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Quatro meses depois de ter chegado ao Brasil, Abel Ferreira conquistava o segundo grande título pelo Palmeiras, juntando à Taça dos Libertadores a Taça do Brasil – que atribui mais prémios monetários do que uma vitória no Campeonato, para se perceber a importância no contexto sul-americano. O português tornava-se assim o terceiro treinador com mais do que um troféu no século XXI pelo Verdão e, depois do habitual banho de gelo durante a conferência de imprensa, soltou uma frase quase como desabafo: “Agora tenho de ir ao meu país, tenho de estar com a minha família, tenho de recarregar baterias”. Assim foi, mesmo com uma nova prova a decorrer.

A situação pandémica em São Paulo fez com que houvesse apenas três jogos entre a segunda mão da final da Taça do Brasil e a primeira mão da Supertaça Sul-Americana, todos para o Campeonato Paulista e todos com o adjunto João Martins no comando da equipa (duas vitórias com São Caetano e Ferroviária, um empate com o São Bento). Abel descansou, foi condecorado pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve com a família e amigos, deu entrevistas e regressou ao Brasil, apenas com um reforço confirmado (Danilo, médio que passou pelo Sp. Braga) e um entendimento de que faz parte de um projeto que necessita de reforços mas que só avançará para contratações tendo condições financeiras para isso. Mais adaptado do que nunca à realidade, teve uma “estreia” vitoriosa na Argentina diante do Defensa y Justicia. Seguia-se mais uma decisão.

“Veremos quais os jogadores que poderão jogar. Esta competição calha no meio de uma Recopa [Supertaça Sul-Americana, que terá a segunda mão na madrugada de quinta-feira], estamos preparados para isso mas não vou dizer quem vai jogar. Estamos preparados, sabíamos quando saiu o calendário e este sorteio. Teremos uma equipe competitiva, de caráter, que queira defender bem mas atacar melhor. A qualidade dos jogadodres está lá, não sou eu que vou ensinar. Tudo tem a ver com posicionamentos táticos que podemos alterar. Sabíamos dos jogos que tínhamos, estamos a treinar todos juntos desde o dia 2. Alguns não sabem mas temos jogadores que voltaram de férias no dia 2 deste mês, infelizmente temos de entrar a competir para decidir títulos e também acabamos de decidir outros. O que todos querem é estar nas decisões”, destacara antes do jogo.

Frente a um Flamengo de Rogério Ceni com ritmo competitivo pelos oito encontros feitos para o Campeonato Carioca desde a revalidação do título de campeão brasileiro, o Palmeiras de Abel Ferreira tinha mais um desafio onde não partia como favorito claro mas foi melhor em vários momentos de uma partida com quarto golos, muita emoção e decidida nas grandes penalidades, onde o Verdão teve dois castigos máximos desperdiçados que valiam vitória após falhanços do Flamengo antes da derrota por 6-5 no final de 18 penáltis, impedindo assim que o português, que assistiu a tudo na bancada de imprensa após ser expulso ainda antes do intervalo, conseguisse aquele que poderia ter sido o terceiro título no clube em menos de três meses.

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Ainda assim, dificilmente poderia haver melhor início de jogo para o Palmeiras no Estádio Mané Garrincha, em Brasília: Raphael Veiga recuperou uma bola cortada por Felipe Melo após pontapé de Diego Alves, tirou do caminho William Arão com uma grande simulação e inaugurou o marcador de pé esquerdo logo no segundo minuto. O conjunto de São Paulo estava melhor em campo, conseguia condicionar a saída do Flamengo, teve até mais dois remates com perigo de Rony (17′) e Zé Rafael (19′) para defesas de Diego Alves mas a equipa do Rio de Janeiro conseguiu mesmo chegar ao empate depois de uma ameaça de Diego (18′), com Gabriel Barbosa a aproveitar da melhor forma um remate à trave de Filipe Luís para fazer a recarga e marcar o 1-1 (21′). Apesar da igualdade, o Palmeiras não sentiu qualquer quebra anímica e ficou muito perto de passar para a frente pouco depois, com Diego a salvar quase em cima da linha o golo de Breno Lopes já sem guarda-redes na baliza (29′).

Seguiu-se uma pausa para hidratação e mais 20 minutos (15 com os descontos) que iriam alterar o rumo da final da Supertaça: já depois de ter visto um cartão amarelo por protestos na zona técnica, Abel Ferreira foi expulso (37′), o VAR reverteu uma grande penalidade por falta de Isla sobre Wesley (41′), Raphael Veiga ficou perto de bola parada para nova defesa de Diego Alves (43′) mas seria o Flamengo a conseguir a reviravolta no quarto minuto de compensação do primeiro tempo, com Arrascaeta a combinar bem na esquerda com Bruno Henrique, a encontrar espaço e ângulo para o remate e a atirar sem hipóteses para Wéverton para o 2-1.

O segundo tempo manteve o jogo aberto e com oportunidades nas duas balizas, por Wesley e Gabriel Barbosa, antes de uma fase em que o Palmeiras tentou arriscar mais e ficou por duas ocasiões muito perto do empate por Gustavo Gómez (defesa de Diego Alves, 61′) e Gabriel Veron (cabeceamento muito perto do poste, 63′). Esse maior balanceamento ofensivo permitiu que o Flamengo saísse melhor em transições, Gabriel Barbosa ficou perto do 3-1 após combinação com Éverton Ribeiro mas seria mesmo o Verdão a chegar ao empate, com Rodrigo Caio a fazer falta na área sobre Rony e Raphael Veiga a bisar no encontro de grande penalidade (73′) numa altura em que se começava a notar já alguma quebra física em vários jogadores das duas equipas antes de um final polémico com Wéverton a defender uma bola em cima da linha, o adjunto de Abel, João Martins, a ser expulso também do banco e alguns jogadores suplentes das duas equipas envolvidos numa confusão. O encontro ia mesmo para a decisão por grandes penalidades, onde o Flamengo foi mais feliz e ganhou a Supertaça depois de ter estado a perder por 3-1 com Diego Alves a evitar por duas ocasiões a vitória do Palmeiras em 18 tentativas.