Os nomes indicados pelo Chega e pela IL para a vice-presidência da Mesa da Assembleia da República, Diogo Pacheco Amorim e João Cotrim Figueiredo, foram chumbados pelo Parlamento. Adão Silva, do PSD, e Edite Estrela, do PS, foram eleitos para a vice-presidência. Na segunda votação, Gabriel Mithá Ribeiro, o segundo deputado do Chega, foi chumbado com 37 votos a favor.

Era preciso uma maioria a favor e nem o Chega nem a Iniciativa Liberal a conseguiram. Cotrim Figueiredo teve 108 votos a favor, 110 brancos e seis nulos, enquanto Pacheco Amorim conseguiu apenas 35 votos a favor, 183 brancos e seis nulos. Edite Estrela foi eleita com 159 a favor, 59 brancos e seis nulos, e Adão Silva com 190 a favor, 28 brancos e seis nulos.

A lista para o Conselho de Administração, composta por Eurídice Pereira (PS), José Silvano (PSD), André Ventura (Chega), Carla Castro (IL), João Dias (PCP) e Joana Mortágua (BE), foi aprovada com 203 votos a favor, 15 brancos e seis nulos.

Em reação às votações, André Ventura disse tratar-se de um “dia negro na História nacional”. O líder do Chega acusa o PS e o PSD de terem construído uma “maioria de bloqueio”, com “apoio do PCP e do BE”.

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“A questão não é o nome, a questão é que há uma maioria de bloqueio que não quer o Chega na vice-presidência da Assembleia da República”, apontou o presidente do Chega, dizendo que “é um mau início de legislaturas, que abre com hostilidades claras à quarta maior força do país”.

Gabriel Mithá Ribeiro, o segundo nome do Chega apresentado para a vice-presidência Assembleia da República, diz que foi rejeitado por uma “questão racial“. “Candidato-me à vice-presidência e fui rejeitado. Isto tem de ter uma interpretação racial num regime que anda há décadas a defender que é anti-racista e defensor das maiorias. Fica aqui claro que uma coisa é o discurso e outra é a prática”, justifica.

“O que é curioso é que os 12 deputados do Chega votaram num candidato negro para a vice-presidência da AR, o partido que é acusado de ser racista”, acrescenta, numa tentativa de justificação de que o partido liderado por André Ventura não é racista nem xenófobo.

“Se uma pessoa é negra e é de esquerda é tratada com alguma dignidade, se é negra e politicamente neutra tende a ser apagada das instituições, se é negra e de direita é tratada como se trata os pretos. Eu interpreto isto como um símbolo de rejeição.”

Questionado várias vezes sobre se reconhece que há racismo em Portugal — sendo que o Chega diz que “Portugal não é racista” e até já se manifestou nas ruas com este lema — Mithá Ribeiro argumenta que “a questão racial não é para discutir a despachar”, que é preciso “reabrir um debate na sociedade”, acrescenta que o “racismo foi ultrapassado”, mas sublinha que “quem diz que o racismo existe na hora da verdade faz isto [rejeita um candidato negro]”.

Poucos minutos após a eleição falhada, Cotrim Figueiredo fez uma conferência de imprensa em que procurou “desdramatizar“, realçando que se trata de uma função “com relevo institucional”, mas que “não tem importância política para o projeto”. “Para a IL, estar ou não estar na Mesa da Assembleia da República não representa um retrocesso ou menor força”, sublinha, frisando que “dá mais força”.

O líder da Iniciativa Liberal admitiu que houve uma “derrota pessoal” e reiterou que não será apresentada nenhuma recandidatura, nem agora nem durante a legislatura, porque “quem não tem a confiança à primeira, não terá certamente à segunda”.

Cotrim Figueiredo garantiu que “não havia acordo prévio” com PS e PSD, mas admitiu que “nos últimos dias [achou] que havia possibilidade de não ser eleito” por o partido “saber ler o ambiente político”. “Se há motivos políticos por parte desses partidos grandes terão de lhes perguntar a eles.”

Durante as votações, e ainda antes de terem sido conhecidos os resultados, alguns deputados começavam a deixar, nas redes sociais, recados sobre o sentido de voto, nomeadamente sobre a recusa em votar no Chega, apesar de não ser dito o nome do partido em nenhuma das publicações.

Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, diz ser “óbvio” que os votos do partido “não servirão para eleger membros da extrema-direita para a Mesa da Assembleia da República”.

Também no Twitter, Inês Sousa Real, deputada única do PAN, recorda que apesar de “ter só um voto” este será “sempre utilizado em prol da democracia”. “Não contam, evidentemente, com o voto do PAN para eleger um vice-presidente das forças populistas antidemocráticas.”

E se o vice do Chega for chumbado? A lei, a prática e como o Parlamento está imune a um impasse