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O primeiro desabafo surgiu no sábado, no final de 12 horas de serviço de urgência como voluntário no Hospital de Cascais. “Porra para isto!”, escreveu o médico infecciologista e deputado Ricardo Baptista Leite. “Nunca vi tanta gente morrer em tão curto espaço de tempo como nestas 12 horas de urgência. Porra para isto!”

Na verdade, face às notícias que iam surgindo da enorme pressão que o avolumar de casos de Covid-19 está a colocar sobre os hospitais da região de Lisboa – e um pouco por todo o país – o relato nem era de estranhar. A mortalidade está a aumentar nos hospitais, cada vez sobrelotados.

Este domingo, com 24 horas de reflexão em cima – “para garantir a racionalidade das minhas palavras” – Ricardo Baptista Leite alargou-se na descrição do que se passa num covidário em Portugal, neste caso . É “um cenário de guerra”, com ventilações invasivas de doentes, poucas vagas nas enfermarias, médicos a fazer escolhas sobre quem atender, consoante quem tem mais probabilidade de viver.

Catástrofe

Ontem ao sair do Hospital de Cascais sentia uma enorme frustração e angústia. Para garantir a racionalidade das minhas palavras, decidi esperar por hoje para fazer esta partilha. Estive este sábado mais uma vez como médico voluntário no serviço de urgência do hospital de cascais – mais especificamente no chamado ‘Covidário’ que dá resposta aos doentes e suspeitos COVID-19. Nunca vi tantas pessoas morrerem num só turno de 12 horas. A dor e o sofrimento são indiscritíveis. A sensação de impotência por não podermos fazer mais. Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada. Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro. Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes. Perguntei-lhe se estava bem e ela limitou-se a acenar com a cabeça enquanto olhava para mim com olhos encarnados antes de simplesmente ficar a olhar para o chão. O silêncio é o nosso companheiro na dor. O peso da ausência de palavras. Tantos doentes a descompensar com quadros de insuficiência respiratória grave. Sem vagas nos cuidados intensivos e a ter de gerir com pinças as poucas vagas de enfermaria, ventilamos os doentes ali, em pleno serviço de urgência. Alguns doentes com ventilações invasivas… Um cenário de guerra. Os doentes menos graves que aguardam pelo teste covid assistem em direto a muito disto… o espaço é demasiado pequeno para tantas dezenas de doentes. E a cada hora chegam mais doentes. É preciso estabelecer prioridades. O cenário é de catástrofe e exige comando e controlo. Temos tantos doentes graves na casa dos 40, 50 e 60, muitos sem outras doenças, que simplesmente não podem morrer. Não podem! Assumem-se por isso prioridades. Não se conseguem acompanhar todos os doentes a todo o tempo. Um doente de cada vez. Fazem-se escolhas tão difíceis sobre quem tem maior probabilidade de morrer, faça-se o que se fizer. É devastador ver equipas de médicos forçados escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver para os poder assumir como prioritários. Estamos em pleno campo de batalha no qual as emoções têm de ficar de lado… mas na realidade ficam apenas recalcadas. Chora-se quando se chega finalmente ao carro no final do turno, ou a casa. Ali no covidário o foco é necessário e absoluto. Assisti a uma colega médica que esteve durante mais de uma hora a ligar para familiares de doentes que estavam sob a sua responsabilidade e que acabaram por falecer num espaço tão curto de tempo, apesar de todos os esforços. Ouvimos a frustração e os choros dos filhos e netos. Compreende-se a dor pela impossibilidade de dizerem adeus… por terem visto o pai, a mãe, a avó ou o avô, pela última vez quando entraram na ambulância ou pela porta do hospital poucas horas antes. Gritam frustrados pela fatalidade do destino e pelo sentimento de lhes terem sido roubados anos de convivência com quem mais amam, ainda para mais por razões que pouco compreendem. Por causa de um vírus. Uma pandemia… uma maldita pandemia. O cenário é de guerra e estamos a perder. Está na hora de dizer basta.Perante a gravidade da situação da covid-19 em Portugal, continuaremos nos próximos dias com uma tendência crescente do número de novas infeções diárias, de internamentos e de doentes em cuidados intensivos. E assim vai continuar até ao final do mês. Um em cada 5 testes realizados no nosso país é positivo. E a tentativa de manter as pessoas em casa para tentar diminuir a dimensão da epidemia simplesmente falhou.O custo humano de falharmos como país é demasiadamente elevado. Será insuportável e ficará como uma cicatriz de vergonha para futuras gerações de portugueses. Estamos a viver um momento histórico e depende de nós definir como termina.Por isso, não há tempo a perder. Temos de fazer tudo ao nosso alcance para prevenir mais mortes evitáveis. Não podemos continuar no atual rumo. A meu ver, temos de fazer 5 coisas de imediato:1. Não esperar 15 dias. Decidir mudar de imediato as medidas governamentais e determinar um confinamento ‘absoluto’ durante 3 semanas para depois ser reavaliado. Isto tem de incluir as escolas, garantindo o apoio remuneratório a um dos pais, tal como aconteceu durante a primeira vaga. O problema não são as infeções nas escolas. É toda uma sociedade que não consegue parar com as escolas abertas. Mais, todas as demais atividades não essenciais, que não sejam possíveis por teletrabalho, devem cessar atividade de imediato pelo mesmo período de tempo. Tudo deve de parar de imediato. Reduzir as regras de circulação unicamente para as situações determinadas aquando do estado de emergência de março 2020. As forças de segurança devem ter instruções claras para atuar em conformidade perante a violação das regras definidas em todo o território nacional.2. Mobilizar todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas. Chamar todos os recursos humanos disponíveis para abrir o maior número possível de hospitais, clínicas e tendas de campanha com máxima urgência. 3. Comunicar de forma clara, transparente e diária com o país sobre a gravidade da situação e sobre o que se espera de cada cidadão. Ponderar novamente os riscos inerentes ao ato eleitoral de dia 24 – sobretudo depois do que se viu com o voto antecipado. 4. Preparar desde já o momento em que se levantarão as medidas restritivas de modo a evitar um novo aumento de casos e futuros confinamentos. Isto exige um aumento significativo do dispositivo de saúde pública e da capacidade de testagem. O país tem de testar no mínimo 5 vezes mais do que atualmente, com particular enfoque na testagem semanal dos profissionais das escolas, dos lares e de saúde. Temos de ser capazes de identificar todos os infetados e determinar as cadeias de infeção – sem saber onde as pessoas se infetam, não seremos capazes de atuar precocemente na contenção de surtos. Mais, devemos ser capazes de identificar todos os que tiveram contacto com pessoas infetadas e garantir o isolamento de todos – doentes e suspeitos. Garantir mesmo que fiquem isolados. Contratualizem-se os hotéis do país para o efeito dividindo-os em hotéis para infetados e outros para suspeitos. Testar, identificar e isolar. Não há outra forma.5. Usar o facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas COVID-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação. Temos de vacinar 80% da população até Junho 2021. A frustração destas semanas tem de ser substituída por ação determinada para acabar com esta pandemia. Este mês pode estar perdido, mas ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano. Ainda vamos a tempo de salvar vidas. Façamos tudo o que está ao nosso alcance. Faça tudo o que puder. Se não por si, por aqueles que mais ama.

Posted by Ricardo Baptista Leite on Sunday, January 17, 2021

“Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada. Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro. Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes”, conta Ricardo Baptista Leite num longo post no Facebook.

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A enfermeira, relata, “limitou-se a acenar com a cabeça”, imediatamente antes de ficar simplesmente a fitar o chão com o olhar perdido. “O silêncio é o nosso companheiro na dor. O peso da ausência de palavras”, reflete Baptista Leite, ainda na mesma publicação. O cenário que descreve é muito próximo do se uma guerra — fala dos doentes com insuficiência respiratória grave, da falta de vagas nos cuidados intensivos e das opções que é necessário tomar para gerir as poucas camas que restam na enfermaria. “Ventilamos os doentes ali, em pleno serviço de urgência”, revela.

Mantém-se pressão sobre hospitais da Grande Lisboa

Muitas vezes, salienta Baptista Leite, os doentes “menos graves” que estão a aguardar pelo teste ficam a assistir a tudo o que se passa, já que estão num espaço “demasiado pequeno para tantas dezenas”. “É preciso estabelecer prioridades”, admite o deputado e infecciologista. “O cenário é de catástrofe. Temos tantos doentes graves na casa dos 40, 50 e 60, muitos sem outras doenças, que simplesmente não podem morrer. Não podem! Assumem-se por isso prioridades”, descreve.

Na impossibilidade de acompanhar todos, diz, “fazem-se escolhas tão difíceis sobre quem tem maior probabilidade de morrer, faça-se o que se fizer. É devastador ver equipas de médicos forçados a escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver para os poder assumir como prioritários”. São horas e horas de pressão e azáfama, acrescenta o deputado, durante as quais admite que muitos profissionais têm de fazer um esforço para conter as lágrimas até ao final do turno.

Coimbra regista taxa de ocupação de 95%. Leiria tem cinco vagas. “Se ficar tudo em cima dos hospitais, eles não vão aguentar”

Uma das vozes mais críticas da forma como o governo tem gerido o combate à pandemia, Ricardo Baptista Leite perspetiva para os próximos dias um aumento de novos casos, internamentos e doentes nos cuidados intensivos. “Um em cada 5 testes realizados no nosso país é positivo. E a tentativa de manter as pessoas em casa para tentar diminuir a dimensão da epidemia simplesmente falhou”. No mesmo texto, Ricardo Baptista Leite assume as críticas à forma como a situação pandémica está, atualmente, a ser conduzida em Portugal.

Começa por sugerir um “confinamento absoluto durante três semanas”. “Mobilizar todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas” — dos recursos humanos aos hospitais, clínicas e tendas de campanha. Defende uma preparação antecipada do momento em que serão levantadas as medidas restritivas e, por fim, “usar o facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas Covid-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação. Temos de vacinar 80% da população até Junho de 2021”.  “Este mês pode estar perdido, mas ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano”.

E uma última sugestão: “Contratualizem-se os hotéis do país para o efeito, dividindo-os em hotéis para infetados e outros para suspeitos. Testar, identificar e isolar. Não há outra forma”.