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No início de fevereiro de 1959, nove esquiadores russos morreram durante uma expedição nos Montes Urais, na Rússia. A causa das mortes daquele que ficou conhecido por incidente do Passo Dyatlov sempre levantou muitas questões, inspirando inúmeras teorias da conspiração, que incluíam experiências militares soviéticas, o Abominável Homem das Neves e até mesmo extraterrestres. Agora a ciência parece ter uma explicação mais sensata para o mistério que já dura há 62 anos.

Num artigo publicado na revista Nature, uma equipa de investigadores aponta para a possibilidade de uma pequena avalanche poder ter sido responsável pelos ferimentos horríveis que provocaram a morte dos nove esquiadores.

Dos factos que se conhecem, o grupo de nove — duas mulheres e sete homens — partiu numa expedição de esqui e montanhismo no dia 23 de janeiro de 1959. De acordo com registos fotográficos e diários pessoais encontrados posteriormente no local, o grupo terá montado acampamento no dia 1 de fevereiro, erguendo uma tenda numa encosta nevada. Depois disso nunca mais foram vistos.

Semanas depois a tenda foi encontrada enterrada na neve e foi encontrado o primeiro dos corpos. Nos meses seguintes, conforme a neve foi derretendo, as equipas de busca foram encontrando mais corpos desfeitos espalhados pela encosta da montanha.

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Na altura, uma investigação criminal atribuiu as mortes a uma “força natural desconhecida”, e as autoridades soviéticas mantiveram o caso em segredo, daí tanta especulação à volta do caso.

Várias décadas depois, em 2019, as autoridades russas reabriram as investigações em torno do incidente e concluíram que a principal causa das mortes se devia a uma avalanche. Esta explicação não convenceu: a encosta tinha uma inclinação aparentemente reduzida, para permitir uma avalanche e não havia registo de uma queda de neve na noite do incidente que pudesse provocar um colapso, e a maioria dos ferimentos não correspondiam às lesões provocadas por avalanches.

É aqui que entram Johan Gaume, diretor do Laboratório de Simulação de Avalanche do EPFL, e Alexander Puzrin, engenheiro geotécnico da ETH Zürich. Os dois investigadores unidos por um particular interesse pelo incidente do Passo Dyatlov, reuniram esforços e criaram simulações de computador para tentar reproduzir as horas em que os esquiadores perderam a vida.

As conclusões do seu trabalho revelam agora que afinal a encosta não era assim tão plana, com uma inclinação de 30 graus, o requisito mínimo para uma avalanche. Outra das explicações é que a escavação que a equipa fez na neve para erguer a tenda desestabilizou a encosta. Adicionalmente os ventos muito fortes que se registaram naquela noite, fizeram com que quantidades de neve se deslocassem em direção ao acampamento, aumentando a pressão na encosta.

As simulações de computador mostram ainda que a avalanche não terá sido grande, talvez envolvendo um bloco de neve com pouco mais de quatro metros de comprimento. A única questão que fica por resolver é como é que um colapso tão pequeno pode ter provocado ferimentos tão graves.

Para responder a esta pergunta, os cientistas recorreram aos animadores do filme Frozen e modificaram o código de animação da neve do filme de forma a funcionar nos modelos de simulação de avalanches, para averiguar o impacto que uma avalanche de pequenas dimensões teria no corpo humano. Assim, conseguiram comprovar que um bloco de neve com cinco metros de comprimento poderia provocar ferimentos bastante violentos, como aqueles verificados nos nove esquiadores.