Elvira Fortunato é a vencedora do Prémio Pessoa 2020. A engenheira de materiais, especialista em microelectrónica e optoelectrónica, “tem já uma larga lista de invenções e inovações onde se destaca o transístor de papel”, refere o júri, num anúncio foi feito ao final da manhã desta quinta-feira.

“A ideia de usar o papel como um ‘material eletrónico’ abriu portas, em 2016, para futuras aplicações em produtos farmacêuticos, embalagens inteligentes ou microchips recicláveis, ou até páginas de jornal ou revistas com imagens em movimento”, refere o comunicado enviado às redações.

Na decisão, o júri, que se reuniu por vídeochamada, considerou que o galardão “consagra uma uma carreira de excecional projeção, dentro e fora do País, mas também reconhece um contributo notável para o desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação português”.

Elvira Fortunato: a cientista que diz que fazer transístores é como fazer bolos em casa

“Fico muito contente por ter ganho este prémio que, no fundo, reconhece o trabalho que tenho feito nesta área em particular e, em geral, na área da ciência”, disse a investigadora à Lusa. A investigadora sublinhou que esse reconhecimento acontece numa altura particularmente relevante, num contexto de pandemia da Covid-19 que se prolonga há mais de um ano, mostrando “a importância da ciência” no combate à crise sanitária.

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Elvira Fortunato também destacou o valor especial do prémio que carrega o nome de Fernando Pessoa, um poeta que admira e que a inspira no seu trabalho. “Há um pedacinho de um poema dele que eu tenho em letras coladas num anfiteatro, que mostra que nunca devemos pensar pequenino, devemos pensar sempre grande e pensar sempre que conseguimos”.

“Para ser grande, sê inteiro: nada”, disse a engenheira, citando o heterónimo de Pessoa Ricardo Reis. Para o futuro, a palavra de ordem é “continuar”: “Continuar com os projetos que temos em mãos e agarrar novos desafios”, sublinha.

Cientista Elvira Fortunato realça papel de processamento de materiais na sustentabilidade

A professora catedrática, que acumula também o cargo de vice-reitora da Universidade Nova de Lisboa e a coordenação do Centro de Investigação de Materiais (Cenimat), nasceu, cresceu e viveu sempre em Almada, mas “graças a um percurso académico nacional e internacional de grande consistência, Elvira Fortunato tem revelado uma exemplar capacidade para enfrentar os problemas das relações entre o Estado e as empresas, assim como entre a investigação e a tecnologia, estimulando o trabalho de cooperação entre instituições”, consideram os jurados.

A investigadora de 56 anos disse ao Observador, numa entrevista de vida em 2016, que tinha o tempo muito preenchido, mas muito bem coordenado. Isso permitiu-lhe não só manter os processos criativos e de inovação, mas também o papel de vice-presidente do grupo de conselheiros quando Carlos Moedas era comissário para a Investigação, Ciência e Inovação, e agora como membro do Grupo de Alto Nível para o Mecanismo de Aconselhamento Científico da Comissão Europeia.

Ao Observador confessou, nessa altura, que nunca planeou nada na sua carreira e que tudo lhe foi surgindo, mais ou menos, por acaso. Pelo caminho surgiram várias medalhas e distinções, como este prémio Pessoa 2020 ou Prémio Impacto Horizonte 2020, da Comissão Europeia, pela criação do primeiro ecrã transparente com materiais ecossustentáveis. Mas também a medalha da Câmara Municipal de Almada, em 2008, a distinção com a Ordem do Infante D. Henrique, em 2015, ou a nomeação para o Prémio Europeu do Inventor, em 2016.

“Eu não trabalho para prémios. Aliás, a maior parte dos prémios que recebi foram-me atribuídos, não fui eu que concorri”, garantiu Elvira Fortunato ao Expresso.

Cientista Elvira Fortunato premiada pela Comissão Europeia por primeiro ecrã transparente

A almadense que brincava com bonecas e cozinhas em criança e jogava à sueca na secundária, também adorava jogar futebol. Ainda chegou a ir ao Sporting — “o clube de sempre” — mas não havia ainda futebol feminino no clube.

Na faculdade acabou por seguir Engenharia dos Materiais por acaso: a parte da engenharia estava decidida e a faculdade instalada no concelho tinha coisas inovadoras — mas primeiro tentou Engenharia do Ambiente, confessa.

“Quando era muito pequena lembro-me que gostava de ser médica, mas depois não consigo ver sangue”, disse na altura ao Observador. “Lembro-me que, quando andava no liceu, antes de entrar para a universidade, queria ir para engenharia porque gosto de fazer coisas.”

A entrega do Prémio Pessoa de 2020 foi adiado para este ano pela necessidade de transferir para nova data a reunião do júri por causa da pandemia do novo coronavírus. As candidaturas apresentadas em 2020 foi consideradas válidas para o anúncio de 2021.

O Prémio Pessoa, no valor de 60 mil euros, é uma iniciativa do semanário Expresso e da Caixa Geral de Depósitos e visa reconhecer a atividade de pessoas de nacionalidade portuguesa com papel significativo na vida cultural e científica do país.

Prémio Pessoa entregue a Tiago Rodrigues, ator, encenador e diretor artístico do D. Maria II

Em 2019, o galardão foi entregue ao ator, encenador e diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, pela “carreira de excecional projeção dentro e fora do país” e em reconhecimento do seu “contributo notável para o desenvolvimento do campo das Artes Performativas portuguesas”. Rodrigues foi o segundo Prémio Pessoa mais novo desde a sua criação, em 1987, depois da investigadora Maria Manuel Mota, que o recebeu em 2013.

O júri do Prémio Pessoa 2020 é composto por Francisco Pinto Balsemão (presidente), Emídio Rui Vilar (vice-presidente), Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques.

Atualizado às 13h45