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Amadeo de Souza-Cardoso morreu há 100 anos. O que vale hoje o pintor genial? /premium

Parte da vida de Amadeo está por estudar e apenas um grande museu guarda as melhores obras dele. Longe de leilões e da crítica, sobreviverá o pintor ao entusiasmo que hoje o rodeia?

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Fernando Pessoa escreveu em 1916 ao também poeta Armando Côrtes-Rodrigues (açoriano que chegou a publicar na revista literária “Orpheu” sob o pseudónimo feminino Violante de Cysneiros) e elogiou Amadeo com palavras que passaram à história:

“O mais célebre pintor avançado português.”

Almada Negreiros, quase iniciante, afirmou em 1917 na revista “Portugal Futurista” que estávamos perante um “génio”. Parte da elite portuguesa olhava-o com expectativa, porém, Amadeo iria em breve engrossar a lista de milhões de vítimas da pandemia de gripe espanhola de 1918 – morreu a 25 de outubro, há precisamente um século – e essa promissora carreira de mais de 500 obras em escassos 14 anos, com enorme reconhecimento em França, na Alemanha e nos EUA, ficará esquecida por muitas décadas e ainda agora renasce desse trauma.

Natural da pequena aldeia de Manhufe, concelho de Amarante, Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) foi um dos mais fulgurantes artistas do século XX,  próximo dos movimentos artísticos de vanguarda e interessado em experimentar linguagens de todos eles, mas teimosamente determinado em ir mais além. “É muito ambicioso, muito consciente de si, inconformista, inquieto, com forte espírito crítico e desejoso de se afirmar”, resume a historiadora de arte Catarina Alfaro, coautora da Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso (2016) e comissária de exposições do artista. “Cumpre o programa das vanguardas, sem que isso o afaste de si mesmo”, acrescenta. Terá sido impressionista, cubista, expressionista, futurista – quase tudo ao mesmo tempo. “Não sigo escola alguma, as escolas morreram, nós, os novos, só procuramos agora a originalidade”, afirmou em 1916 numa entrevista ao jornal “O Dia”.

Emília Ferreira Cardoso e José de Souza-Cardoso, pais de Amadeo, cerca de 1915 (Foto: Fundação Calouste Gulbenkian)

Surge-nos hoje como referência familiar devido à redescoberta iniciada há pouco mais de três décadas, ainda que sobre ele continue a pairar um “círculo infernal de eterno esquecimento”, expressão de Helena de Freitas, historiadora de arte na Fundação Gulbenkian e curadora da grande retrospetiva de 2016 no Grand Palais, em Paris. Prosaicamente, o jornalista e crítico de arte Alexandre Pomar avalia: “Amadeo não tem futuro, porque não há obras dele no mercado da arte”. Helena de Freitas concorda em parte: “Lamentavelmente, os artistas sem obras a circular no mercado, que não são reconhecidos por revistas, críticos, galerias ou museus – os agentes que dinamizam o mundo da arte – tendem para uma inexistência”. Assinala, no entanto, que Amadeo “já não é uma é uma inexistência histórica”, por via do trabalho de investigação e apresentação que se iniciou em tempos recentes e do qual ela própria e Catarina Alfaro são duas das protagonistas.

Paris: a grande descoberta

Amadeo veio ao mundo a 14 de novembro de 1887, filho de Emília Ferreira Cardoso e de José de Souza-Cardoso, grande proprietário rural e viticultor. Passou a infância com os oito irmãos entre Manhufe e Espinho e cedo mostrou apetência para desenho, a começar pela caricatura. Manuel Laranjeira, pouco mais velho que ele, foi um dos amigos que mais o encorajaram. A família também. Estava destinado a ser arquiteto e mudou-se para Lisboa aos 18 anos, em 1905, para estudar na Academia de Belas-Artes. Simplesmente, “desinteressa-se do ambiente da capital e nem é estudante de boas notas”, aponta Catarina Alfaro. Encontra em Lisboa os mesmos vícios do Porto e terá dito isso mesmo a Manuel Laranjeira, mais tarde médico e escritor, ao que este lhe responde numa carta de 1905 que a “futilíssima vida lisboeta” era “boa para pelintras e mariolas”. Por óbvias razões, e porque tinha dinheiro para isso, em 1906 ruma a Paris. Com ele segue Francis Smith, poeta e pintor de origem inglesa nascido em Portugal.

Paris será uma segunda casa para o artista amarantino, oito anos de fulgurante projeção que hão de acabar em 1914, quando rebenta a I Guerra Mundial e regressa às origens. “Não esteva nada distraído nesta fase”, explica Helena de Freitas. “Pouco se dava com os artistas portugueses em Paris, mas também não os desprezava".

“Cursara vagamente a Academia de Belas-Artes de Lisboa e em França não procurou ensino oficial”, escreve em 1979 o historiador e crítico José-Augusto França no livro O Modernismo na Arte Portuguesa. “Nenhuma bolsa a isso o obrigava, já que a fortuna paterna lhe sustentava com alguma largueza as despesas, marginalizando-o também por isso em relação aos muitos compatriotas que vimos demandarem Paris.” José-Augusto França foi dos primeiros a enaltecerem Amadeo na primeira vaga de redescoberta do pintor, nos anos 1950, mas parece reservar-lhe sempre alguma recriminação. Dá-o como “talento emocional e ambicioso, como outro não houve entre os seus contemporâneos”, mas chama a atenção para a “falta de preparação estética que atravessa a sua obra, responsável por erros e ignorâncias”.

Paris será uma segunda casa para o artista amarantino, oito anos de fulgurante projeção que hão de acabar em 1914, quando rebenta a I Guerra Mundial. Dá-se com artistas portugueses estabelecidos na capital francesa, Manuel Bentes, Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Domingos Rebelo, e em lugar da arquitetura vai interessar-se pela pintura. “Não esteve nada distraído em Paris”, explica Helena de Freitas. “A partir de certa altura, pouco se deu com os artistas portugueses, mas também não os desprezava. Percebeu que deveria afastar-se de um circuito nacional e colocar-se no centro, para contracenar com os outros atores daquele mundo cosmopolita.” Faz ele próprio o álbum “XX Dessins”, em 1912, um portefólio com os melhores dos seus desenhos, numa tentativa bem sucedida de chegar ao maior número possível de pessoas. “Promovia-se muito bem, com os meios certos e através das pessoas certas”, comenta Catarina Alfaro.

6 fotos

Na capital francesa, começa por se instalar junto a Montparnasse, visitava o Louvre com frequência e assombrava-se com a pintura dos primeiros renascentistas, os “primitivos”. Aí conhece Lucie Meynardi Pecetto (1890-1987), a futura mulher, de origem italiana. Faz aulas com o pintor espanhol Anglada Camarasa, então muito considerado, e convive com o pintor italiano Amedeo Modigliani, o escultor romeno Constantin Brancusi, o muralista mexicano Diego Rivera, os pintores franceses Sonia e Robert Delaunay.

“Relaciona-se com o expressionismo alemão e com a influência russa e oriental”, sublinha Alexandre Pomar. “Foi muitas vezes visto como um pequeno artista cubista, o que o desvalorizava, porque o colocava como seguidor de outros. Essa mania de apresentar sempre os artistas portugueses referenciados à escola de Paris prejudica-os bastante. Só nos estudos mais recentes, a partir da década de 1990, é que se valorizou o facto de Amadeo ter tido uma carreira muito instável. Nunca se fixou num estilo.”

No livro de 1979, José-Augusto França faz uma extraordinária súmula, notando o percurso cubista do artista: “Um encontro de amizade com Modigliani, com quem expôs em 1911, deu a Amadeo uma indicação de caminho original. [Depois] aproximou-se dos cubistas, vindo a expor no Salon d’Automne de 1912. [O poeta e crítico] Apollinaire menciona-o de passagem e um crítico americano convida-o a participar no que seria a primeira e escandalosa exposição de pintura moderna nos Estados Unidos, o famoso Armory Show de Nova Iorque, Chicago e Boston, em 1913. Logo a seguir, por proposta de Delaunay, Amadeo figurou no Salão de Der Sturm, em Berlim, e a obra exposta regista-se já em esquemas cubistas ortodoxos.”

Domingos Rebêlo, Amadeo de Sousa Cardoso, Emmérico Nunes, Manuel Bentes e José Pedro Cruz, em Paris, 1908 (Foto: Fundação Calouste Gulbenkian)

A Portugal chega em 1914, depois de uma visita a Barcelona que lhe permite conhecer Gaudi. A Guerra terá impedido que regressasse. Casa-se no Porto com Lucie Pecett e ficam a viver na Casa do Ribeiro, em Manhufe. Hão de manter ligação próxima ao casal Delaunay que também se muda de Paris para Vila do Conde, por causa da guerra. Amadeo continuou a produzir obra e alguns consideram essa fase tardia, marcada por colagens, a mais interessante.

Duas famosas exposições em nome próprio causam escândalo e surpresa em 1916: primeiro no Porto, no Jardim Passos Manuel; depois em Lisboa, na Liga Naval Portuguesa – momentos reconstituídos em 2016 e 2017 no Museu Nacional Soares dos Reis e no Museu do Chiado, com curadoria das historiadoras Raquel Henriques da Silva e Marta Soares. Subitamente, morre em Espinho a 25 de outubro de 1918, com apenas 30 anos. “O regresso a Portugal terá sido um grande erro”, avalia Helena de Freitas.

Anos e anos esteve guardado

A coleção de arte moderna do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, é onde se encontra atualmente a esmagadora maioria das obras do artista, bem como fotografias, cartas e outros papéis, vendidos e doados pela família a partir de meados de 60. São 62 pinturas, 138 desenhos e 38 objetos (incluindo uma paleta), segundo Ana Vasconcelos, conservadora do museu. O arquiteto José Sommer Ribeiro (1924-2006) e o pintor Paulo Ferreira foram dos principais responsáveis por essa transferência do espólio e a isso terão convencido Lucie. Em Amarante, no Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, e também em Lisboa, no Museu do Chiado, existem outros núcleos relevantes do artista. De resto, só três instituições fora do país o têm na coleção: Pompidou (uma pintura), The Art Institute of Chicago (três) e Museu do Michigan (uma). A obra esteve várias décadas sem circular, remetida a um desastroso silêncio.

"Lamento não ter havido um leilão quando ele morreu, porque dessa forma teria sobrevivido como artista de forma relevante. Os artistas ganham posição quando há obras no mercado, quando há colecionadores a comprar", diz Alexandre Pomar.

A viúva de Amadeo, segundo Helena de Freitas e Alexandre Pomar, manteve em sua posse a parte mais significativa do espólio, nunca o colocando no mercado e resistindo à integração em museus, o que terá contribuído para um esquecimento acentuado. Paradoxalmente, José-Augusto França afirmou em 1979 que Amadeo teve em vida “uma espécie de bulimia perante o lauto banquete que a arte contemporânea oferecia”.

Alguma visibilidade foi-lhe dada, por fim, com uma exposição na Casa de Portugal em Paris, em 1958, e outra no Secretariado Nacional de Informação (SNI), no Palácio Foz, em Lisboa, em 1959 (sendo o SNI o organismo responsável pelo propaganda política durante o salazarismo). Contudo, nenhuma das iniciativas terá sido muito benéfica, “em parte por causa da guerrilha política entre a oposição e o regime”, conta Alexandre Pomar. “O facto de Amadeo ser valorizado pelo SNI levantou problemas a pessoas como o José-Augusto França. Teria sido diferente se a retrospetiva tivesse acontecido noutro contexto”. Quanto à mostra de 1958, diz Helena de Freitas, “fez parte de uma estratégia diplomática do Estado Novo” e consistiu numa “apresentação folclórica que destacava na obra de Amadeo os valores que o regime pretendia, o que não foi vantajoso, porque os anos 50 em França são já uma época muito culta e com exigência museológica”. Ainda assim, através dessa exposição francesa, o curador Jean Cassou comprou uma pintura de Amadeo para o Museu de Arte Moderna, atual Centro Pompidou, ainda hoje no acervo da instituição: “Cavaleiros”, de 1913, óleo sobre tela.

Nova vida de Amadeo

Uma verdadeira redescoberta só no fim da década de 1980 aconteceu, com retrospetivas na Gulbenkian (1987) e nos EUA (Washington, 1999, e Chicago, 2000), mas principalmente a partir de 2006, com a muito falada exposição “Diálogos de Vanguardas”, na Gulbenkian, comissariada por Helena de Freitas e Catarina Alfaro, vista por mais de 75 mil visitantes.

Amadeo e a mulher, Lucie, em Barcelona, 1914 (Foto: Fundação Calouste Gulbenkian)

“Amadeo teve a fatalidade de desaparecer muito novo e o azar de não ter sido posto no mercado na altura certa”, sustenta Alexandre Pomar. “Lamento não ter havido um leilão quando ele morreu, porque dessa forma teria sobrevivido como artista relevante. Os artistas ganham posição quando há obras no mercado, quando há colecionadores a comprar, quando atingem valores altos em leilões, quando os museus disputam a compra de obras. No caso de Amadeo, não há nada para vender, a Gulbenkian comprou quase tudo.”

As raras criações de Amadeo que circulam por leiloeiras têm preços oscilantes, mas bastante elevados. Em 2006, por exemplo, “Paisagem com Casa e Figura Montada num Burro”, alcançou 190 mil euros no Palácio do Correio Velho, em Lisboa. Na mesma casa, em 2011, “Barba à Guise Cabeça” foi arrematado por 122 mil euros. E há quatro anos, na Veritas Art Auctioneers, “Instrumento Musical” teve um valor de martelo de 55 mil euros. Por comparação, “O Almoço do Trolha”, de Júlio Pomar, chegou aos 350 mil euros em 2015, um recorde para artistas portugueses contemporâneos leiloados em Portugal.

“Quem sabe se um dia a Gulbenkian não abdica de uma dezena de obras e as vende ou deposita noutros museus”, conjetura Alexandre Pomar. Uma tal operação, considera Helena de Freitas, “teria de ser negociada, seria longa e lenta, mas não impossível”. A investigadora faz questão de notar que a realização de colóquios, conferências e exposições não são despiciendas para o prestígio internacional do artista e destaca que a 11 de dezembro, na delegação da Gulbenkian em Paris, terá lugar um encontro de académicos, organizado por Marta Soares.

Bem familiarizada com os estudos sobre Amadeo, Catarina Alfaro acrescenta que falta conhecer em detalhe as exposições que o pintor realizou em vários países, desde logo a Alemanha, sobre as quais há lacunas documentais, e adianta que estão por localizar obras mencionados em catálogos quando o artista era vivo. Um século depois da morte, o pintor de Manhufe ainda é um puzzle com peças por juntar.

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