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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Alan Hollinghurst: "Já ganhei o Man Booker. Porque é que precisaria de o vencer novamente?" /premium

Esta terça-feira é anunciado o vencedor do Man Booker. Hollinghurst venceu-o em 2004 mas só está preocupado com o que lhe falta escrever: "Acho que os romancistas não se reformam", diz aos 64 anos.

Alan Hollinghurst venceu um dos mais reputados prémios literários, o Man Booker, em 2004, com o livro A Linha da Beleza. Desde então só publicou dois romances, porque “escrever dá muito trabalho” e cada obra nova dá “mais trabalho do que a anterior”. Nem O Filho do Desconhecido nem O Caso Sparsholt repetiram a graça e o último, publicado em 2017 mas acabado de traduzir para português, não foi sequer incluído na primeira seleção de obras candidatas este ano, escolhidas pelo júri do prémio que esta terça-feira, 16 de outubro, revela o novo vencedor. Hollinghurst não está surpreendido e muito menos preocupado, como apontou ao Observador em entrevista: “Já o ganhei uma vez, porque é que precisaria de o vencer novamente?”

Estes são os seis finalistas do prémio Man Booker este ano

Convidado este ano para integrar o painel de oradores do FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos, Hollinghurst, de 64 anos, encontrou-se com o Observador na vila que por esses dias quentes de início de outubro foi um rodopio de leitores e turistas, ansiosos por levar para casa uma recordação de Portugal. O escritor inglês, pioneiro do género “romance gay” que no Reino Unido foi “um fenómeno social e histórico dos anos 1970 e 1980” (palavras suas), tinha chegado na noite de véspera a Portugal. Nessa manhã, vestido com uma camisa azulada e bem humorado — pontuaria a entrevista com várias gargalhadas –, ainda não sabia que o seu romance vencedor do Man Booker seria daí a dias considerado “pornográfico” na República Checa, depois de um excerto da obra (passada no Reino Unido de Margaret Thatcher) ser difundido numa rádio local.

A conversa foi longa, indo da infância do escritor até ao seu mais recente romance, O Caso Hollinghurst. Publicado em 2017, foi traduzido para português e editado em Portugal há apenas um mês. É o sexto romance publicado por Hollinghurst desde que, há precisamente 40 anos, surpreendeu o Reino Unido e outros mercados anglófilos com A Biblioteca da Piscina, considerado o primeiro romance britânico centrado em vivências gay.

Descontraído, com algum tempo antes do almoço, o escritor inglês respondeu a tudo, do que significa escrever sobre o universo gay hoje em dia (e de como o “romance gay” tem os dias mais do que contados, por a sua “urgência política” ser hoje menor) à predileção sobre o romance em detrimento da poesia e conto, passando pelos tempos de estudante em Oxford, pela vontade de escrever sobre o passado e pela “nostalgia” que tem dos “bares e espaços gays” que fecham porque “é mais conveniente” conhecer alguém na internet. Cáustico com o Man Booker, que “não existe e não premeia autores apenas porque os seus promotores adoram romances”, mas também “porque acarreta um grande interesse comercial e procura tanta publicidade quanto possível”, Hollinghurst não se quer reformar. Ficaria “infeliz, miserável até”, por não ter “um livro em que pensar”. “Acho que os romancistas não se reformam”, concluiu, com um sorriso.

“O Caso Sparsholt”, de Alan Hollinghurst (Dom Quixote)

No seu último romance, O Caso Sparsholt, há um momento em que as personagens bebem um cálice de vinho do Porto. Já provou o licor aqui de Óbidos, a ginja?
Não, ainda não. Provarei certamente, gosto de provar licores novos.

Sei que já esteve em Lisboa, pelo menos em 2011 para entrevistas…
Sim, penso que já estive, salvo erro, duas ou três vezes.

Conhece bem a cidade?
Bom, essas foram as únicas vezes em que lá estive e os meus editores mantiveram-me muito ocupado com entrevistas, ainda que tenha conseguido aproveitar um pouco a cidade. Como me interesso muito por pintura, fui ao Museu Nacional de Arte Antiga e à Fundação Gulbenkian e foi fantástico. Adorava conhecer melhor a cidade.

Há um momento do seu percurso literário que não é muito abordado. Antes de se dedicar por inteiro aos romances, antes sequer de publicar o primeiro romance, publicou poemas e um conto. Nessa altura, não tinha ainda certezas sobre que género literário lhe serviria melhor?
Não, acho que não tinha. Quando era adolescente e estudante, escrevi muito poesia e creio que pensava que, se viesse a tornar-me escritor, tornar-me-ia poeta. A dado momento, creio que quando estudava já em Oxford, tentei escrever romances experimentais. É bastante difícil escrever romances quando se é novo, porque escrever um romance implica muito tempo, muita energia e preserverança, e nessa altura as nossas ideias mudam e desenvolvem-se muito rapidamente. Acabas por crescer pessoalmente fora da escrita de um romance. Creio que abandonei aí três romances que tinha começado a escrever, antes de escrever A Biblioteca da Piscina, que foi o primeiro que acabei e publiquei. Foi nessa altura que senti pela primeira vez que me dedicaria por inteiro ao romance. Nessa altura ainda escrevia poesia, tinha até um contrato assinado com a Faber and Faber [editora britânica] e tinha escrito metade de um livro de poemas. Porém, desde o dia em que publiquei o primeiro romance, nunca mais escrevi um poema. Tenho, portanto, metade de um livro de poesia à espera de ser terminado.

"Já não consigo sequer lembrar-me de como é surgir-me uma ideia de poema. Adoraria voltar a escrever poesia, até porque podemos fazê-lo antes de almoço [risos], em vez de precisarmos de cinco anos"

Porquê?
Acho que a partir daí dirigi para outro lado as minhas energias. Se antes via uma imagem e pensava em como ela se poderia tornar um poema, comecei a pensar em como se poderia tornar um romance. Já não consigo sequer lembrar-me de como é surgir-me uma ideia de poema. Adoraria voltar a escrever poesia, até porque podemos fazê-lo antes de almoço [risos], em vez de precisarmos de cinco anos.

O Caso Sparsholt divide-se em diferentes períodos temporais e locais mas o início passa-se em Oxford, onde cresceu e estudou. Um dos protagonistas, David Sparsholt, tem a ambição de se alistar na Força Aérea Real (Royal Air Force) britânico, por onde o seu pai passou. Costuma tirar excertos da biografia de pessoas que conhece para compor personagens ou há algumas, neste livro ou noutros, inspiradas especificamente e exclusivamente numa pessoa?
Todas as personagens são uma espécie de síntese de várias pessoas. Nunca construí uma personagem ficcional a partir de uma só pessoa. Fazê-lo seria difícil, parece-me. A única pessoa real que transpus para um livro sem a transformar muito foi a Margaret Thatcher [antiga primeira-ministra britânica], que aparece em A Linha de Beleza. Contudo, não se trata propriamente de uma personagem, tem lá uma espécie de aparição cómica. Já houve pessoas que me disseram que determinada personagem é inspirada neles. Digo-lhes que não é. Ainda assim, o principal recurso de um escritor é a memória, portanto quando tentamos imaginar uma personagem estamos sempre a pensar em como esta ou aquela pessoa reagiria em certas circunstâncias. Nenhuma das personagens deste livro é diretamente inspirada por alguém em específico. Sabia bastante sobre a Força Aérea Real porque o meu pai esteve lá, mas o David Sparsholt não poderia ser mais diferente do meu pai [risos].

Disse uma vez numa entrevista que não pensava em si como um “escritor público”, que para fins literários lhe interessava mais as vidas privadas. Nota-se que nos seus livros os ambientes influenciam muito o que as personagens dizem, pensam e fazem. Já colocou protagonistas nos mais variados períodos históricos e espaços geográficos. Para este último romance, escolher Oxford como local e o Blitz [período de bombardeamentos alemães sobre Inglaterra em 1940 e 1941] como enquadramento histórico da primeira unidade foi o ponto de partida? 
Foi um dos pontos de partida. Quando se escreve um livro nesta maneira estranha, em que há cinco unidades de tempo, espaço e de personagens, cada uma delas tem um ponto de partida diferente. Não se escreveu muita coisa sobre como era Oxford nesse período do Blitz e é um momento muito interessante, em que muitas coisas foram deslocalizadas de Londres para Oxford. As próprias característica da vida universitária desse tempo foram muito peculiares, porque os estudantes entravam com a expectativa de só lá ficar um ano até serem eventualmente alistados para o exército. Acho esse enquadramento interessante.

"Achei que seria interessante ir contra a maneira como a vida em Oxford é habitualmente retratada. Tenho a sorte de ter tido um grande amigo que morreu no ano passado, que estudou lá durante a II Guerra Mundial e falou muito comigo sobre esses tempos. Pude inspirar-me muito nas memórias e nos escritos dele e isso foi fascinante"

Como referia, conheço Oxford desde que me lembro, cresci e estudei lá, portanto conheço bem o que já se escreveu sobre Oxford e sobre a noção de vida universitária como período de três anos em que os rapazes se divertem muito e bebem demais. O que acho mais interessante na forma como se viveu esse período de II Guerra Mundial em Oxford é que foi o oposto disso, as pessoas ficavam pouco tempo, as condições eram bastante difíceis e estavam todos aterrorizados com o que aconteceria quando saíssem. Achei que seria interessante ir contra a maneira como a vida em Oxford é habitualmente retratada. Tenho a sorte de ter tido um grande amigo que morreu no ano passado, já com mais de 90 anos, que estudou lá durante a II Guerra Mundial e falou muito comigo sobre esses tempos. Pude inspirar-me muito nas memórias e nos escritos dele e isso foi fascinante, porque há muito poucas pessoas capazes de ainda dar o seu testemunho em primeira mão. Porém, também me interessou muito a ideia de um escândalo [sexual, que envolve o protagonista do livro].

Que possibilidades é que isso lhe oferecia para a escrita?
Na verdade, o que me interessava não era tanto um escândalo — porque normalmente são bastante sórdidos e desinteressantes — mas o impacto que ele pode ter, sobretudo nos envolvidos e nas suas famílias. O grande escândalo político e sexual do meu tempo foi “o caso Profumo”, em 1963, em que um ministro distinto do governo britânico [John Profumo] teve um caso com uma prostituta que por sua vez tinha um caso com espiões russos. Isso afetou muito o governo. Este caso Sparsholt não tem a mesma escala e dimensão, claro. Li um livro muito interessante escrito pelo filho do John Profumo, o David, em que ele detalhou o modo como viveu aquilo tudo na altura. Era um miúdo que andava na escola e foi proibido de ler jornais. Os colegas sabiam muito mais sobre o caso do que ele. Tinha um apelido muito pouco usado em Inglaterra, Profumo, tal como o filho do protagonista deste livro, Sparsholt. Queria muito explorar isto de o pequeno Johnny ser apresentado às pessoas e haver aquele sentimento: “Portanto estás relacionado com…”. Não podia simplesmente escapar disso. Como o romance cobre um grande período temporal, é possível dramatizar as mudanças que se registam na forma como as pessoas veem a vida privada e as questões morais. É por isso que a atmosfera em que vivem as personagens do livro vai-se alterando, de unidade para unidade.

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Vê parecenças entre a sua perspetiva literária e a perspetiva de um historiador? Parece ter muito interesse, sobretudo em livros recentes, em explorar a evolução dos tempos, o passado e o modo como o contexto e clima que se vive a cada momento influencia a maneira como a sociedade muda e evolui.
Isso fascina-me, de facto. Quando comecei a escrever sobre vivências gay, fi-lo em especial focando-me em períodos anteriores a 1967, ano em que os atos homossexuais foram descriminalizados em Inglaterra. Mesmo neste meu último romance, esse ano é uma espécie de chave escondida para decifrar o livro e o ambiente em que vivem as personagens, porque claramente algumas das coisas feitas pelo David Sparsholt neste livro [no ano de 1966] não teriam qualquer problema se tivessem sido feitas um ano depois.

Já o meu livro anterior, O Filho do Desconhecido, abordava uma história escondida de homossexualidade, um poema escrito em 1930 por um poeta que não era especialmente bom, e que parece ser dirigido a uma jovem mulher mas é na verdade um poema de amor dirigido ao irmão dela. Esse poema tem uma espécie de história secreta que só se desvenda na totalidade passados uns 50 anos. Portanto tem razão, interessa-me fazer uma espécie de investigação histórica com o intuito de desvendar questões ainda não abordadas pela literatura.

"Interessa-me entrar no território dos primeiros romancistas, por um lado tirando-lhes o chapéu, por outro tentando fazer uma coisa minha, com uma perspetiva que lhes era impossível ter face aos constrangimentos e enquadramentos legais e morais do seu tempo."

Porque é que, para servir as histórias que quer contar, o passado lhe é mais apelativo do que o presente?
Se estiver a escrever sobre algo que se passa em 1913 ou 1940, estou de certo modo a entrar no período dos escritores desses tempos. O livro O Filho do Desconhecido, por exemplo, passa-se em 1913. Interessa-me entrar no território dos primeiros romancistas, por um lado tirando-lhes o chapéu, por outro tentando fazer uma coisa minha, com uma perspetiva que lhes era impossível ter face aos constrangimentos e enquadramentos legais e morais do seu tempo, que influenciavam a forma como se viam as coisas. É-me bastante divertido mover-me nesses terrenos.

Já discutimos a importância do contexto social e cultural que envolve as personagens dos seus livros. No seu caso, de que modo é que o ambiente em que cresceu o influenciou e levou a ser escritor e a tornar-se a pessoa que é, com os interesses que tem e o modo de vida que leva?
[Pausa] Bom, provavelmente é melhor perguntar à minha psicoanalista [risos].

Estou a tentar substituí-la por uns minutos.
É interessante que me fale do ambiente em que cresci. Acho que o contexto é sempre decisivo e desde pequeno interesso-me muito por uma coisa que me é cara enquanto escritor: os edifícios, espaços, construções e decorações de lugares. É uma das coisas em que mais gosto de pensar quando estou a planear um romance e é algo a que fui sempre sensível. O ambiente que as pessoas escolhem e constroem para si diz-nos coisas sobre elas que de outro modo seriam impossíveis de inferir.

Também há questões sociológicas e de classe que me influenciaram. Com sete anos, fui enviado para um colégio interno. Cresci num ambiente inteiramente masculino e as duas escolas que frequentei na infância e adolescência eram antigas propriedades rurais de aristocratas que os donos foram forçados a vender, e que acabaram por transformar-se em escolas. A maior parte dos meus colegas odiava aqueles lugares, eu achava glamoroso viver naqueles belos edifícios antigos. Depois, ir para Oxford, um sítio com uma história literária e uma história arquitetónica tão ricas, vindo de escolas como aquelas, provavelmente tornou ainda maior, quase exagerado, o meu interesse por assuntos e narrativas históricas.

Passou de pioneiro e referência no chamado “romance gay” a pronunciar o seu fim como género literário. Acha que os tempos atuais, com a aceitação crescente e cada vez mais generalizada da homossexualidade em sociedades ocidentais, torna o “romance gay” menos unívoco ou diferenciado?
É uma pergunta muito interessante. Sinto que pelo menos no Reino Unido, onde o romance gay foi um fenómeno social e histórico dos anos 1970 e 1980, esse estilo literário foi no início uma resposta à libertação gay. Para mim foi muito interessante escrever sobre esse estilo de vida e publicar um primeiro romance em 1988. Nunca ninguém tinha escrito uma reflexão literária e romanceada sobre este assunto incrível, sobre esta grande área de interesse humano. Era uma oportunidade fantástica.

"A vida gay hoje em dia é muito mais abrangente, aceite e integrada na sociedade. Perdeu a novidade e a sua urgência enquanto assunto político é hoje menor. Ainda que isso não signifique que as pessoas não possam continuar a escrever sobre a vida gay -- eu faço-o, não só mas também --, acho que o seu traço distintivo desapareceu."

Depois desse período, veio a grande crise da Sida que deu aos escritores gays um segundo grande assunto para se debruçaram. As histórias sobre as vivências gay estão em permanente mutação e a vida gay hoje em dia é muito mais abrangente, aceite e integrada na sociedade. Perdeu a novidade e a sua urgência enquanto assunto político é hoje menor. Ainda que isso não signifique que as pessoas não possam continuar a escrever sobre a vida gay — eu faço-o, não só mas também –, acho que o seu traço distintivo desapareceu. Quando comecei a escrever ficção gay, estava bastante consciente de que escrevia sobre mim. Com a passagem do tempo, comecei a interessar-me menos em definir a sexualidade na escrita do que em explorá-la. Hoje em dia, a bissexualidade tornou-se muito mais predominante, é um novo mundo que muitos dos meus amigos mais novos do que eu habitam. A sexualidade tornou-se mais fluída e há mais dificuldade e recusas em defini-la. Acho isso fascinante.

É curioso como o seu percurso acontece em contra-ciclo. À medida que na literatura e cinema as descrições de relações homossexuais se tornam mais descomplexadas e claras, nos seus livros tornou-as mais subtis, insinuantes, menos explícitas…
Pois [ri-se alto].

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Por exemplo, nesse último romance, há a descrição de um encontro sexual entre duas personagens masculinas, Sparsholt e Evert. A descrição é feita pela segunda personagem, que conta a um amigo quase tudo, e minuciosamente, desde o momento em que os dois se encontram nesse dia, ao passeio que fizeram, passando pelo que conversaram e beberam no bar e pela ida dos dois ao quarto de Sparsholt. Já no quarto, a luz apaga-se — e o que se passa a seguir não é revelado. Porquê?
Quando comecei a escrever sobre comportamentos sexuais gays, fi-lo de forma explícita e aberta. Pareceu-me muito interessante tentar escrever assim e tentar descrever tudo da melhor forma, mas uma pessoa não se quer repetir. Acho que, com o passar dos anos, comecei a interessar-me cada vez mais pelo que não conhecemos, fugindo ao modelo de romance em que há um mistério e segredo por revelar que se descobre no fim e então tudo faz sentido. Neste momento, interesso-me cada vez mais pelo que fica mal resolvido e por explicar, em dar ao leitor factos que ele conhece mas muitos dados incertos. O que é que se passou exatamente nessa noite, entre essas duas personagens? O que é que ficaremos a saber exatamente? Parece-me mais semelhante à vida real, porque é tão pouco o que sabemos verdadeiramente da vida privada das outras pessoas… Não se trata de não descrever o que as pessoas fazem na cama por timidez, tratou-se de achar que neste romance era aqui que deveria haver maior mistério.

"Há cada vez mais bares e espaços gays a fechar porque as pessoas não precisam de ir lá para encontrar outras pessoas. Pode ser terrível passar horas e horas nesses meios, a beber com esperança de se encontrar alguém. É de facto muito mais conveniente resolver a coisa em 30 segundos. Mas o romântico em mim prefere os tempos antigos."

A fluidez e liberdade sexual atuais no mundo gay são algo que lhe poderá interessar explorar de futuro?
Sim, é possível. A vida íntima passou de muito privada e secreta nos anos 1940 a ser transmitida e difundida em direto na internet. É uma mudança incrível que aconteceu durante a minha vida. Porém, tenho algumas saudades de um mundo que as relações eram estabelecidas fisicamente, em pessoa, em certos sítios de referência, em vez de se estabelecerem online [risos]. Há cada vez mais bares e espaços gays a fechar porque as pessoas não precisam de ir lá para encontrar outras pessoas. Pode ser terrível passar horas e horas nesses meios, a beber com esperança de se encontrar alguém. É de facto muito mais conveniente resolver a coisa em 30 segundos. Mas o romântico em mim prefere os tempos antigos [risos].

Contou uma vez, numa entrevista, que os seus editores tiveram receio de que o seu primeiro livro não fosse lido nos Estados Unidos da América. Com a falta de romances anteriores sobre vivências gay, que colocassem essa orientação sexual no centro da narrativa, escrever A Biblioteca da Piscina foi um risco? Ou já tinha a certeza que iria surpreender e ser lido, pelo que observava à sua volta, em 1988?
Ninguém esperava que fosse um sucesso, creio, e as pessoas estavam bastante preocupadas. Não consegui vender os direitos do livro antes de ser publicado. Graças a Deus, porque tê-los-ia vendido por qualquer coisa que aparecesse. Felizmente, o livro foi um bestseller e consegui vender os direitos por uma soma de seis dígitos. As coisas tornaram-se de repente mais luminosas.

Não quero parecer convencido, mas acho que foi um daqueles livros que ainda nunca tinha sido escrito, portanto ninguém sabia como seria recebido. Havia uma lei, a secção 28 ou cláusula 28, que estava a ser aprovada nessa altura no parlamento britânico e que proibia autoridades locais de gastarem dinheiro em tudo o que promovesse a homossexualidade. Não sabia, portanto, se uma biblioteca pública, por exemplo, poderia ter o meu livro. Todo o palavreado dessa lei era tão estúpido que nunca ninguém foi acusado por causa dela, mas ela existia, era uma lei repressiva e motivou muitos protestos naquele tempo. Foi nesse clima que o livro foi publicado e acho que o ambiente até foi bom para o livro [risos].

Está em Óbidos, num festival literário, onde pode contactar com leitores. Nestes encontros, prefere ouvir leitores dizerem-lhe que se identificaram com as personagens ou que não se identificaram nada mas gostaram da narrativa?
Presumo que haver quem se identifique com os livros é tocante, porém, nunca me interessou muito essa questão de um leitor se identificar com as personagens. para ser sincero, o que quero é que se interessem por elas, que se envolvam no livro de forma imaginativa. Gosto de ouvir alguém dizer que foi seduzido pela narrativa.

"Tenho 64 anos, seria uma idade razoável para me reformar, mas acho que ficaria extremamente infeliz,  miserável até, se não tivesse um livro em que pensar. Acho que os romancistas não se reformam."

Também referiu, numa entrevista antiga, que antes de começar a escrever este livro chegou a considerar a reforma. O livro foi escrito e publicado. A reforma já voltou a passar-lhe pela cabeça? Está a considerá-la?
Não creio que me vá reformar, porém, dá-me muito trabalho escrever um livro e cada romance novo dá-me mais trabalho do que o anterior. Tenho 64 anos, seria uma idade razoável para me reformar, mas acho que ficaria extremamente infeliz,  miserável até, se não tivesse um livro em que pensar. Acho que os romancistas não se reformam [risos]. Para ser sincero, o meu problema não é ficar sem ideias para escrever, é, à medida que fico mais velho, haver ainda tanta coisa sobre a qual posso escrever e ter de decidir o que escrevo e não escrevo. Talvez seja por isso que dividi este último livro em cinco secções, cinco períodos temporais e cinco histórias. Como não me tinha decidido quanto ao livro que deveria escrever, escrevi cinco livros num [sorri].

Também disse uma vez que gostava de conseguir integrar a vida social rotineira na escrita, mas que tinha dificuldades em fazê-lo, sobretudo nestes últimos anos. Tem valido a pena?
Tem valido a pena. Não quero dar a impressão de que sou um ermita que vive miseravelmente. Felizmente, tenho muitos amigos fantásticos e um parceiro incrível, ainda que quando estou a trabalhar goste de passar extensos períodos isolado e concentrado. Distraio-me com muita facilidade e aproveito qualquer oportunidade para fazer outra coisa qualquer, portanto tenho de criar um ambiente bastante restrito para escrever. Fazê-lo é muito recompensador, ainda assim.

Quando o convidaram a escolher dez livros que lhe mudaram a vida, incluiu um surpreendente: O Senhor dos Anéis [Hollinghurst ri-se alto]. Pode explicar a escolha?
Bom, sou incapaz de ler o livro agora, hoje é-me impossível lê-lo, mas teve um grande impacto na minha vida, quando tinha 11 ou 12 anos. Fiquei completamente absorto naquilo, naquele mundo. Acho que li O Senhor dos Anéis seis vezes seguidas. O meu professor de inglês tentava convencer-me a ler outras coisas mas tinha de voltar sempre aos hobbits e àquele universo. Depois, tive um momento de claridade e percebi que não conseguia ler mais uma palavra daquilo [risos]. Com aquela idade, uma idade muito impressionável, era um livro que nos deixava fácil e profundamente absortos. Havia ali uma atmosfera Tolkien, algo que não sei explicar na descrição daqueles cenários e acontecimentos, que ainda hoje me marca, leva-me ao passado. Não tem nada a ver com as histórias das personagens, tem simplesmente um encadeamento que na adolescência te transporta com grande entusiasmo para um outro mundo.

"Não me surpreendeu de todo que este último livro não fosse incluído na 'longlist' do Man Booker de este ano. Há outros livros que abordam de forma mais direta preocupações do presente e penso que isso apelará mais aos júris de prémios como este. De qualquer modo, já o ganhei uma vez, porque é que precisaria de o vencedor novamente?"

Ganhou um Man Booker com A Linha de Beleza. Desde aí escreveu dois romances, O Filho do Desconhecido e O Caso Sparsholt. Tinha a expectativa de voltar a ganhar o prémio com algum destes dois livros?
Não, seria uma loucura esperar isso. Não me surpreendeu de todo que este último livro não fosse incluído na longlist [uma primeira seleção alargada de candidatos à vitória] do prémio de este ano, há outros livros que abordam de forma mais direta preocupações do presente e penso que isso apelará mais aos júris de prémios como este. De qualquer modo, já o ganhei uma vez, porque é que precisaria de vencê-lo novamente?

A decisão de 2014 de alargar o leque de possíveis vencedores a escritores norte-americanos e de outras nacionalidades, desde que publicados em inglês e em território britânico, ainda causa controvérsia. Antigamente, o prémio só podia ser atribuído a escritores da Commonwealth, República da Irlanda e Zimbabué. O que é que achou da mudança?
Estive contra a decisão e pareceu-me que estragou a identidade particular deste prémio. Acho que se perdeu alguma mística. Tornou o prémio mais importante na América, por ter passado a considerar autores norte-americano, mas não estou a ver os norte-americanos a decidirem de repente que o prémio Pulitzer também pode ser atribuído a escritores britânicos. Não me parece que isso vá acontecer. Acho que a decisão diluiu e tornou menos claro o foco do prémio.

Crê que haverá a ambição de que o prémio continue a crescer, quem sabe até ser capaz de concorrer, em termos de popularidade e mediatismo, com os maiores prémios literários do mundo, como o Nobel da Literatura?
É possível. Quem sabe? Eles são ambiciosos e querem ter tanta atenção quanto possível. O Man Booker não existe e não premeia autores apenas porque os seus promotores adoram romances, existe porque acarreta um grande interesse comercial e procura tanta publicidade quanto possível. Portanto sim, acredito que a ambição de quem o organiza passa por tornar o prémio cada vez maior. Só não sei até que ordem de grandeza poderá chegar.

Muito obrigado.
Tudo bem, foi um prazer.

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