Quando, no último sábado, Lionel Messi marcou um golo ao Irão nos derradeiros minutos do jogo, a seleção argentina — uma das favoritas a chegar longe no mundial do Brasil –, respirou de alívio por ter vencido, ainda que pela vantagem mínima, aquele país do médio oriente com pouca experiência de vitórias em grandes competições internacionais. Na vizinhança do Irão, no entanto, um outro grupo também ficava contente com a prestação de Messi – ou melhor, com a derrota dos iranianos. Na rede social Twitter, uma conta afiliada ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), o grupo extremista sunita que desde o início do mês controla à força uma divisão sectária do norte do Iraque, deixava a seguinte mensagem (em árabe) ao jogador:

https://twitter.com/Daash_News/statuses/480473183142047744

Traduzindo, felicitava Messi pelo golo e convidava-o para “integrar a chamada jihadista”.

Mas não estamos a falar de futebol, nem os rebeldes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante se interessam assim tanto pela classificação do Mundial do Brasil. O ponto é a divergência entre os insurgentes do ISIS, sunitas, e o Estado do Irão, xiita, que já demonstrou o seu apoio ao governo xiita de Bagdad e que poderá estar a mobilizar milícias para agirem contra o avanço dos extremistas. Mais do que isso, o ponto a reter é a forma escolhida para demonstrar essas divergências: o Twitter e a figura de uma estrela de futebol que é transversal a todo o mundo, estando particularmente inserida na esfera de influência do ocidente.

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O uso da internet e das redes sociais no seio de grupos terroristas não é totalmente novo. Bruno Cardoso Reis,  investigador do Instituto de Ciências Sociais na Universidade de Lisboa e especialista em segurança internacional, lembra ao Observador que a Al-Qaeda no Iémen sempre usou as redes sociais em seu proveito para difundir mensagens, e, por exemplo, o “próprio bombista da maratona de Boston admitiu que tinha tido acesso à receita para a bomba caseira na revista online do grupo”. Mas a verdade é que o ISIS parece ser o primeiro grupo terrorista do mundo a incorporar as redes sociais e as comunicações digitais como parte efectiva da sua estratégia de promoção e avanço no terreno, e muitos dos seus sucessos contra o exército iraquiano – conquistou desde o início do mês o controlo da zona norte, incluindo Mossul, a segunda maior cidade do país – parecem dever-se mais à sua máquina de propaganda assente na internet do que ao seu poderio militar (no terreno são cerca de 12 mil milícias do ISIS contra mais de 300 mil soldados do exército).

O objetivo passa não só pela divulgação de imagens e vídeos de violência e promoção das vitórias, que servem para propagar o pânico junto dos adversários, como principalmente pelo recrutamento de novos seguidores e financiadores.

O Twitter tem sido o principal palco desta estratégia. Através de várias contas, não só da entidade como principalmente de membros individuais, os rebeldes sunitas divulgam informação e fotografias, geralmente de conteúdo explícito, e chegam estrategicamente a um público muito vasto. Como? Através do uso hábil de hashtags, como aquelas que remetem para os jogos do Mundial de futebol, que por estes dias são os tópicos mais falados na internet. Ou seja, acrescentando à publicação uma palavra-chave que esteja a ser tendência no Twitter (precedida de um cardinal #), a mensagem que pretendem transmitir chega num ápice a uma enorme audiência, de todo o mundo. Mais: centenas, senão milhares, de utilizadores ligados ao ISIS colaboram numa campanha semelhante de hashtags que passa por ‘tweetarem’ em grande número determinadas palavras-chave, que aparecem depois no agregador @ActiveHashtags, uma conta árabe que publica as hashtags mais usadas do dia, explica o site Al Arabiya News. Fácil e rápido.

E para além disto, a estratégia passa ainda pela publicação de conteúdos num grande número de línguas diferentes, que vão do árabe ao turco, passando pelo russo e fundamentalmente por línguas ocidentais como o inglês, francês, holandês e alemão. (Há até quem diga que o plano de comunicação do ISIS está mesmo ao nível de uma qualquer multinacional do mundo industrializado).

Bruno Cardoso Reis arrisca uma explicação para o boom no online que se tem verificado naquele grupo de insurgência sunita, a par do facto de estarmos na era das redes e do digital: o recrutamento de jovens muçulmanos do ocidente. “Os jovens ocidentais são por norma mais hábeis e experientes no manuseamento das tecnologias digitais, e usam-nas de forma massiva”, diz. Capacidade que é aproveitada pelos terroristas para difundirem a sua mensagem. Além do Twitter, os filiados no ISIS estão presentes noutras redes sociais como o Instagram, o Google + e o YouTube. Este último também merece especial atenção devido à elevada qualidade de imagem e edição presente nos vídeos que divulgam (documentários violentos ou apelos ao recrutamento) – outro sinal da experiência dos seus filiados nas tecnologias digitais.

Recrutamento no ocidente: identidade e frustração

Num destes vídeos, um dos que teve mais impacto, um jovem soldado britânico que se identifica como Abu Muthanna al-Yemeni aparece ao lado de outros jihadistas, britânicos e australianos, a apelar aos muçulmanos do ocidente para se juntarem à causa do ISIS na Síria e no Iraque. Trata-se de um jovem de 20 anos de Cardiff, identificado como Nasser Muthana, que, segundo o pai, aspirava a ser médico e terá fugido de casa em novembro passado. Agora acredita-se que foi para a Síria e que o irmão mais novo, Aseel Muthana, de 17 anos, também lhe seguiu as pisadas.

“São sobretudo jovens de comunidades muçulmanas no ocidente que não se sentem satisfeitos nem integrados na sua comunidade”, explica Bruno Cardoso Reis ao Observador, numa tentativa de perceber o que leva estes jovens ocidentais a integrar as fileiras de um grupo que se assume como brutal e impiedoso. Os extremistas, segundo o investigador, tentam fazer chegar a mensagem às “pessoas que estão frustradas e que sentem que ali podem fazer a diferença”: “a ideia é dizer que ali a sua identidade deixa de ser um problema e passa a fazer parte da solução”.

Ataque e Contra-ataque no Twitter

Para potenciar o alcance do Twitter, usam uma aplicação chamada ‘A Madugada das boas notícias’, ou simplesmente ‘A Madrugada’, que mantém os seus utilizadores informados sobre tudo o que se passa no grupo jihadista ao mesmo tempo que ganha acesso a dados pessoais dos utilizadores. Segundo a revista The Atlantic, em meados de junho centenas de pessoas já tinham descarregado a aplicação, quer pela internet, quer pelos seus smartphones, através da App Store ou da Google Play.

app

Apesar de a aplicação ter sido usada inicialmente em abril, viu um crescimento exponencial no número de utilizadores desde o início de junho, altura em que o ISIS iniciou a sua ofensiva no norte do Iraque. De acordo com a mesma revista norte-americana, atingiu o seu pico no dia em que os jihadistas marcharam para Mossul, a segunda maior cidade iraquiana: foram 40 mil ‘tweets’ num só dia. Cenário semelhante aconteceu dias depois, quando foi anunciado que o grupo sunita se dirigia para sul, para a capital Bagdad. Centenas de utilizadores daquela aplicação publicaram a imagem de um soldado armado com o texto ‘Estamos a chegar, Bagdad’ e a bandeira do ISIS colocada ao fundo sobre a capital. Isto fez com que, nesse dia, qualquer busca feita no Twitter pela palavra Baghdad (em inglês) fosse parar inevitavelmente àquela imagem. Estratégia que contribuiu certamente para difundir o medo nos iraquianos residente em Bagdad.

A aplicação acabou por ser removida da ‘loja’ online assim que captou a atenção da Google, mas nem por isso deixou de levantar questões sobre a forma como a criação de aplicações pode ser arbitrária e pouco supervisionada.

No últimos dias, uma outra campanha no Twitter tem surgido em sentido contrário, numa tentativa de deitar abaixo as contas ligadas àquele grupo extremista. A #no2ISIS, uma conta criada no dia 18 deste mês, procura fazer a contra-campanha dos terroristas, dando informações sobre as atrocidades cometidas pelos insurgentes e, mais do que isso, procura encorajar os utilizadores a reportarem as contas dos militantes sunitas para o Twitter as encerrar. E explica como se faz a denúncia, passo por passo:

https://twitter.com/No2ISIS/status/481852374609170433

Evitar a censura e manter a informação a circular na internet pode ser um autêntico jogo do gato e do rato, daí que tenham de ser constantemente criadas novas contas ditas oficiais para alternarem entre elas, ao mesmo tempo que recorrem a contas de terceiros para o fazer. Quantos mais jihadistas estiverem ativos nas redes – a escrever em inglês, de preferência -, mais depressa se espalha a informação.

E é precisamente isso que tem acontecido, com muitos militantes a publicarem, mais do que imagens chocantes da violência infligida, fotografias do seu dia a dia na frente de batalha que parecem querer dar provas de ‘normalidade’ da vida de um jihadi na Síria ou no Iraque. Ou pelo menos aproximá-los dos seus seguidores e difundir a sua imagem no ocidente. Como qualquer jovem ocidental, mostram o que comem, o que bebem, o que fazem no tempo livre. Imagens do pôr do sol (#nofilter), gatos e kalashnikovs são algumas das matérias preferidas dos soldados do ISIS para fotografar.

Aqui ficam alguns exemplos:

https://twitter.com/Fulan2weet/status/477150429944750080

Além do gato e da kalashnikov, este militante escreve que queria que a mulher soubesse que estava ali, por isso deixou o sorriso à mostra na fotografia.

https://twitter.com/LifeofMujahid/status/480686647605211136

Pizza, “que saudades”, diz este soldado possivelmente oriundo de um país ocidental.

https://twitter.com/abu_muhajir1/status/435110173125136385

A imagem de uma lata de coca-cola valeu a este soldado a resposta de um outro jihadista: “mujahidins [combatentes] não bebem coca-cola, aliás, nenhum muçulmano devia beber, é uma empresa israelita”.

https://twitter.com/abu_muhajir1/status/423833375343128576

O pôr do sol visto através da pistola glock – “uma beleza natural” que não precisa de filtro ou edição de imagem, diz Abu Fulan al-Muhajir, que se assume como um “atual combatente na Síria para fazer chegar mais alto o mundo de Alá”.

https://twitter.com/Fulan2weet/status/428908411447934977

Novo paradigma?

Para alguns, o uso meticuloso que os grupos terroristas estão a fazer das tecnologias digitais marca o início de um novo paradigma no contra-terrorismo, escreve a plataforma online Versus, num artigo dedicado ao ISIS – “os terroristas que tweetam”. Perante isto levanta-se a questão de que os governos dos vários países devam (ou não) trabalhar em conjunto com as empresas de tecnologia e redes sociais para “neutralizar a influência destes grupos” e fazer contra-informação.

Essa tese é defendida por Peter Singer, diretor do Centro para a Segurança e Inteligência do Século XXI, do Brookings Institute. Ao Al Arabiya News o especialista em segurança afirmou que a ideia de os “governos de Estados pequenos tentarem controlar [sozinhos] estes conteúdos na internet é como se tentassem construir castelos no deserto no meio de uma tempestade de vento”.

E Singer não tem dúvidas de que, a par do perigo e da dificuldade de acesso dos jornalistas a estes cenário de guerra, a habilidade de manusear as técnicas digitais e o meticuloso conhecimento do funcionamento das redes sociais, fazem desta guerra também uma guerra online: “Tal como a guerra do Vietname foi a primeira guerra ‘televisiva’, estamos agora perante conflitos que se passam em locais como a Síria e o Iraque que são autênticas guerras transmitidas online”, diz.