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Abc das alterações climáticas... e prepare-se para ouvir falar disto duas semanas

COP, IPCC, Quioto, 2º C e muitos outros conceitos que poderão fazer parte do vocabulário diário durante a Conferência do Clima - de 30 de novembro a 11 de dezembro, em Paris. Veja o nosso glossário.

Alterações climáticas

As alterações climáticas são mudanças no clima que se manifestam durante um longo período de tempo. A Terra tem passado, naturalmente, por momentos mais frios e mais quentes na sua história, mas as mudanças atuais estão a acontecer a um ritmo superior ao que seria previsto. As alterações climáticas atuais são causadas principalmente pela atividade humana (e não por um processo natural), segundo o Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Se a temperatura ultrapassar um certo limite, como se espera que aconteça, humanos, animais e plantas terão dificuldade em adaptar-se a estas novas condições.

Biodiversidade

Biodiversidade

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  • Estima-se que existam entre cinco milhões e 30 milhões de espécies, mas apenas 1,75 milhões são conhecidas e estão formalmente descritas.
  • Entre 2000 e 2012, foram destruídos 23 milhões de hectares de floresta.
  • Atualmente, 20 a 30% das espécies de animais e plantas estão em risco de extinção.

A biodiversidade inclui todas as espécies de organismos vivos, a variabilidade genética dentro dos indivíduos da mesma espécie e as diversas interações que estabelecem com os ecossistemas. As ameaças à biodiversidade colocam em risco os serviços dos ecossistemas, incluindo a produção agrícola, a retenção das águas da chuva ou a absorção de dióxido de carbono pelas plantas. Mas as atividades humanas estão a causar grandes perdas na biodiversidade, seja pela destruição do habitat, pela sobrepesca ou pelas alterações climáticas. Se as alterações no clima acontecerem a um ritmo muito rápido e as espécies não tiverem possibilidade de migrar para novos locais, podem não ter capacidade para se adaptarem às mudanças.

COP

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês para United Nations Framework Convention on Climate Change) — o tratado internacional dos governos do mundo para evitar níveis severos de alterações climáticas. A primeira reunião teve lugar em Berlim (Alemanha), em 1995, e espera-se que as partes (atualmente 196, segundo a UNFCCC) se reúnam anualmente – a 21ª reunião da COP realiza-se em dezembro deste ano em Paris. As principais missões da COP são promover a implementação da Convenção-Quadro e rever os compromissos entre as partes à luz da eficácia dos programas nacionais para as alterações climáticas e dos novos dados científicos.

Dióxido de carbono

A respiração e decomposição dos animais e plantas é a principal fonte de dióxido de carbono (CO2), mas as plantas equilibram esta concentração na atmosfera através da fotossíntese (que usa carbono para produzir hidratos de carbono). Depois da revolução industrial, as emissões de CO2 aumentaram, sem que a natureza conseguisse compensar todo esse aumento. O dióxido de carbono é libertado durante a queima de combustíveis fósseis e biomassa, como no setor da energia e transportes, mas também é o resultado da desflorestação e de certas práticas agrícolas. O aumento do dióxido de carbono na atmosfera não tem, à partida, impacto na saúde humana, mas é um dos principais responsáveis pelo aumento global da temperatura.

Cada molécula de CO2 se pode manter na atmosfera por mais de 100 anos.

Eficiência energética

Uma das formas definidas para combater as alterações climáticas, além de reduzir queima de combustíveis fósseis, é aumentar a eficiência energética. Algumas das medidas de aumento da eficiência energética passam por melhorar o isolamento térmico dos edifícios, escolher eletrodomésticos que consomem menos energia ou diminuir as perdas durante a produção de energia. Quanto menor o consumo de energia, menores serão as emissões de CO2, logo menor a contribuição para as alterações climáticas.

Fósseis (combustíveis)

Petróleo, carvão e gás natural são exemplos de combustíveis fósseis. Chamam-se fósseis porque foram formados há milhões de anos a partir de materiais vegetais e animais em decomposição, sujeitos à ação do calor e pressão no interior da Terra. A queima de combustíveis fósseis liberta grandes quantidades de dióxido de carbono (um gás com efeito de estufa) na atmosfera. Por oposição, as fontes de energia renováveis, como biomassa, energia geotérmica, eólica ou hídrica, emitem muito menos gases com efeito de estufa para a atmosfera.

O carvão é o combustível fóssil mais barato e ainda é frequentemente utilizado não só para produção de energia elétrica, mas também para aquecimento, em alguns países da Europa de leste.

Gases com efeito de estufa

Os gases com efeito de estufa absorvem a radiação infravermelha que é emitida pela Terra e pelas nuvens e refletem-na de volta em direção à superfície do planeta. Este “aprisionamento” da energia na troposfera (camada mais baixa da atmosfera) acaba por aumentar a temperatura à superfície. O efeito de estufa dos gases que compõem a atmosfera permitiu, na história do planeta, manter uma temperatura amena à superfície, sem grandes variações. Mas o aumento da concentração de determinados gases na troposfera é responsável pelo aumento da temperatura média global. O dióxido de carbono e o metano são os principais gases com efeito de estufa, mas também o vapor de água, o ozono e o óxido nítrico.

Hidrosfera e criosfera

O sistema climático é muito complexo e depende de muito mais do que das influências na atmosfera – o envelope gasoso que rodeia a Terra. Um dos componentes, que interage muito diretamente com a atmosfera, é a hidrosfera, que inclui tanto a água superficial, como a água subterrânea, e tanto a água doce, como a água salgada. Mas enquanto a hidrosfera se refere à água no estado líquido, a criosfera inclui a água no estado sólido, como a neve, o gelo e o permafrost (solo permanentemente congelado). No sistema climático estão também a litosfera, que inclui as rochas da crosta continental e oceânica e a camada mais superficial e mais fria do manto, e a biosfera, que abarca todos os ecossistemas e organismos vivos do planeta, assim como a matéria orgânica morta.

IPCC

O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial. O painel reúne um grupo de especialistas que avaliam a informação científica disponível sobre as causas e os impactos das alterações climáticas. Num dos relatórios que o IPCC publica regularmente, os cientistas concluíram que o aumento global da temperatura estava a acontecer, que era causado pelas alterações climáticas e que estas eram em grande medida provocadas pelas atividades humanas. Adicionalmente, o relatório refere que os riscos são globais, mas que serão as populações mais pobres que vão sofrer as maiores consequências. Mais, a falta de ação acarretará custos maiores do que as medidas de adaptação e mitigação.

Jogos políticos

A Conferência das Partes (COP) tem como objetivo evitar níveis severos de alterações climáticas. Mas se é motivada pelas preocupações ambientais e comprovada pelos dados científicos, toda a reunião será muito mais baseada em diplomacia e estratégias políticas. A União Europeia é um bom exemplo pelas metas que tem conseguido atingir, mas acaba por ter menos destaque neste evento do que os grandes poluidores como Estados Unidos, China e Índia. Para esta COP, espera-se que as economias emergentes assumam compromissos mais desafiantes do que as dos países em desenvolvimento. Outro dos países que poderá querer ter algum protagonismo é o Canadá, que com a mudança de governo teve também uma mudança de postura em relação às alterações climáticas.

O Canadá criou pela primeira vez no país um ministério dedicado às alterações climáticas.

La Niña e El Niño

El Niño e La Niña são fenómenos climáticos que ocorrem intercaladamente e que são, de certa forma, o oposto um do outro. Porém, El Niño tem efeitos mais devastadores do que La Niña e por isso é normalmente noticiado. Ambos os fenómenos são independentes das alterações climáticas, mas os investigadores começam a ponderar a hipótese de estas alterações poderem intensificar fenómenos como estes.
El Niño é provocado pela mudança nas correntes oceânicas e atmosféricas, intimamente ligadas: a temperatura da água à superfície aumenta do lado este do oceano Pacífico e diminui do lado oeste, provocando um aumento da precipitação no continente americano, sobretudo América do Sul, e secas severas em países como a Austrália. Embora aconteça no Pacífico sul, pode ter impacto em todo o planeta.

Mitigação e adaptação

A resposta às alterações climáticas pode ser dada de duas formas: mitigando ou adaptando. Enquanto a mitigação se dirige às causas das alterações climáticas, nomeadamente a emissão de gases com efeito de estufa, a adaptação preocupa-se com a redução dos riscos decorrentes dessas alterações, com medidas de salvaguarda – antecipando ou reagindo aos riscos. Se por um lado é preciso evitar consequências extremas, por outro é preciso prepararmos-nos para os impactos das alterações que já estão a acontecer e para os que venham a acontecer no futuro.

Negacionismo

A comunidade científica reuniu provas suficientes para afirmar que as alterações climáticas estão a acontecer, que são causadas pelo aumento do nível dos gases com efeito de estufa na atmosfera e que este aumento é causado pelas atividades humanas. Dos 3.896 artigos publicados entre 1991 e 2011 sobre as causas do aquecimento global nos últimos 50 anos, 97,1% dos artigos atribui este aquecimento às atividades humanas, conforme o relatório de 2013 publicado na revista científica Environmental Research Letters, citado no site da COP.
Ainda assim, continuam a existir negacionistas, pessoas que se recusam a aceitar as evidências científicas. Carlos Teixeira, investigador no Instituto Superior Técnico, aponta vários tipos de negacionistas, entre eles os que negam tudo, os que acham que não vai ser assim tão grave, os que acham que não há nada a fazer para contrariar ou os que acham que combater as alterações climáticas é violar a liberdade individual.

Oceanos

O aumento da temperatura média global fará com que o gelo dos polos, dos glaciares e do permafrost derretam – só o Ártico perdeu 13% do gelo desde 1979, segundo a NASA. O degelo trará, entre outros problemas, o aumento do nível do mar e com ele as respetivas consequências para as regiões costeiras e ilhas. Os cientistas calculam que, entre os anos 1870 e 2000, o nível do mar tenha subido 18 centímetros, sobretudo nos últimos 20 anos (mais de seis centímetros). Os especialistas do IPCC preveem que até 2100 o nível do mar suba entre 26 a 82 centímetros.
Além de o aumento da temperatura global aumentar a temperatura à superfície do oceano, o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera também terá impacto nos mares: aumentará a acidificação. O oceano é um captador de dióxido de carbono, mas com o aumento da concentração na atmosfera, aumenta a captação e diminui o pH. Esta diminuição do pH afetará a biodiversidade, em especial os corais.

Pegada de carbono

A pegada de carbono é o contributo total na emissão de gases com efeito de estufa, feito ao longo de um ano, por um indivíduo, uma família, um edifício ou uma empresa. A emissão de gases considerada no cálculo inclui não só os gases emitidos diretamente pela pessoa (individual ou coletiva), como nos tipos de transportes que usa, mas também as emissões feitas para conseguir determinado bem ou serviço, como a eletricidade, as lixeiras ou os alimentos.
A pegada ecológica é um conceito mais abrangente e considera todos os serviços do ecossistema que um indivíduo usa para manter o estilo de vida e as atividades diárias. O Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês) disponibiliza uma ferramenta online para calcular a dimensão da pegada ecológica. Se o seu estilo de vida fosse a regra, de quantos planetas precisaria a humanidade?

Diferença na cobertura de gelo do Ártico, entre setembro de 2005 e setembro de 2007 – NASA

Quioto (Protocolo de)

O Protocolo de Quioto é um acordo internacional, uma adenda à Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC), que estabelece as metas de redução de emissão nos países desenvolvidos e os mecanismos de redução de emissões para os países em desenvolvimento. Foi estabelecido em 1997, mas só entrou em vigor em 2005. Nessa altura os Estados Unidos decidiram não ratificar o acordo. No âmbito deste protocolo, Portugal assumiu o compromisso de não ultrapassar as emissões de gases com efeito de estufa em 27% no período de 2008-2012, face às emissões registadas em 1990. Neste momento, Portugal está 7% abaixo das emissões que lhe são admitidas.

Redução da emissão de gases com efeito de estufa

Portugal tem como metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa: -18% a -23%, em 2020, e de -30% a -40%, em 2030, em relação a 2005 (quando entrou em vigor o Protocolo de Quioto). A contribuição de Portugal está em linha com as metas globais da União Europeia, 20-20-20 até 2020: reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 20%, aumentar 20% a proporção de fontes de energia renováveis e aumentar em 20% a eficiência energética. O objetivo para 2050 é reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, face aos níveis de 1990, em 80 a 95% na Europa e 50 a 60% no mundo.

Anomalias na temperatura média entre 1850 e 2014, em relação à era pré-industrial - Agência Europeia do Ambiente

Anomalias na temperatura média entre 1850 e 2014, em relação à período pré-industrial – Agência Europeia do Ambiente

Sequestro de carbono

Existem processos naturais de sequestro de carbono, como a fotossíntese das plantas ou a formação dos esqueletos rígidos dos corais. Mas como estes processos não são suficientes para compensar a quantidade de dióxido de carbono (CO2) emitido, têm sido estudadas alternativas. Uma das possibilidades é injetar artificialmente CO2 em camadas profundas do solo, antes mesmo de este ser libertado na atmosfera. A ideia é que as moléculas de dióxido de carbono entrem nos poros das rochas e aí fiquem aprisionadas. A injeção de dióxido de carbono pode mesmo ajudar a extrair metano das jazidas de carvão e petróleo.

Temperatura

A temperatura média global da Terra é aproximadamente 15º C, oscilando entre os 9º C e os 22º C devido à inclinação do eixo do planeta e da órbita à volta do Sol e devido a alterações na atividade solar ou a erupções vulcânicas.
Embora o impacto do aumento global da temperatura média seja variável consoantes as regiões, os cientistas definiram como limite máximo o aumento de 2º C até 2100, em relação à época pré-industrial, porque acima deste valor a capacidade de adaptação fica muito comprometida. Neste momento, a temperatura média global já é 0,8º C superior ao período pré-industrial e prevê-se que, nas condições atuais e se não forem assumidos compromissos mais exigentes, a temperatura vai aumentar pelo menos 2,6º C até 2100.

“Uma Verdade Inconveniente”

Al Gore, ambientalista e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, costumava fazer apresentações sobre as alterações climáticas com base no trabalho desenvolvido nessa área ao longo de vários anos. Essas comunicações foram o mote para o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, lançado em 2006, e para um livro com o mesmo nome. O documentário e o filme mostraram como a atmosfera do planeta é importante, mas ao mesmo tempo frágil, e quais os principais mitos e equívocos sobre o tema. Em 2007, Al Gore e o IPCC ganharam o prémio Nobel da Paz pelo empenho em criar e disseminar o conhecimento sobre as alterações climáticas causadas pelo homem.

Vénus

Vénus é o segundo planeta do sistema solar e é muitas vezes chamado de planeta-irmão da Terra pela semelhança na dimensão e massa. Mas Vénus tem uma grande diferença em relação à Terra, regista 462º C à superfície contra os 15º C de temperatura média global no planeta azul. Vénus consegue ser ainda mais quente que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, que tem uma temperatura máxima de 427º C. A principal causa da temperatura elevada em Vénus é a composição da atmosfera: 96,5% de dióxido de carbono (contra 0,04% na Terra), um gás com efeito de estufa. Além disso, Vénus está rodeado de nuvens de ácido sulfúrico.

Alterações climáticas e respetivos impactos observados e projectados para a Europa - Agência Europeia do Ambiente

Alterações climáticas e respetivos impactos observados e projectados para a Europa – Agência Europeia do Ambiente

Xistos betuminosos

Os Estados Unidos são o maior produtor de combustível proveniente de xistos betuminosos. Os xistos betuminosos são rochas sedimentares e resultam da deposição de sedimentos do fundo de lagos e oceanos, que foram sujeitos a condições de pressão e temperatura, mas não tão grandes como aquelas a que foi sujeito o petróleo. E também não podem ser extraídos da mesma maneira. É preciso extrair a rocha e aquecê-la para recolher este combustível fóssil (que no estado natural é sólido). Este processo é muito dispendioso e tem um grande impacto ambiental: emissão de gases com efeito de estufa, perturbação dos locais de mineração e uso e poluição dos recursos hídricos.

Zonas vulneráveis

Os cientistas preveem que o aumento da temperatura média global tenha impacto em todo o planeta, mas os efeitos não se vão fazer sentir da mesma forma em todos os locais. No Ártico e no nordeste da Europa, a temperatura pode subir muito mais do que a média. Pode aumentar a precipitação no inverno no noroeste da Europa e diminuir a precipitação na Europa central e de leste. As zonas costeiras e os pequenos Estados-ilha vão sofrer o impacto da subida do nível do mar e correm o risco de desaparecer. A região mediterrânica é, na Europa, a zona que terá os maiores impactos: aumento da temperatura maior do que a média na Europa, diminuição da precipitação anual, desertificação, aumento dos fogos florestais, perda de biodiversidade – só para enumerar alguns.

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