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Não é apenas a morte de mais uma alta patente russa. O major-general Mikhail Gudkov, de 42 anos, veio engrossar o grupo das perdas mais significativas para Moscovo desde o início da ofensiva contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022. Liderava uma importante brigada da frota russa do Pacífico mas morreu em território russo, na quarta-feira, dia 2 de julho, em Kursk, na sequência de um ataque ucraniano. E ainda há poucos meses, Putin o tinha nomeado para vice-chefe da Marinha da Rússia.
O major-general “morreu no cumprimento do seu dever de oficial, juntamente com os companheiros de armas. Expresso as minhas sinceras condolências aos familiares, amigos e colegas de Mikhail Gudkov e todos os outros combatentes que morreram na região de Kursk. Glória eterna aos heróis”, escreveu o governador da região, Oleg Kozhemyako, no Telegram. O Ministério da Defesa russo confirmou, também, que Gudkov morreu “durante os combates numa das zonas fronteiriças da região de Kursk”.
Mas afinal quem era este general do alto comando naval russo, figura de muito má memória para Kiev, que começou na força aérea, apesar de se ter destacado na marinha?
Mikhail Evgenievich Gudkov nasceu em 1983 em Novosibirsk, na Sibéria, e formou-se em 2005 em Aplicação de Unidades de Reconhecimento Militar na Escola Superior Militar de Comando de Novosibirsk — atualmente, Escola Superior Militar de Comando da Ordem de Zhukov do Ministério da Defesa da Federação Russa, diz a agência estatal Ria Novosti. Desde 2000 que estava na Marinha, tendo participado em operações militares no Cáucaso do Norte e na Síria, onde, desde 2015, a Rússia conduzia uma operação militar contra grupos terroristas internacionais.
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Em 2005, foi destacado para as Forças Aerotransportadas e serviu na 83ª Brigada Aerotransportada Independente. Percorreu o caminho de comandante de pelotão de paraquedistas até chegar a comandante de batalhão de assalto aéreo.
Mas é na Marinha que Gudkov atinge o seu cargo mais elevado. Em março tinha sido nomeado pelo Presidente russo, Vladimir Putin, para vice-chefe da Marinha para as forças costeiras e terrestres com o objetivo de aumentar a eficiência do combate contra os ucranianos, refere o serviço russo da BBC. “Uma vez que o ministro [da Defesa] e o chefe do Estado-Maior Geral acreditam que a sua experiência precisa de ser replicada noutras unidades, decidi transferi-lo para um cargo que aumenta o seu nível de responsabilidade”, afirmou, na altura, o líder do Kremlin.
Antes desta nomeação, o major-general era comandante da 155º Brigada da Frota do Pacífico, um grupo de fuzileiros navais com base no Extremo Oriente russo e que esteve fortemente envolvido não só nas primeiras semanas da invasão à Ucrânia, como também na luta pelo controlo da região de Kursk. Para Putin, a brigada é uma unidade de elite e uma das melhores que a Rússia tem.
As forças da Ucrânia chegaram a acusar Gudkov e outros membros da brigada de cometer crimes de guerra por matarem civis nas cidades de Bucha, Irpin e Gostomel nos primeiros meses do conflito e por filmarem e publicarem vídeos da tortura e execução de soldados ucranianos.
O massacre em Bucha, situada a 25 quilómetros de Kiev, marcou os primeiros meses do conflito. Em abril de 2022, quando as tropas de Volodymyr Zelensky recuperaram a cidade após um mês nas mãos dos russos, começaram a surgir relatos e imagens de várias pessoas mortas espalhadas pelas ruas, com as mãos amarradas, com sinais de tortura e tiros na cabeça. Estima-se que mais 400 civis tenham sido mortos durante a ocupação russa. Este episódio de extrema violência foi condenado pelos governos e organizações internacionais, que acusaram o Kremlin de cometer crimes de guerra. Por seu turno, a Rússia negou todas as acusações, ao dizer que as imagens eram “encenações”.
Após o acontecimento, o Presidente ucraniano visitou a cidade e, em declarações aos jornalistas, disse que as autoridades ucranianas iriam fazer todos os possíveis para responsabilizar os autores do “massacre”. “Não vamos descansar um minuto até encontrarmos todos os criminosos — e penso que isso vai ser benéfico para a civilização”, sublinhou Zelensky, acrescentando que se não fosse possível encontrar uma “solução civilizada”, o “povo ucraniano” haveria de “encontrar uma solução não-civilizada”.
Mais recentemente, esta brigada russa combateu contra a incursão militar da Ucrânia na região russa de Kursk. Em agosto de 2024, a região foi invadida por forças ucranianas numa ofensiva surpresa que resultou na ocupação de muitas localidades e na captura de centenas de soldados russos. A incursão levou Moscovo a declarar estado de emergência e a evacuar milhares de civis, reforçando a segurança em torno da central nuclear de Kursk. As tropas russas lançaram, ainda nesse mês, uma contraofensiva que conseguiu reconquistar parte do território — foi um dos momentos mais tensos do conflito, marcando a primeira ocupação militar de Kiev em solo russo.
Relatos não confirmados em vários canais do Telegram ligados a militares russos sugerem que a morte de Mikhail Gudkov foi resultado de um ataque com pelo menos quatro mísseis a um posto de comando russo perto da cidade de Korenevo, a cerca de 30 km da frente de batalha. O comando pode ter sido descoberto por um espião ou pela inteligência militar ucraniana após alguns fuzileiros terem realizados chamadas telefónicas para família e amigos.
Ao longo da sua carreira, Gudkov recebeu várias distinções, tendo sido condecorado com a Ordem da Coragem e a Medalha Zhukov. Em 2023, recebeu a medalha de “Herói da Federação Russa”, a mais alta condecoração do país.
Este é 12º general russo que as forças ucranianas matam durante a guerra e cuja morte foi confirmada pelo Kremlin. Da lista contam os nomes de Andrei Sukhovetsky, Vladimir Frolov, Kanamat Botashev, Roman Kutuzov, Sergey Goryachev, Oleg Tsokov, Vladimir Zavadsky, Pavel Klimenko, Igor Kirillov, Konstantin Smeshko e Yaroslav Moskalik.
A morte desta alta patente russa ocorre no momento em que as forças de Moscovo avançam no leste da Ucrânia e a administração Trump suspende o envio de armas norte-americanas a Kiev.