Uma freira pára um cowboy no meio do deserto. Precisa de boleia. Esse cowboy, forasteiro de serviço, vai parar a um bar, anda à procura da filha em terra hostil. Sobre a história, o melhor é não contar o fim, até porque não estamos num western. Ou estamos? Lisandro Alonso, um dos mais promissores realizadores argentinos, foi até ao Festival de Cannes, em 2023, apresentar Eureka, fábula mágica divida em três que segue lentamente as histórias do impacto das feridas e da integração da comunidade indígena numa era pós-colonialista. Primeiro, estamos com o forasteiro, um Viggo Mortensen sujo. Depois, acompanhamos a vida de uma polícia indígena numa reserva nos Estados Unidos da América, no Dakota do Sul. Terminamos na Amazónia brasileira, nos sonhos de cada um daqueles nativos e na procura por ouro. Antes de tudo isto, a Praia da Ursa, onde um indígena ecoa um ritual. Eureka estreia-se esta quinta-feira em Portugal.

Foi precisamente em Cannes que estivemos à conversa com um realizador que prefere não revelar muito dos seus segredos. “Quem já segue o meu trabalho, não terá surpresas. Nunca vou à procura da audiência, de festivais, desse universo. Não há distribuição comercial para este tipo de filmes”, diz. Em Portugal, país parceiro desta produção, através da Rosa Filmes de Joaquim Sapinho, pelos vistos há, quase um ano depois. Alonso, que agradece a oportunidade financeira e as paisagens deslumbrantes, tem amigos portugueses, como o realizador João Nicolau (John From, 2015). E deixa elogios: “O cinema português é muito livre, quase que nem tem regras”.  O público português, que tem algumas regras para não ir ver propostas mais radicais, pode agora retorquir as boas palavras ao dar uma oportunidade a si próprio para ser desafiado, para se sentir frustrado ou deixar-se levar por esta meditação criativa. E porquê começar com um western que afinal não o é? “É só para as pessoas não acharem que sou assim tão estranho”, argumenta o argentino.

[trailer oficial do filme “Eureka” de Lisandro Alonso, com estreia marcada para esta quinta-feira:]

Num dos vários edifícios junto à Croisette, em Cannes, subimos até um andar onde se encontra Lisandro Alonso. Na noite anterior, num bar onde é possível beber uma cerveja na rua sem parecer que fomos assaltados pelos preços inflacionados, foi possível ver de passagem o realizador argentino. Descontraído, barba por fazer, destoa da fauna chique. Parece que não se passa nada com ele, mas é preciso não esquecer que passou por nós um cliente habitual por estas lides. Nasceu em Buenos Aires, em 1975 e estudou três anos na Universidad del Cine. Estreou-se com uma curta-metragem, Dos En La Vereda“, vinte anos depois, mas foi só quando mostrou La Libertad na secção Un Certain Regard que começou a sua relação mais próxima com o festival. Está mais maduro, mais velho, mas não menos certo que o cinema que faz tenha lugar neste mundo. Por acaso (ou não), Eureka inseriu-se numa programação de 2023 que, entre outros temas, olhou de perto para a comunidade indígena — Assassinos da Lua das Flores, de Martin Scorsese, ou Flor de Buriti, de João Salaviza e Renée Messora, são exemplos –, só que Lisandro Alonso, quando questionado sobre como é que abordou e como trabalhou com os nativos, prefere baralhar o discurso. “Venho da Argentina, estou habituado a trabalhar com estas pessoas. E são isso mesmo: pessoas”.

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Quando acabou e estreou Jauja (2014), uma primeira colaboração com Viggo Mortensen, ator com quem partilha uma forte relação com a Argentina (país onde o ator viveu em criança), começou a desenhar este Eureka. Um trabalho longo que começa sempre pelo sítio onde Lisandro Alonso quer filmar. “Escolho o local, sigo para lá e pergunto: o que se anda a passar por aqui? Interessa-me saber mais sobre esses locais, como as pessoas vivem, aprende-se mais sobre o que precisam e o que nunca vão encontrar”. Agora já sem Jair Bolsonaro aos comandos do Brasil, o realizador argentino, que não conseguiu financiamento daquele país para este filme por causa das políticas aplicadas, pretende rumar à Amazónia. Guião? Logo se vê. A preguiça, segundo  o próprio, levou-o a demorar muito tempo a executar este último projeto, portanto, não há pressa para o próximo. “Quando estou a filmar deixo de dar atenção ao que está escrito. A essência das páginas tem de lá estar. Aconteceu-me depois do Jauja, percebi que tinha de passar mais tempo com aquelas personagens”, conta.

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Se não encontrou dinheiro para a montagem financeira de Eureka noutro país da América Latina, foi encontrá-lo em Portugal através do cash rebate, incentivo financeiro utilizado por grandes produções em território nacional. Seguindo as regras deste tipo de incentivos na Europa, Lisandro Alonso foi “obrigado” a filmar no país e a incluir alguns elementos nacionais na sua produção. O realizador sente-se bem na cauda da Europa. O filme também passou pelo México e por Espanha, em Almeria. Nessa procura, foi dar à Praia da Ursa, exercício de produção difícil numa zona costeira, junto ao Cabo da Roca, de acessos aparentemente impossíveis para uma rodagem. Encontrou também Luísa Cruz, a tal freira que precisa de boleia do forasteiro em Eureka. “Sim, ficou decidido que íamos filmar em Portugal porque em Portugal conseguimos financiamento. A Luísa conseguiu com que as situações em que está envolvida fossem engraçadas. Não foi intencional. Ela é que fez esse trabalho”, diz.

A verdade é que não há graça alguma em Eureka. Nestas três histórias, há sempre uma conclusão a retirar se estivermos dispostos a ser desafiados. Quer seja sobre quem colonizou, quer seja sobre o colonizado. Quem é indígena e quem não é. Quem sonha e quem prefere estar acordado. A sobrinha da polícia Alaina (que é mesmo polícia na vida real, Aliana Clifford), Sadie, professora de basquetebol com perfeita consciência do crónico problema de suicídio da sua comunidade, sabe que algo de errado se passou com a tia, durante mais uma noite de patrulha. Num dos momentos finais do filme, Sadie fala com o avô sobre a próxima fase — a morte. Não sabemos o que lhe aconteceu, mas vemos um pássaro de grandes dimensões a despedir-se de nós, do público. É o primeiro filme da jovem atriz, mas não parece. Nem se dá conta de que Lisandro Alonso, carregado de influências que vão de David Lynch a Jim Jarmusch, lhe tenha dado tamanho protagonismo. Mas deu. “O filme era suposto ter outro fim. Daí que ‘Eureka’ signifique ‘descoberta’. Podes aborrecer-te e não descobrir nada, mas pode ser que repenses algo. Nesse caso, vou ter sorte.”

“Sorte” é uma das palavras mais ditas nesta conversa com o realizador argentino. Apesar do estilo descontraído, até algo desconfortável quando os telemóveis começam a gravar a entrevista, Lisandro Alonso parece mesmo ser um tipo agradecido por ter conseguido colocar este filme de pé. Teve a sorte — lá está — de não ter sido muito complicado convencer Viggo Mortensen a repetir a dose de trabalhar com ele. “Quiseram experimentar esta aventura comigo”. lembra, insistindo em usar a palavra “aventura”. Atores internacionais, a portuguesa Luísa Cruz, a francesa Chiara Mastroianni, disseram sim ao desafio. É que Alonso sabe que não é um realizador típico que faça vender bilhetes no mainstream. “Há gente mais qualificada do que eu para fazer alguns géneros, mas um filme com o Leonardo DiCaprio não é um filme do DiCaprio. Sou o primeiro espectador para os meus filmes e acredito que há mais.”