Depois de terem sido detetados os primeiros sete casos da variante brasileira da SARS-CoV-2 em Portugal, a hipótese de que essa se torne a variante dominante entre os novos casos positivos não é colocada de lado. O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia alerta que a variante detetada em dezembro, na cidade brasileira de Manaus, é “preocupante” e admite que pode vir a tornar-se dominante em solo português — isto numa altura em que é a variante britânica que domina os novos casos em Portugal.

Os mistérios de Manaus. Tem mesmo uma variante mais agressiva do vírus, perdeu a imunidade de grupo ou nunca a teve?

“Esse cenário é absolutamente possível”, afirma Flávio Guimarães da Fonseca, em entrevista à Rádio Observador. “Atualmente, 80% dos casos de Covid-19 na cidade de Manaus são causados pela variante brasileira P1. Todos os vírus, quando se multiplicam, geram vários mutantes, e quando estes têm vantagem em relação às amostras originais, acabam por predominar em pouco tempo. Isso aconteceu em Manaus, no Reino Unido (em relação à variante britânica), e infelizmente pode acontecer também em países que acabam por receber essas novas variantes com este elevado grau de infecciosidade.”

Por isso mesmo, alerta este virologista brasileiro, a possibilidade de que a variante brasileira se espalhe em Portugal é real, “se não forem tomadas medidas de contenção, como o distanciamento social e mesmo a vacinação, que possa conter a expansão dessa nova variante”.

“É possível que a variante brasileira se torne dominante” em Portugal

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[Ouça aqui a entrevista na íntegra a Flávio Guimarães da Fonseca, virologista e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia]

Este domingo, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge confirmou a deteção dos primeiros sete casos da variante brasileira em solo português. Para já, “é difícil afirmar se é mais perigosa” do que a variante britânica, que é “a mais estudada neste momento”, esclarece o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia. Flávio Guimarães da Fonseca explica que a variante brasileira contém no seu genoma não só mutações que foram detetadas na variante do Reino Unido, mas também mutações que estão presentes na variante sul-africana, “particularmente uma mutação que permite ao vírus escapar da ação de anticorpos gerada por uma infeção prévia ou até mesmo pela vacinação”.

Além da chamada variante “P1”, que apareceu em Manaus,  já foi também detetada a “P2”, que também já predomina no país inteiro, tendo sido originalmente detetada no Rio de Janeiro. As duas têm preocupado as autoridades de saúde brasileiras, com especial destaque para a primeira, por ter um maior número de mutações. De acordo com um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, no final de janeiro, a variante P1 já estava presente em 91% dos casos de infeção analisados no estado do Amazonas, cuja capital é Manaus.

Pandemia no Brasil ainda preocupa com “cocktail explosivo” de fatores

Com mais 26.986 infetados e 639 mortes provocadas pela Covid-19 registadas só esta segunda-feira, o país ainda vive a chamada segunda onda da pandemia com “bastante intensidade”. Flávio Guimarães da Fonseca defende mesmo que a pandemia no Brasil “está longe de estar controlada”. A percentagem de pessoas vacinadas contra o novo coronavírus ainda é “muito pequena” e o número de doses adquiridas também é escasso, “por causa do fracasso da política do governo brasileiro em adquirir doses suficientes para realizar uma vacinação em massa”, aponta. “Perante este cenário, o resultado é uma população pouco complacente em relação às medidas de combate à pandemia, a ausência de vacinas e a existência de variantes muito infecciosas. Este é um cocktail bastante explosivo, e, por isso, há muita preocupação entre as autoridades de saúde pública e a população em geral, relativamente à ampla disseminação das novas variantes brasileiras”.

À semelhança do que ocorreu em Portugal, no Brasil os números da Covid-19 também sofreram aumentos significativos devido às celebrações do natal e do ano novo.  À Rádio Observador, o virologista Flávio Guimarães da Fonseca sublinha que “houve um pico de infeções, mortes e sobrecarga dos hospitais logo no meio do mês de janeiro, depois das festas de fim de ano” e fala num “descuido muito grande da população de uma forma geral”, que levou a um “pico nos casos de Covid-19”, que entretanto já começaram a baixar. Ainda assim, a chegada de variantes mais contagiosas tem sido motivo de preocupação, numa altura em que o Brasil contabiliza, desde o início da pandemia, 247.143 mortes por Covid-19 e mais de 10 milhões de casos positivos.

Covid-19. Instituto Ricardo Jorge confirma primeiros sete casos associados à variante brasileira

Aliada às novas variantes detetadas em território brasileiro, a fraca adesão da população às medidas de combate à pandemia tem levado a que o Brasil seja um dos países mais assolados pela pandemia em todo o mundo. O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia sublinha que os cidadãos brasileiros estão “cansados, depois de um ano inteiro com uma extrema limitação de movimentos” e lembra que “grande parte da população se encontra na linha de pobreza extrema, particularmente atingida pela diminuição da atividade económica, comercial e pela própria sobrecarga do sistema público de saúde” do Brasil. “Esses fatores geram um estado de cansaço, que culmina com ainda menos adoção das medidas restritivas por parte da população”, sublinha Flávio Guimarães da Fonseca, que garante que “se acaba por entrar num ciclo vicioso extremamente preocupante e perigoso”.

Com a chegada das vacinas contra a Covid-19 vistas como uma “luz ao fundo do túnel”, o ritmo de vacinação no Brasil tem sido muito lento, chegando mesmo a “conta-gotas”. No Brasil, cerca de 12 a 15 milhões de pessoas já foram vacinadas contra o novo coronavírus, num total de mais de 200 milhões. “É muito pouco, para que comecemos a sentir os efeitos da imunidade de grupo e consequente diminuição de casos positivos no país”, conclui o virologista.