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Dezenas de barcos de pesca ficaram pendurados nas margens do Tejo e do Pônsul depois do esvaziamento da barragem de Cedillo em setembro de 2019

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dezenas de barcos de pesca ficaram pendurados nas margens do Tejo e do Pônsul depois do esvaziamento da barragem de Cedillo em setembro de 2019

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Desastre ambiental no Tejo. "Um dia cheguei e a minha barca estava pendurada" /premium

  • Texto de João Francisco Gomes, fotografia de João Porfírio, vídeo de Tiago Couto e Luís Vaz Fernandes

Ao fim de três décadas a pescar no Tejo, Conceição viu o rio desaparecer. O mesmo aconteceu do outro lado da fronteira, a Robert. A história de quem mais perdeu com o desastre ambiental.

Foram dois meses e meio sem trabalho para Conceição Rosa, 63 anos de idade, 34 de pesca no Tejo. “Tive que pedir dinheiro aos meus filhos para pagar as minhas contas”, suspira, entre longos silêncios, enquanto olha para o rio.

O Observador falou com Conceição Rosa em meados de novembro, dentro do seu barco, junto ao ancoradouro de Malpica do Tejo, distrito de Castelo Branco. Tinha voltado a meter a embarcação à água apenas três dias antes, após uma longa espera que começou no dia em que o esvaziamento repentino da barragem de Cedillo, no Tejo internacional, deixou o cais e os barcos pendurados na margem.

A simples descida do nível do rio não seria uma novidade. O Tejo, depois de ser espanhol e antes de ser português, define 47 quilómetros de fronteira, separando a região da Extremadura do distrito de Castelo Branco. O caudal desse troço é controlado pela barragem de Cedillo, último obstáculo antes de o Tejo entrar em pleno em Portugal. A Iberdrola, empresa energética espanhola, detém a concessão daquela barragem e retém ou liberta água consoante a atividade de produção de energia — e o nível das águas a montante da barragem vai subindo e descendo ao sabor desta produção.

Conceição Rosa é pescadora no rio Tejo há mais de 30 anos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Porém, nunca antes a água tinha descido tanto como em setembro de 2019. O rio Pônsul, pequeno afluente do Tejo que desagua na albufeira de Cedillo a partir do norte, ficou praticamente seco. O mesmo aconteceu com o rio Sever, que chega à albufeira pelo sul. Tudo para que Espanha cumprisse com o acordo que define as quantidades mínimas de água que tem de enviar para Portugal, como explicou várias vezes o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes.

As explicações, porém, parecem incompreensíveis para quem ali vive e não recebeu nenhum aviso relativo ao desaparecimento da água.

“Ouvi o ministro na televisão que soube quando avisaram que já estava o rio a descer. Eu ouvi isso na televisão. Mas é assim, nessa altura seria tempo ainda talvez de avisarem as pessoas. Penso eu”, lamenta-se Conceição Rosa. Ainda se lembra do dia de setembro em que chegou ao pequeno cais fluvial de Malpica do Tejo para, como de costume, se fazer ao rio. Em vez de encontrar o barco aportado, como de costume, deparou-se com um ancoradouro pendurado pela margem e um barco igualmente pendurado nas pedras, com o motor fora de água. O rio estava cinco metros abaixo do barco.

Na outra margem trabalha Robert Ramallete, nascido há 50 anos na pequena localidade espanhola de Cedillo, que dá nome à barragem que ali junta a Beira Baixa, o Alentejo e a Extremadura. Robert e Conceição são amigos de infância, uma realidade comum nas comunidades raianas: “Para nós não existe uma fronteira. Somos como quem fala de um vizinho da aldeia do lado”.

Robert é, desde 2011, o patrão do Barco do Tejo, uma embarcação turística que faz percursos entre a barragem de Cedillo e o cais fluvial de Lentiscais, em Castelo Branco, atravessando partes do Tejo internacional e do Pônsul. O barco leva uma média de 15 mil turistas por ano a Castelo Branco, explica Robert. “É um número importante, se considerarmos que é uma cidade de 36 mil habitantes.” Destes, 40% voltam à cidade ou à região por sua conta, garante, orgulhoso.

Tal como Conceição, Robert está sem trabalhar desde setembro. O esvaziamento da barragem de Cedillo também deixou o ancoradouro da albufeira a seco e o barco deixou de ter onde aportar. Pior ainda ficou o cais de Lentiscais, que acabaria por se tornar na imagem icónica do problema. Sem local para embarcar os turistas e sem água para navegar, a embarcação, com capacidade para 80 pessoas, teve de ficar fundeada no meio do rio durante mais de dois meses.

Robert Ramallete tem o barco turístico parado desde setembro e precisa de uma pequena embarcação para se deslocar no rio

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas, ao contrário de Conceição, Robert sabia o que ia acontecer ao rio. Quando começou a ver o nível da água a descer, telefonou à Iberdrola, a empresa espanhola que detém a concessão da barragem. Foi assim que ficou a saber que, por ordem do governo espanhol, a empresa ainda tinha de deixar passar 200 hectómetros cúbicos de água para Portugal até ao fim do mês de setembro — ou seja, mais de dois terços dos 266 hectómetros cúbicos da capacidade máxima daquela barragem. A agravar a situação, a barragem de Alcántara, a montante, não podia ser utilizada para compensar aquele esvaziamento, porque já estava no mínimo indispensável para abastecer de água doce a cidade de Cáceres.

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A água ia mesmo descer — e muito. E seria impossível navegar. Robert demorou poucos dias a testemunhar isso mesmo. Já depois de parar o navio no meio do rio, regressou ao ancoradouro. O rio estava 17 metros abaixo do cais.

Conceição e Robert são dois rostos de um desastre ambiental que ainda não compreendem plenamente — mas cujas origens remontam a 1998, ano em que Portugal e Espanha assinaram a Convenção de Albufeira. Em vinte anos, nunca houve problemas de grande dimensão. Em 2019, porém, a seca em Espanha e a falta generalizada de água no rio Tejo deixaram a descoberto uma falha daquele documento: os valores mínimos trimestrais definidos pela Convenção de Albufeira não são suficientes para assegurar o regular funcionamento do rio. Isto significa que, em anos de seca, a empresa concessionária pode limitar-se a cumprir os valores mínimos, sem enviar excedente (o que tem acontecido praticamente todos os anos), deixando para o final do ano hidrológico a maioria da água que tem de enviar para Portugal. Foi o que aconteceu este ano: no final desse período, o governo espanhol pediu à Iberdrola que enviasse para Portugal toda a água que faltava para cumprir o limite anual.

Quando há água em abundância, tudo bem: a água libertada é sempre muito acima dos mínimos. O problema surge nos momentos de seca. Nesse caso, a gestão da água pode resultar em danos como os que se registaram no ano passado.

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