A campanha alegre de PSD e PS na disputa pela Madeira /premium

PS e PSD apostam tudo nas ruas. Entre o entusiasmo e o conforto, a mudança e a estabilidade, a campanha na Madeira vai-se fazendo com o ritmo de sempre, mas com a incerteza de nunca.

Reportagem na Madeira

Com o olhar no horizonte. O que é o mesmo que dizer com o olhar na Quinta Vigia. É assim que Paulo Cafôfo e Miguel Albuquerque encaram os últimos dias de campanha na Madeira. PS e PSD estão na disputa pela liderança do governo regional da Madeira. De um lado, aposta-se na ideia de mudança, de renovação e de terminar com vícios do passado. Do outro, argumenta-se que a estabilidade dos últimos anos é que deve continuar a liderar a região. Os factos são os mesmos, os argumentos mudam conforme a trincheira em que se combata e o estilo da campanha também se altera de um partido para o outro.

Na caravana socialista respira-se um ambiente de confiança e é comum ouvir dizer que no domingo as eleições serão históricas. Dizem-no com vontade, mas também com uma dose de realismo que é agora mais palpável do que nunca. Segundo as sondagens o PS pode tirar a maioria absoluta ao PSD e até, quem sabe, vir a formar uma “geringonça” no parlamento regional. O PSD é dado como o vencedor, mas a margem da eventual vitória será a chave para entender como podem ser os próximos quatro anos de governação do arquipélago. Uma vitória social-democrata não é sinónimo de fim de sonho para os socialistas. Esta incerteza serve de vitamina para os apoiantes de Paulo Cafôfo, sobretudo os mais novos da Juventude Socialista, que aparecem barulhentos nos comícios, exaltando com qualquer tirada do candidato.

E se pelo lado do PS a energia parece pôr os apoiantes nos píncaros, pelo lado do PSD a história é ligeiramente diferente. O ambiente que se vive é mais sereno. Habituados a ter a vitória no bolso, os sociais-democratas são obrigados a apelar aos votos com mais cautela do que nunca. A maioria absoluta pode escapar por entre os dedos e com ela escorregar a Presidência do governo regional. A campanha laranja anda mais nervosa, mas tenta segurar o seu eleitorado e reclamar as honras do passado para evitar o pior dos cenários. A verdade é que estão habituados. Há quatro anos também se falava da possibilidade de Albuquerque não conseguir agarrar o legado de Jardim e deixar fugir a maioria absoluta. O próprio ex-Presidente do governo Regional fazia questão de traçar essa fasquia publicamente, dizendo que nem lhe passava pela cabeça que o PSD não ganhasse com maioria – nessa altura, Jardim e Albuquerque estavam mais afastados do que hoje. Há quatro anos, conseguiu por apenas um deputado. Desta vez, voltam a fazer-se contas e tudo indica que, pela primeira vez, haverá mesmo negociações para formar governo depois da noite de domingo.

Um PS profissionalizado. E quiçá iludido

Para quem tiver espreitado as campanhas dos dois partidos há uma evidência que salta logo à vista: o all-in que o PS está a fazer nestas eleições. O cuidado com a imagem, o profissionalismo da máquina de campanha e a preparação da mensagem que se quer passar. É tudo calculado. Afinal, há muito em jogo e nada pode ser descurado. Todos os detalhes podem contar e ninguém no seio socialista quer ser acusado de ter desperdiçado a histórica e virgem oportunidade de presidir ao governo Regional da Madeira.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Os jotinhas não deixam que o entusiasmo esmoreça, cantam a plenos pulmões os cânticos da campanha e incentivam todos os que acompanham a caravana socialista a não baixar os braços. Se se retirassem algumas fotografias de contexto seria fácil que a olho nu se acreditasse que ilustravam o momento da vitória de Paulo Cafôfo. Mas não. É apenas a fase da campanha. As gargantas certamente arranhadas dos membros da JS serão o menor dos problemas se no domingo o PS puder cantar vitória.

O entusiasmo é contagiante e até os mais idosos, sem energia para saltar ou cantar tanto como os caçulas, se sentem impelidos a participar. Por estes lados, a criatividade também parece ter saído beneficiada: em vez de cantarem o habitual “é jota, é ésse, é jota ésse”, adaptam a letra à sua própria circunstância e cantam “é cota, é ésse, é cota ésse”.

Na segunda-feira, eram cerca de 600 os apoiantes que esperavam Paulo Cafôfo num restaurante em Câmara de Lobos. O ambiente de festa prolongou-se até ao momento em que o candidato subiu ao palco. A JS, que até então fazia as vezes de animador, mantinha o fôlego. Mas começava a incomodar os mesmos “cotas” que antes se tinham juntado à festa. “Não interrompam sempre, quero ouvir o homem a falar“, reclamava um sexagenário com os lábios humedecidos pelo trago que acabara de dar na taça de vinho. O apelo não foi seguido. Provavelmente nem foi ouvido.

Afinal, aquele não era o momento nem da JS e nem dos mais animados apoiantes de Cafôfo que tentavam competir com os jotinhas para ver quem fazia mais barulho. “Deixem ouvir”, pedia-se nas filas traseiras. Aquele era o momento da mensagem política e não do folclore e nem sempre isso foi evidente para a plateia entusiasmada.

A excitação que se justificava nos momentos iniciais e nos pontos altos do discurso banalizou-se, tornando-se entediante para alguns. Uma festa para outros. Foi a esta plateia que Paulo Cafôfo se dirigiu para pedir um voto no PS, para poder levar a cabo uma mudança serena de políticas.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

O candidato sabe que não pode desprezar o passado por completo. Se quiser vencer e convencer tem de roubar antigos eleitores convictos de Alberto João Jardim e para isso não bastam os criativos hinos da campanha. É preciso passar a ideia de que se agradece o que se fez no passado ao mesmo tempo que se exige mais ambição para o futuro. Sem grandes revoluções, sem paleio exacerbado, com medidas concretas: o hospital no Funchal, a redução das passagens aéreas, a habitação e a integração da comunidade luso-venezuelana sem “jogos políticos”. Estes são os grandes cavalos de batalha dos socialistas. Os que mais animam as hostes.

No fim do discurso entrega-se a uma plateia satisfeita e em festa mas que não ouviu grande novidade no discurso de Cafôfo, que pretende na reta final encostar o PSD ao passado e dar-lhe um certo cheiro a mofo para poder reclamar mudança. Com o profissionalismo que se pede, a festa já está a ser feita. Talvez até cedo demais.

Um PSD popular. E talvez assustado

Na caravana social-democrata o cenário é bem diferente. Depois de, nas autárquicas de 2017, Miguel Albuquerque e o seu PSD terem ficados prostrados no ringue, num quase-KO, o candidato levantou-se aos poucos e aparando os golpes que ainda tentavam aplicar-lhe. Agora já está de pé, recuperou a vantagem e está pronto para uma luta mano-a-mano, mas ainda com mazelas visíveis.

No lugar de Loreto, na Calheta, na ponta oeste da ilha da Madeira, estava montado um palco típico das festas populares. Lá em cima, a banda da campanha do PSD aguardava que os candidatos subissem. Era terça-feira à noite e aguardava-se com expectativa a sondagem da Universidade Católica para a RTP. Saiu às 20h00 e trazia boas e más notícias para o PSD. A má: a perda da maioria absoluta. A boa: o crescimento em relação à última sondagem, que dava empate técnico entre PS e PSD.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Minutos depois da divulgação da sondagem, Miguel Albuquerque e a sua equipa subiram ao palco sorridentes mas não excessivamente entusiasmados. Um cenario sintomático da sensação que a sondagem tinha deixado na caravana social-democrata. À frente, uma plateia de pé, como se assistisse a um concerto. A JSD ocupava as primeiras filas formando uma visível mancha cor-de-laranja mesmo em frente ao palco. Menos festivos que a JS mas em maior número, iam intervindo de cada vez que o discurso parava.

O registo era mais informal do que o do dia anterior no PS. Com uma banda que tocava uma espécie de jingle popular de cada vez que o discurso era interrompido com aplausos, os habitantes de Calheta e os apoiantes do PSD ali presentes nunca perdiam a oportunidade para abanar ancas e bandeiras.

A informalidade podia ser tida também como conforto. O PSD sabe que os 43 anos de governo na ilha dispensam o partido de investir tanto como aqueles que querem crescer. Não é por acaso que o PS é o partido que mais dinheiro vai gastar com esta campanha. No entanto, e como nunca se sabe, Miguel Albuquerque adequa o seu discurso a um estilo mais simples: tentando incutir receio de mudança nas pessoas por um lado e acenando com a estabilidade política que sempre houve na ilha por outro. Uma estratégia que parecia funcionar naquela plateia, que de cada vez que ouvia falar da esquerda, que o líder do PSD-Madeira se esforçou por encostar à Venezuela, batia palmas. “Ele tem razão”, ouviu-se por mais do que uma vez.

(MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR)

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Além de recorrer a chavões, de dramatizar o discurso e de encostar a esquerda ao extremismo, Miguel Albuquerque procurava a proximidade na linguagem, em tudo isto bebendo diretamente do seu precursor, Alberto João Jardim. “Aldrabices”, “tolices” ou “trafulhices” foram palavras que usou mais de uma vez para se referir às políticas do PS. A falha de som que o obrigou a recorrer a um megafone para continuar o discurso só ajudou a que esta proximidade e informalidade se elevassem.

Apesar do à-vontade, era indisfarçável o receio na caravana do PSD, que parece estar a fazer os mínimos para não desiludir mas sem o fulgor ou o entusiasmo que se viam por estas paragens nos tempos do jardinismo. Talvez a sondagem venha agora a dar o boost que falta para o resto da campanha.

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