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Foram recrutados diretamente nas prisões russas, combateram durante seis meses na “operação militar especial” na Ucrânia e agora receberam a recompensa prometida. O primeiro grupo de ex-prisioneiros russos, convertidos em combatentes do Grupo Wagner, completou o seu contrato e recebeu esta quinta-feira um indulto.

A notícia foi divulgada pelo fundador do grupo de mercenários, Yevgeny Prigozhin, que revelou que uma dúzia de ex-prisioneiros receberam um perdão. “Cumpriram o seu contrato. Trabalharam com honra e dignidade. Foram os primeiros. Trabalharam como poucas pessoas trabalham no mundo”, disse à agência estatal russa Ria, ao lado dos combatentes.

Grupo Wagner demora semanas a capturar uma única casa em Bakhmut

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Segundo Prigozhin, alguns dos homens acabaram atrás das grades simplesmente por “acidente” ou “força de carácter”, uma vez que não conseguiram encontrar o seu lugar na sociedade. Na Ucrânia receberam uma nova oportunidade e a Rússia deve estar grata por terem lutado pelos “interesses nacionais”, defendeu.

Imagens divulgadas pela Ria mostram Prigozhin a parabenizar os combatentes por terem concluído o contrato. Num segmento do vídeo, é possível ouvi-lo enumerar alguns conselhos para que não regressem à cadeia.

“A polícia vai tratar-vos com respeito agora … Não bebam muito, não usem drogas, não violem mulheres. Sexo apenas por amor ou dinheiro”, afirmou – de acordo com a tradução do The Guardian -, sendo recebido pelas gargalhadas dos presentes. Prigozhin instruiu ainda os homens a não roubarem, uma vez que agora “têm dinheiro suficiente”.

O grupo Wagner, fundado por Prigozhin em 2014, tem assumido um papel importante nas operações russas na Ucrânia. Desde os meses de verão que a companhia militar privada recrutou centenas de homens nas prisões, para compensar as perdas na guerra. Prigozhin – conhecido como o “cozinheiro de Putin” por ser habitual o Presidente russo levar chefes de Estado a jantar aos seus restaurantes – foi inclusivamente gravado a visitar uma prisão e a prometer aos ouvintes que se servirem com as unidades serão perdoados.

Dos cachorros-quentes aos mercenários Wagner. O cozinheiro de Putin ganha poder no Kremlin e o seu exército é ainda fundamental na guerra

Não é conhecido o número real de prisioneiros que foram integrados nas fileiras do grupo Wagner. Olga Romanova, líder da organização não-governamental Russia Behind Bars, revelou que terão sido mais de 40.000, muitos dos quais já terão morrido. A prática, descreveu, é “ilegal” e “inconstitucional”.

O mesmo valor foi divulgado pelas autoridades norte-americanas em dezembro do ano passado. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Jonh Kirby, indicou que, com a adição de prisioneiros, atualmente haverá 50 mil membros da companhia militar na Ucrânia.

A presença dos mercenários na Ucrânia, que agora se concentram na cidade de Bakhmut, não tem passado despercebida. Kiev acusa o grupo de usar os recrutas como iscos humanos: no campo de batalha são lançados para ataques frontais contra as linhas ucranianas, denunciam.

São lançados para a linha da frente e abatidos. Grupo Wagner usa prisioneiros como iscos humanos

Somam-se vários relatos da brutalidades da companhia militar. Em novembro, o soldado russo Yevgeny Nuzhin foi executado pelo Grupo Wagner com golpes de uma marreta na cabeça depois de se ter rendido aos ucranianos. O assassinado, gravado e publicado no Telegram por um grupo ligado a batalhão, foi descrito como a “punição de um traidor”.

O grupo Wagner tem registado baixas e nem todos os combatentes regressam para reclamar a recompensa. Isso mesmo admitiu Prigozhin com o exemplo de um homem que morreu durante uma ofensiva russa na cidade de Vuhlehirs. “Tinha 52 anos, esteve 30 anos preso. Morreu heroicamente”, garantiu. De acordo com os companheiros, terá explodido com uma granada para evitar ser capturado, apenas um dia depois de chegar à linha da frente.

A experiência não parece, contudo, abalar a determinação dos membros de regressar à Ucrânia. Alguns dos homens que receberam esta quinta-feira o indulto planeiam agora voltar aos combates como voluntários. “Queremos regressar para acabar o que começamos e continuar a defender a nossa terra. [Queremos] derrotar os nazis, como os nossos avós fizeram”, assumiu à Ria um dos combatentes perdoados.