Sócio honorário desde a década de 90 e com filiação aos azuis e brancos iniciada em 1967, Reinaldo Teles, nascido em Paços de Ferreira no Dia dos Namorados, teve um único amor clubístico na vida e ainda antes de fazer 12 anos, altura em que se tornou praticante de boxe no FC Porto. Pinto da Costa, que novo se tornou responsável por algumas modalidades como o hóquei em patins ou o hóquei em campo, tornou-se dirigente também da secção de boxe no mesmo ano em que Reinaldo se fez sócio. Aí nasceu uma ligação de amizade, lealdade e cumplicidade até hoje. “No final de 1989 recebeu o Dragão de Ouro para dirigente do ano, em 1994 foi distinguido com o estatuto de sócio honorário do FC Porto e em 1998 surgiu a condecoração com o Dragão de Honra. Desde então, Reinaldo Teles, integrou o leque de administradores da SAD e do clube portista e, lado a lado com o amigo e presidente Pinto da Costa, contribuiu para as imensas vitórias portistas que engrandecem as vitrines da instituição tripeira”, destacou o FC Porto, na nota de condolências deixada no site oficial do clube esta tarde.

Comerciante e depois empresário, cara conhecida também pelos estabelecimentos noturnos que chegou a dirigir no Norte, Reinaldo Teles, que era conhecido pelos jogadores como “chefinho” e pelos membros da claque como “tio”, tinha ficado viúvo em novembro de 2011, quando viu partiu a mulher Lurdes. Tinha dois filhos. “Abriste-me as portas do futebol. Jamais te esquecerei. Descansa em paz querido Chefinho”, escreveu André Villas-Boas pouco depois de ter sido conhecida a notícia – logo num dia em que será adversário do FC Porto pelo Marselha. “Até sempre! Obrigado por tudo Tio Reinaldo”, agradeceu Fernando Madureira, líder dos Super Dragões. “70 anos a amar o FC Porto, 50 anos a lutar pelo FC Porto”, resumiu o Twitter oficial dos azuis e brancos.

“Foi um extraordinário dirigente, fez muito pelo FC Porto.” Reações à morte de Reinaldo Teles