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Maria Gralheiro / Observador

Maria Gralheiro / Observador

A encruzilhada de Jeremy Corbyn

O Labour não estava tão à esquerda desde os tempos de Thatcher. Agora, em pleno Brexit, Corbyn tenta imitar o fenómeno de Bernie Sanders e fala aos jovens. Mas ganhará sem os mais velhos?

Há horas que demoram a chegar — e o de Jeremy Corbyn levou precisamente 12.418 dias para chegar.

Corria o dia 9 de junho de 1983 quando o deputado de Islington North entrava pela primeira vez na Câmara dos Comuns, em Westminster, como deputado, depois de umas eleições desastrosas para o seu Partido Trabalhista. Então liderado por Michael Foot, o Labour apresentou um dos programas mais esquerdistas da sua história. Nele, prometia-se a abolição da Câmara dos Lordes, o desarmamento nuclear do Reino Unido, a saída da Comunidade Económica Europeia e um investimento “maciço” no setor público. O programa ficou desde então conhecido como “A Nota de Suicídio Mais Longa da História” — e não foi em vão. O Partido Trabalhista acabaria por ter o segundo pior resultado da sua existência, ficando-se apenas pelo 209 deputados — praticamente metade dos 397 do Partido Conservador, de Margaret Thatcher, que chegava então a um segundo Governo.

12.418 dias — ou, de outra forma, 34 anos e um dia — depois, Jeremy Corbyn vai a votos com um programa que, embora esteja longe de ser uma fotocópia daquele que Michael Foot apresentou em 1983, é também ele um dos mais esquerdistas da história do Partido Trabalhista.

Desde 1983 que o Partido Trabalhista não apresentava um programa tão à esquerda. Dessa vez, Margaret Thatcher foi reeleita com uma maioria absoluta (Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Keystone/Hulton Archive/Getty Images

Para fazer frente a Theresa May, e assim evitar uma terceira vitória consecutiva ao Partido Conservador em eleições gerais, Jeremy Corbyn chegou a um consenso entre a sua ideologia e as alas do partido menos esquerdistas. O resultado final é um programa onde se fala de aumentar os impostos para quem recebe mais de 80 mil libras anuais (91.400 euros); aumento do imposto para as empresas de 21% para 26%; regresso do IVA para as mensalidades das escolas privadas; fim das propinas no ensino universitário; aplicação de um programa de nacionalização das linhas ferroviárias e da água.

O mote da campanha foi dado por Jeremy Corbyn num discurso invulgarmente agressivo, tendo em conta o tom habitual do homem de 68 anos. Falando contra o establishment, garantiu que ia desmantelar os “cartéis confortáveis” da política britânica. “Eles dizem que eu não sigo as regras — as regras deles! Eles dizem que nós não podemos ganhar, porque não jogamos o jogo deles”, disse. “Estão cheios de razão, não jogamos. E um Governo do Labour eleito a 8 de junho não vai seguir as regras deles”, disse.

“Eles dizem que eu não sigo as regras — as regras deles! Eles dizem que nós não podemos ganhar, porque não jogamos o jogo deles”
Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista

Nesse discurso, feito a 20 de abril, fez ainda um trocadilho com o nome da primeira-ministra e candidata conservadora, Theresa May, cujo apelido é sinónimo de “maio”. “Junho vai marcar o fim de May”, disse.

Será?

Segundo as sondagens, o trocadilho de Jeremy Corbyn não passará mesmo disso — um trocadilho. De acordo com as previsões, e olhando apenas para aquelas publicadas a partir da última semana de maio, o Partido Conservador de Theresa May deverá vencer o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn com uma vantagem entre 1% e 12%. Apesar da recente subida do Labour nalgumas sondagens, os trabalhistas continuam a surgir sempre atrás dos conservadores.

É certo que neste momento as sondagens políticas têm uma reputação tão boa no Reino Unido como Maradona depois de marcar aquele golo com a mão que ajudou a eliminar a seleção inglesa do Mundial de 1986. Depois das eleições de 2015 — as sondagens previam uma minoria ingovernável para David Cameron, mas este acabou a governar com maioria absoluta — e do referendo ao Brexit — nas vésperas da votação, chegavam a dar uma vantagem de 10% ao Remain.

Ainda assim, os especialistas contactados pelo Observador duvidam que, desta vez, as sondagens estejam erradas — pelo menos de forma redonda. “Jeremy Corbyn vai ter muitas dificuldades para ganhar estas eleições ou sequer evitar que Theresa May aumente a maioria que já tem no parlamento”, diz Tim Bale, professor na Queen Mary, University of London e especialista no Partido Trabalhista. “Velhas causas embrulhadas numa retórica nova, explicadas sem apelo nem apoio, não preveem um futuro brilhante”, acrescenta Steven Fielding, académico da University of Nottingham. E quando perguntamos a John Gaffney, da Aston University, também ele especialista no Partido Trabalhista, o que é que o Labour pode fazer para não repetir o fracasso dos seus partidos socialistas gregos, espanhóis, franceses ou holandeses, a resposta é lacónica: “Muito pouco”.

As lições de 2015 que ficaram dentro da gaveta

Em 2015, a derrota do Partido Trabalhista levou a uma reflexão interna. Desta, resultaram vários estudos.

Um dos primeiros teve o cunho da BBM Campaigns, feito por dois veteranos do Partido Trabalhista, que através de uma série de entrevistas com eleitores que até 2015 votaram no Labour — mas que nesse ano não o fizeram pela primeira vez —, tentaram descobrir as raízes da derrota de Ed Miliband. Estima-se que, nessas eleições, 6% dos eleitores trabalhistas desertaram para outros partidos: um terço para o Partido Conservador, outro para o SNP (o partido independentista da Escócia) e um último terço a dividir-se entre os eurocéticos do UKIP e os Verdes, mais à esquerda. Nesse estudo, os autores eram claros quanto aos efeitos a longo prazo: “Estes eleitores estão a um cabelo de se tornarem conservadores”.

Na conclusão, o estudo da BBM Campaigns dava conta de entrevistados que “disseram frequentemente que a oferta do Partido Trabalhista era pequena e confusa” e que eles próprios diziam que já não “entendiam para que é que o Labour servia”. As soluções apontadas passavam pelo Partido Trabalhista encontrar o seu “propósito”. E isso passaria, obrigatoriamente, por uma revisão da política económica, migratória e de segurança social.

Nas eleições de 2015, o trabalhista Ed Miliband não conseguiu convencer os eleitores indecisos e do centro, que acabaram por dar uma maioria absoluta a David Cameron (Getty Images)

Getty Images

Há, porém, outro estudo, que se tornou conhecido em janeiro de 2016, que causou ainda mais celeuma dentro do partido. Por três razões. A primeira, porque parte de dentro do partido. A segunda, porque não era para ser divulgado, até que chegou às mãos de jornalistas da BBC. A terceira, porque dava a entender que a liderança de Jeremy Corbyn, que contava nessa altura com o seu quinto mês, não era a mais eficaz para corrigir as falhas detetadas na campanha de 2015. Entre essas, está o “fracasso em afastar o mito de que o último Governo do Labour foi responsável pelo crash da economia”, a “incapacidade” de “convencer [os eleitores] dos benefícios da imigração”, o facto de Ed Miliband não parecer um “líder forte” quando comparado com David Cameron e ainda o “medo” de um Governo minoritário do Partido Trabalhista contar com o apoio dos independentistas do SNP.

“As razões que levaram à derrota do Partido Trabalhista em 2015 são claras”, diz Steven Fielding. “Todas elas podem ser resumidas a um facto: o tipo de pessoas que decide as eleições não estava do lado do Labour”, diz, referindo-se ao eleitorado suburbano, desde aquele que tem pouca escolaridade e trabalha com as próprias mãos até àquele que, grosso modo, representa a classe média. “Pessoas com uma hipoteca e com filhos”, simplifica o académico. E, neste momento, Steven Fielding tem uma certeza: “Só raramente estas pessoas estão com o Labour atual”.

Segundo Steven Fielding, em 2015 os trabalhistas fugiram de uma escolha “racional” — isto é, eleger um líder da sua área que conseguisse apelar, de alguma forma, aos conservadores — e preferiram antes tomar uma opção “confortável”. Jeremy Corbyn, o socialista que cita o “grande economista” Karl Marx e que, meio a brincar, disse que deixou crescer a barba para fazer frente ao centrismo da Third Way do trabalhista Tony Blair, é essa opção “confortável”.

“Eu já ouvi pessoas a dizerem-me literalmente que no tempo de Blair e de Miliband os líderes estavam sempre a tentar chegar a um consenso e pelo caminho a comprometer os princípios de base do partido e que, por isso, qualquer vitória seria sempre uma derrota”
Steven Fielding, professor na University of Nottingham e especialista no Partido Trabalhista

Mas será vencedora? Para alguns apoiantes ouvidos pelo académico da University of Nottingham, pouco importa. “Eu já ouvi pessoas a dizerem-me literalmente que no tempo de Blair e de Miliband os líderes estavam sempre a tentar chegar a um consenso e pelo caminho a comprometer os princípios de base do partido e que, por isso, qualquer vitória seria sempre uma derrota”, explica o académico, entre risos. “Por isso, há quem diga que prefere até perder do que ter à frente do partido alguém que compromete os seus valores de base.”

Os jovens que entram chegam para compensar os velhos que saem?

No verão de 2015, quando concorria à liderança do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn deixou claro que, mais do que apelar às “pessoas com uma hipoteca e com filhos”, queria antes atrair novos eleitores ao Labour. “Podemos encorajar muitas pessoas a irem votar, muitas mais pessoas, e podemos apelar a um conjunto mais vasto do eleitorado”, disse então. “Acho que podemos entusiasmar muitas pessoas.”

Tudo isto era código para uma coisa: jovens. Ou, concretamente, para o setor demográfico que participou menos nas eleições (com uma taxa de abstenção de 53% dos 18 aos 24 anos e de 46% dos 25 aos 34 anos) de 2015. Agora, a julgar pelas sondagens, é provável que Jeremy Corbyn ainda não tenha conseguido convencê-los em números que lhe chegassem para vencer as eleições.

A estratégia de Jeremy Corbyn passa por apelar ao eleitorado jovem, tendencialmente de esquerda, mas também pouco participativo em eleições (Rob Stothard/Getty Images)

(Rob Stothard/Getty Images)

“A ideia por trás da estratégia de Corbyn era a de que o Partido Trabalhista tinha deixado de falar com as várias esferas da sociedade britânica. Então, os jovens tornaram-se numa espécie de alvo”, diz Steven Fielding. “O problema com esta estratégia é que, geralmente, as pessoas que não votam são pessoas que não votam!”

Para Tim Bale, essa estratégia resultou dentro do partido — mas para fora dele foi “um erro”. “De forma geral, os eleitores costumam ser muito mais pragmáticos e centristas do que os militantes do Labour”, explica. “O eleitorado, no sentido mais vasto, não é liberal e de classe média ou média alta. É menos rico, não tem tanta educação e não é tão radical.”

John Gaffney acrescenta: “[Jeremy Corbyn] não consegue ir para além da sua base de apoio”.

As comparações entre Jeremy Corbyn e Bernie Sanders, o candidato nas primárias democratas derrotado por Hillary Clinton, são recorrentes — e não é por coincidência que o britânico tem pessoas da equipa do senador do Vermont a trabalhar na sua campanha. Tanto um como o outro são políticos experientes, conhecidos pelas suas convicções esquerdistas, fracos em telegenia e ainda assim apoiados maioritariamente pela geração millennial, que se revê no discurso anti-establishment. Tim Bale fala do “encanto da figura de avô” que tanto Bernie Sanders como Jeremy Corbyn possuem, mas há uma comparação que, entre risos, estabelece entre um e outro: “Um perdeu e o outro vai perder! E isto porque, da mesma maneira que Sanders não conseguiu apelar aos eleitores de colarinho azul do Partido Democrata, Corbyn também não conseguiu apelar aos trabalhadores do Labour. É como se ele fosse Kryptonite, nem lhe tocam!”.

Para aproximar-se deste eleitorado, explica Tim Bale, o Labour teria de rever a sua política para a imigração. “Sem que se note um esforço para serem um pouco mais socialmente conservadores na imigração, o eleitorado não vai querer votar neles”, diz o académico da Queen Mary, University of London. O mais próximo que Jeremy Corbyn chegou dessa ideia foi a de referir, no seu programa, que com a saída da União Europeia “ a liberdade de movimento” acabará no Reino Unido e que a imigração diminuirá. Porém, na cartilha corbyniana, não consta nenhum “limite arbitrário”.

Um problema chamado Brexit

Pouco ou nada destas eleições escapa àquele que foi, até à data, o momento mais definidor da política britânica do século XXI: a saída do Reino Unido da União Europeia, vulgo Brexit, decidida no referendo de 23 de junho de 2016. Nesse dia, nem Jeremy Corbyn nem Theresa May estiveram a favor da cisão britânica com a União Europeia — mas é em torno desse facto que estas eleições gravitam.

No dia 29 de março, a primeira-ministra britânica acionou o Artigo 50, que dá início ao procedimento para a saída de um país da UE. A partir desse dia, o Reino Unido passou a ter um limite de dois anos para negociar a sua saída com os restantes Estados-membros. Aqui, a palavra-chave já deixou de ser “saída” e passou a ser “negociar”.

“Theresa May diz que nenhum acordo é melhor do que um mau acordo. Mas temos de admiti-lo: nenhum acordo é um acordo muito mau, é o pior de todos os acordos, porque ia deixar-nos com tarifas em vez de termos acesso [livre] ao mercado.”
Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista

Como é normal de quem vai para a mesa de negociações, Theresa May e Jeremy Corbyn querem o que, num cenário de Brexit, seria para muitos o melhor de dois mundos: o fim da livre circulação e a continuação do acesso ao mercado único europeu sem tarifas.

Porém, há uma diferença entre a maneira como um e outro estão dispostos a falar com os países da União Europeia. Theresa May sugere recorrentemente uma saída sem acordo da União Europeia, referido como o hard Brexit. “Nenhum acordo é melhor do que um mau acordo”, costuma dizer a primeira-ministra. Do outro lado, Jeremy Corbyn não assume essa ruptura e responde que “nenhum acordo é o pior acordo”.

“Theresa May diz que nenhum acordo é melhor do que um mau acordo”, referiu Jeremy Corbyn no discurso em que anunciou — sem ir para lá dos pontos gerais inscritos no programa eleitoral — a política trabalhista para o Brexit. “Mas temos de admiti-lo: nenhum acordo é um acordo muito mau, é o pior de todos os acordos, porque ia deixar-nos com tarifas em vez de termos acesso [livre] ao mercado.” A esta posição de Jeremy Corbyn, os conservadores têm perguntado repetidamente: “Quanto é que os trabalhistas estão dispostos a pagar por isso?”. A resposta tarda em chegar.

“Jeremy Corbyn é visto como honesto, mas fraco. Theresa May é vista como mentirosa, mas forte. Quem é que as pessoas preferem que negoceie as suas vidas e as suas carteiras: uma pessoa honesta e fraca ou uma pessoa mentirosa e forte?”
Steven Fielding, professor na University of Nottingham e especialista no Partido Trabalhista

Para Tim Bale, o Partido Trabalhista está no meio de uma encruzilhada no que diz respeito ao Brexit. “Ao longo da sua história, os trabalhistas tentaram passar uma imagem de partido internacionalista, que acredita na cooperação entre países. E agora tem de fazer o melhor de uma situação má”, diz o académico. Isto tudo quando Jeremy Corbyn foi alvo de críticas, sobretudo dentro do próprio partido, de não ter defendido a permanência do Reino Unido na União Europeia com o afinco que alguns desejavam.

Para Steven Fielding, o Brexit deverá ser essencial para Theresa May se sobrepôr ao seu adversário trabalhista. “O Brexit é o tema mais importante destas eleições, mas não é uma área onde dá para haver diferenças de política de grande relevância, porque são negociações. Ninguém sabe como elas vão acabar”, explica. Assim, continua, “as pessoas vão votar na pessoa em quem mais confiam para chegar à mesa de negociações e defender os seus interesses”. E, aí chegados, há dois fatores que imperam sobre todos os outros: “A personalidade dos candidatos e a perceção que os eleitores têm deles”.

Aí, de acordo com o académico da University of Nottingham, Theresa May deverá sair por cima. “Ele é visto como honesto, mas fraco”, refere. “E ela é vista como mentirosa, mas forte.” Assim, Steven Fielding pergunta: “Quem é que as pessoas preferem que negoceie as suas vidas e as suas carteiras: uma pessoa honesta e fraca ou uma pessoa mentirosa e forte?”.

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