A estratégia estava montada: Rui Rocha tentou colar o Livre ao PS e Rui Tavares queria mostrar a IL como um partido que tem uma “visão de arco-íris” e que apenas quer “dar borlas aos ricos”. Ideologicamente distantes, o presidente da IL e o porta-voz estiveram frente a frente com versões opostas sobre realidade e à forma como é possível resolver os problemas do país.

A começar pelos impostos, o líder liberal reiterou a ideia de que o “choque fiscal” proposto pela IL custa cerca de cinco mil milhões de euros, reconhece que há uma “visão ambiciosa” por parte do partido e, questionado sobre a forma como esse valor pode ser financiado, explicou que há propostas de privatização de empresas públicas no programa da IL, como a TAP, que podem ajudar a isso. Só no caso da companhia aérea lembrou que podem entrar 500 milhões de euros. “Deve ser feito, por uma vez, não pedindo às famílias sacrifícios e que seja o Estado a fazer esse esforço que representa 2 ou 3% da sua despesa”, antecipou Rocha.

Rui Tavares acredita que os portugueses têm “muito pouco apetite de se lançarem em experimentações e aventuras” e explicou que é preciso “haver espaço para reduzir dívida pública” e para “fazer investimento”. E acusou a IL de querer “o Estado reduzido ao seu papel regulador” e onde “o Estado investidor e estratega que deve apoiar a economia não existe e são os privados que o fazem”. Ainda assim, reconhece que “pode haver uma reforma fiscal progressiva que possa ser fiscalmente neutra”.

O ataque não demorou e Rui Rocha investiu na ideia de que “a ambição do Livre parece ser viabilizar orçamentos do PS”, acusando o partido de não ter propostas “diferenciadoras” e que apenas podem levar Portugal a “mais do mesmo”. Para Tavares, Rocha tem uma “visão de arco-íris” em relação à economia e é preciso que o país seja uma comunidade em que “temos de nos ajudar uns aos outros”. “Com as borlas para os ricos isso não é possível”, atacou o porta-voz do Livre, levando o líder liberal a concluir que Tavares pretende “construir a casa pelo telhado”.

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Na saúde, enquanto a IL quer  “alterar radicalmente o sistema” e dar “liberdade de escolha” quer seja no SNS, no privado ou no setor social, para pôr fim ao “sistema de acesso a listas de espera” que Rocha diz existir, o Livre ambiciona que “todas as pessoas entrem num hospital de cara levantada” e está longe de acreditar na “fezada num sistema misto” da IL. “Para Rui Tavares, como no PS, quem trabalha e quer subir pelo seu trabalho não tem a possibilidade de o fazer”, defendeu Rui Rocha, que considera que o porta-voz do Livre “quer testar soluções de laboratórios”.

O debate seguiu para a área da habitação, em que Tavares assegurou que “Portugal é o país da UE mais procurado para milionários viverem” e acusou a IL de querer baixar os impostos aos mais ricos, dando o exemplo do mercado de habitação em Lisboa, que diz ser representado pelos sem-abrigo que vivem, por exemplo, “em tendas atrás da igreja dos Anjos”. “Demagogia”, atirou Rocha — que seguiu para explicar que há “150 mil rendas congeladas em Portugal” e que “não se deve fazer ação social à custa dos proprietários”. É nesta fase, disse, que “se há necessidade de habitação o Estado deve intervir”.

“Não é a desenrascar os que já estão desenrascados que conseguimos a coesão do país”, retorquiu Rui Tavares, que diz que “o PS está a correr atrás do prejuízo” e faz uma analogia sobre os liberais: “Rui Rocha é um miúdo num parque infantil que só quer descer o escorrega, por descer impostos, e fica muito irritado quando percebe que para descer o escorrega é preciso subir a escada e estão todos empancados e ele diz ‘é o mercado a funcionar’ e insulta-os de socialistas a todos.” Para Rui Rocha, é Rui Tavares  quem vive “num laboratório sem nenhuma adesão à realidade”.

O diálogo mais revelador

Rui Rocha: O Rui Tavares fala, relativamente às propostas da Iniciativa Liberal, de fezada, de escorrega, mas o Rui Tavares vive num laboratório sem nenhuma adesão à realidade. Rendimento básico incondicional de que já falei há bocado…

Rui Tavares: Eu falo de pessoas sem abrigo e tu falas de demagogia, quer dizer…

Rui Rocha: O rendimento básico incondicional que o Rui Tavares quer testar, pode ser testado em laboratório, mas quando passar no escorrega, para meter os pés na terra, custa por ano, se for por exemplo, 500 euros por pessoa…

Rui Tavares: Estás a discutir uma proposta que não existe, peço perdão, não vais aproveitar…o que está em questão é o teste…

Rui Rocha: Está no teu programa. Posso falar ou não?

Rui Tavares: Não, desculpa, custa 20 ou 30 milhões de euros, vamos falar de propostas que estão no programa do Livre. Não podes enganar as pessoas falando assim. Um teste de RBI custa 20 a 30 milhões. Uma implementação de RBI não está no programa do Livre