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Morreu este sábado, aos 87 anos, o apresentador norte-americano Larry King, uma das figuras mais populares da televisão e da rádio do século XX. A notícia foi divulgada perto das 13h00 (hora de Lisboa) através de um comunicado da OraTV nas páginas oficiais de Larry King no Facebook e no Twitter. O apresentador estava internado desde dezembro num hospital em Los Angeles, com covid-19.

Nome histórico da TV e da rádio, reconhecível pelos inseparáveis suspensórios e pela voz rouca e sonante, Larry King não se considerava jornalista, apesar de ter chegado a apresentar noticiários. Manteve durante 25 anos na CNN um dos mais populares programas de entrevistas em todo o mundo, Larry King Live, onde estiveram entre 30 a 50 mil convidados.

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Desde que se afastara da CNN, em 2010, tinha passado a fazer entrevistas nos canais Hulu e RT America. Larry King Now e Politicking With Larry King foram os títulos dos dois programas produzidos pela OraTV que ali manteve desde 2013 até ter sido hospitalizado em fins de dezembro do ano passado no Cedars-Sinai Medical Center. Chegou a estar numa unidade de cuidados intensivos, da qual saiu a 5 de janeiro.

“Sempre fiz perguntas simples. Nunca planeei perguntas, nunca as escrevi”

A capacidade de escutar com muita atenção o que lhe diziam os entrevistados, a rapidez de raciocínio e a presença imponente da sua voz valeram-lhe momentos confessionais e revelações em direto em muitas das entrevistas. Apesar da acutilância das perguntas, nunca adotou um estilo de confronto e raramente fazia perguntas difíceis, de acordo com o obituário do New York Times.

Bob Woodward e Dan Rather, Frank Sinatra, Madonna, Tina Turner, Michael Jackson e Prince, Edward Norton, Susan Sarandon, Clint Eastwood e Marlon Brando, Mike Tyson, Joan Rivers e Buzz Aldrin fizeram parte da quase interminável lista de entrevistados de Larry King, onde se incluíram ainda todos os presidentes americanos desde Richard Nixon e também Slobodan Milosevic, Khadafi, Ahmadinejad, Gorbachev e o Dalai Lama, entre muitos outros políticos e líderes mundiais.

“Sempre viu os entrevistados como as verdadeiras estrelas dos programas”, notou o comunicado da OraTV, produtora e plataforma audiovisual online que o próprio Larry King ajudou a fundar em 2012, com financiamento do multimilionário mexicano Carlos Slim. “Se estava a entrevistar um presidente dos EUA, um líder estrangeiro, uma celebridade, uma personagem escandalosa ou um homem comum, Larry gostava de fazer perguntas curtas, diretas e simples. Acreditava que normalmente as perguntas concisas davam as melhores respostas, e não estava enganado”.

No papel de entrevistado, em 2018, Larry King disse ao Los Angeles Times que uma entrevista terá sido bem conduzida quando dela de sai a saber mais do que quando se começou. “Deve-se sair de uma entrevista com uma dose de entretenimento. Um entrevistador é também um entertainer“, defendeu. Anos antes, ao programa de informação The Young Turks, no YouTube, tinha comentado o seu próprio estilo.

“Não confronto os entrevistados”, assumiu. “Faço boas perguntas, oiço as respostas e partir daí faço mais perguntas. Não grito com os convidados. Para muitos apresentadores de talk shows, o convidado está lá para servir o protagonismo deles. Nunca fiz isso. Sempre fiz perguntas simples. Nunca planeei perguntas, nunca as escrevi.”

Uma vida que alimentou tabloides

Casado por oito vezes (incluindo duas vezes com a mesma mulher), Larry King foi pai de cinco filhos, dois dos quais, Andy e Chaia, morreram num curto espaço de tempo no ano passado. Deixa nove netos e dois bisnetos.

Desde a década de 80, Larry King enfrentou diversos problemas graves de saúde. Era à época um fumador inveterado de três maços por dia. Colocou um bypass em 1987 e em 2017 foi operado a um cancro na garganta. Em 2019 voltou a ter problemas de coração. “A sua vida pessoal alimentou os tabloides”, notou o New York Times. Viciado no jogo, declarou bancarrota por duas vezes, chegou a ser preso sob a acusação de fraude fiscal e viveu mergulhado em polémicas e contradições que nunca lhe ensombraram o êxito à escala global, acrescentou o jornal americano.

Reações à morte de Larry King inundaram as redes sociais mal se soube da notícia. O jornalista britânico Piers Morgan, que em 2011 ocupou o horário de Larry King na CNN, descreveu-o como um “uma figura brilhante da comunicação social e um mestre das entrevistas televisivas”.

O governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, enviou condolências à família, através do Twitter. A jornalista da CNN Christiane Amanpour escreveu que Larry King foi fundamental para a ascensão do canal na década de 80 e que então “toda a gente queria ir” ao talk show de Larry King. A cantor Boy George considerou-o “uma lenda”.

O presidente da CNN, Jeff Zucker, assinou um comunicado a expressar condolências. “O rapaz inquieto de Brooklyn teve uma carreira histórica na televisão e na rádio. O espírito curioso impulsionou-o para um percurso cheio de prémios na comunicação social, mas foi o seu espírito generoso que o levou a conquistar o mundo”, escreveu Jeff Zucker neste sábado.

Mudou de nome em 1957, tornou-se estrela a partir de 1978

Filho de emigrantes judeus da Lituânia e da Ucrânia, Larry King nasceu em Nova Iorque a 19 de novembro de 1933. Nome de batismo: Lawrence Harvey Zeiger. Perdeu o pai aos 10 anos e foi criado pela mãe, juntamente com o irmão Marty. Desde criança, sempre gostou de basebol e foi um fã incondicional dos Brooklyn Dodgers.

Estreou-se como locutor em 1957, na pequena estação de rádio WAHR-AM, em Miami, e foi aí que lhe pediram para mudar de apelido. Zeiger “tinha uma marca étnica muito forte”, escreveu em 2009 na autobiografia My Remarkable Journey (não traduzida em Portugal). À pressa, optou por King, depois de um dos responsáveis pela rádio ter olhado para uma página de jornal onde parecia aquela palavra.

Rapidamente, começou a fazer-se notado e a ter programas de maior responsabilidade. Ainda na rádio, em 1978, iniciou o primeiro programa de âmbito nacional com a participação dos ouvintes através do telefone. Era já o Larry King Live, gravado a partir de Washington e distribuído por mais de 300 emissoras locais, o que o transformou num “fenómeno nacional”, descreveu a a Associated Press.

A estreia na CNN, por intermédio de um convite que lhe foi dirigido pelo fundador, Ted Turner, deu-se a 1 de junho de 1985. Era o programa de maior audiência do jovem canal de notícias. Larry King começou por receber 100 mil dólares por ano e rapidamente passou a sete milhões. Entre 1981 e 2011 manteve um coluna de opinião no jornal USA Today.

A meio da tarde de sábado não eram conhecidos pormenores sobre o funeral, o que segundo a imprensa americana deveria ser divulgado nas horas seguintes.