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Jung Chang “odeia” o Brexit, mas acredita que os problemas entre o Reino Unido e a União Europeia acabarão por ser ultrapassados. Para a escritora chinesa sediada há vários anos em Inglaterra, tudo não passa de uma “discussão entre irmãos”. “

“Gosto de pensar, e espero não estar errada, que é como uma discussão entre irmãos. Os problemas podem ser resolvidos”, disse a autora de Cisnes Selvagens, que esteve este sábado em Óbidos, onde participou numa conversa com Richard Zimler sobre viver no estrangeiro, no âmbito do festival literário FOLIO.

Questionada pela moderadora Ana Daniela Soares sobre o crescimento dos movimentos nacionalistas na Europa, Jung Chang considerou que, no caso do Reino Unido, onde reside desde 1978, não existe nacionalismo no sentido mais extremo do termo. “Vi nacionalismo mais extremo na China”, defendeu. “Estou furiosa com o Brexit, mas não penso que seja a mesma coisa.”

Na opinião da coautora de uma biografia de Mao Tsé-Tung, que assinou em conjunto com o marido, o historiador Jon Halliday, as situações mais “extremas” estão a acontecer noutras zonas do planeta, não na Europa. “Todos os dias leio sobre coisas mais extremas [que se passam na China]. Não acho que a Europa vá ter uma guerra como a Segunda Guerra Mundial. As coisas mais extremas estão a acontecer noutro lado.”

A conversa entre Jung Chang e Richard Zimler aconteceu na Tenda Vila Literária, no centro de Óbidos

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Admitindo que ainda se importa “muito” com o que acontece na China, a autora partilhou com a audiência, na Tenda Vila Literária, que a mãe ainda reside no país e que, por causa dos livros que publicou sobre o regime de Mao Tsé-Tung, não a pode visitar. “Tem 90 anos e está internada.”

“Depois da biografia sobre o Maio, o governo [chinês] tentou proibir-me de entrar na China. O governo britânico ajudou e foi-me permitido entrar durante duas semanas por ano para ver a minha mãe. Nos últimos anos, desde que as coisas ficaram muito más, ir à China é muito perigoso para mim. Não me seria permitido entrar”, afirmou, sem, porém, explicar os motivos que a levam a crer que a situação se complicou.

Abordando o tema da Covid-19, a autora revelou que a irmã, que também reside na China, lhe foi comunicando como a situação pandémica se ia desenvolvendo no país. “Dizia-me o que fazer e o que não devia fazer”, contou. Sobre o confinamento, disse que esse a ajudou a perceber quais são as “prioridades”, “o que é importante e o que não é”, e que passou a prestar mais atenção à natureza, ao seu jardim e aos pássaros.

“Redescobri a natureza e a importância da família”, disse. “Passei muito tempo em casa. Acho que para um escritor, não é mau de todo.”

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O Observador viajou até Óbidos ao convite do FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos