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Foi aberto, arquivado, reaberto e agora novamente arquivado. O inquérito que investigava a alegada colaboração do coordenador da Polícia Judiciária (PJ) Rogério Bravo com a Doyen — a empresa ligada ao futebol que Rui Pinto está acusado de ter tentado extorquir — foi arquivado pela segunda vez. O coordenador que liderou o inquérito ao alegado hacker chegou a ser constituído arguido por suspeita de influenciar a investigação do caso Football Leaks, mas o caso recebeu agora um novo despacho de arquivamento, confirmou fonte da Procuradoria-Geral da República (PGR), questionada pelo Observador.

Este pode, porém, não ser o ponto final do caso, uma vez que foi requerida abertura de instrução por parte do advogado Aníbal Pinto, que é arguido no caso Football Leaks, a par de Rui Pinto. Quer isto dizer que, agora, um juiz de instrução criminal vai decidir se o caso é mesmo arquivado. Pelo contrário, pode decidir que o inquérito deve ser reapreciado pelo Procurador da República.

Caso teve origem em queixa de Ana Gomes e foi reaberto após certidão extraída por juízes que estão a julgar Rui Pinto

Este processo foi originalmente aberto na sequência de uma carta enviada pela eurodeputada Ana Gomes à PGR e ao diretor da PJ, mas acabou arquivado por falta de provas no final de 2020. No entanto, cerca de um mês depois, os juízes que estão a julgar Rui Pinto decidiram extrair certidão para que este inquérito fosse reaberto, na sequência de um requerimento apresentado pelo advogado de Aníbal Pinto, João Pereira dos Santos, durante o próprio julgamento do hacker.

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Mas que suspeitas estavam em causa? Foi a inquirição no julgamento Football Leaks à testemunha Pedro Henriques, um advogado que prestava assessoria jurídica ao ex-administrador da Doyen, Nélio Lucas, que acabou por levar a que fosse pedida a extração de certidão. Pedro Henriques revelou que o então inspetor-chefe Rogério Bravo teria indicado o nome de um jornalista à Doyen para que a empresa pudesse expor a sua versão dos factos — na altura, os documentos da Doyen estavam a ser divulgados no site Football Leaks, da autoria de Rui Pinto, e o objetivo seria contar o seu lado da história.

Já na sessão anterior, de dia 9 de dezembro de 2020, ficou a saber-se que o mesmo inspetor-chefe teria enviado um email a Pedro Henriques onde pedia que o advogado apresentasse um requerimento à então Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, relacionado com o processo Football Leaks. Nesse email, o inspetor-chefe enviava mesmo uma espécie de rascunho com uma proposta de requerimento, onde alertava Marques Vidal para uma “escalada criminosa” e que Rui Pinto não só continuava a divulgar informação sobre a Doyen no site Football Leaks como agora tinha feito uma tentativa de extorsão.

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Mas as suspeitas já tinham sido levantadas há mais tempo. No início do julgamento, ainda em setembro do ano passado, o inspetor da PJ José Amador, ouvido como testemunha, tinha revelado que Rogério Bravo teria enviado a Pedro Henriques um documento relacionado com a investigação — enquanto ela decorria e numa altura em que procuravam descobrir quem era Rui Pinto. Tratava-se de um ofício em que as autoridades portuguesas pediam a colaboração da Rússia para descobrir a origem dos emails enviados por Rui Pinto — na altura, apresentava-se como Artem Lobuzov.

Rogério Bravo, que em setembro deste ano recebeu um louvor da ministra da Justiça e foi promovido a coordenador de investigação criminal, chegou a ser constituído arguido, como ele próprio admitiu ao ser ouvido como testemunha no julgamento de Rui Pinto. Agora, o caso foi arquivado, mas não chegou ao fim.

Inspetor da PJ que liderou investigação a Rui Pinto constituído arguido por suspeitas de ter colaborado com a Doyen