Reportagem em atualização ao longo do dia

Depois de um primeiro banho de multidão no domingo em Barcelos, o porta-voz do PAN, André Silva, tomou o gosto às interações na rua e passou a manhã no centro de Vila Nova de Gaia a distribuir panfletos, abraços e beijinhos — e a responder às muitas questões que lhe foram colocadas por quem passava, desde o aeroporto do Montijo ao IVA dos alimentos para animais. Mas foi contra o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) que André Silva desferiu o ataque mais duro da campanha do PAN até agora.

Reagindo às declarações de Eduardo Oliveira e Sousa publicadas esta segunda-feira no jornal i — dizendo que não é “periquito nem tubo de ensaio” para comer carne de vaca e que quem se opõe ao consumo de carne são “pessoas que nascem, vivem, trabalham e se divertem em ambiente urbano” ligadas ao “mundo da noite e da droga” —, André Silva criticou o presidente da CAP considerando-o alguém que ficou no passado.

“Nós já estamos habituados a essas declarações absolutamente desadequadas e inadequadas de pessoas como o presidente da CAP, que vive num outro tempo, que tem claramente uma perspetiva negacionista, que não acompanha aquilo que são as evidências científicas em matéria de alterações climáticas e em matérias de saúde pública, e lamento que uma pessoa que supostamente deveria ocupar um cargo tão importante, que representa o setor agrícola e agropecuário, continue a manchar aquele que é um setor e um pilar importante da economia do nosso país”, afirmou André Silva.

O porta-voz do PAN, que ainda no domingo, em Paredes de Coura, tinha alertado para a necessidade de dialogar com os agricultores no sentido de promover a produção local, lamenta ainda que esta postura do presidente da CAP dificulte o diálogo. “Enquanto o setor agropecuário tiver como representantes pessoas que ainda não chegaram ao século XXI, que têm uma perspetiva negacionista, que negam todas as evidências da ciência relativamente ao combate às alterações climáticas e à saúde pública, será de facto mais complicado, o diálogo será mais dificultado”, assegurou.

A norte para dizer “Montijo jamais

Interpelado a meio do percurso por um homem que se aproximou das bandeiras do partido, André Silva ouviu uma preocupação que não esperava encontrar na região do Porto: o aeroporto do Montijo. Mas aproveitou a pergunta — afinal, a iniciativa de campanha chamava-se “Pergunta-me o que quiseres” — para desenvolver o pensamento do partido sobre o assunto e para ser claro: nas condições atuais, sem Avaliação Ambiental Estratégica, o PAN não vai viabilizar o aeroporto.

“A existir um novo aeroporto, ele deve ser pensado e construído para as próximas décadas, não para os próximos 10, 15 anos. Depois, devem ser feitos estudos ambientais a sério, que cumpram a lei, ao contrário do que o Governo do PS está a fazer. Isto é, aquilo que nós defendemos é que seja feita uma Avaliação Ambiental Estratégica, que é uma instrumento legal, para apurar e aferir os impactos profundos que o aeroporto do Montijo vai ter nas aves, no tráfego rodoviário e na saúde das pessoas”, respondeu André Silva.

— Hipoteticamente, se o PS precisar dos votos na Assembleia do PAN, o que é que acontece nesse dossiê?

A pergunta daquele homem na rua acabou por deixar André Silva mais atrapalhado do que a maioria das questões feitas pelos jornalistas nos últimos dias. A possibilidade de o PAN integrar uma futura maioria parlamentar que apoie um governo minoritário do PS não tem sido descartada por André Silva, mas o porta-voz do partido assegurou que nunca passará “um cheque em branco” nem viabilizará a construção do aeroporto do Montijo nas condições atuais.

“Não cumpre, neste momento, as regras de proteção ambiental. A construção do aeroporto do Montijo coloca em causa o habitat do estuário natural do rio Tejo, coloca em causa cerca de 3 milhões de aves que lá habitam ou que passam. Não sabemos qual é que é o impacto rodoviário nas duas pontes sobre o Tejo e não sabemos quais são as reais consequências sobre a própria população do Montijo. O estudo tem deficiências graves no que toca, por exemplo, relativamente à cota da própria pista, especialmente na parte mais a sul, relativamente ao fenómeno da subida do nível das águas do mar. Estamos a falar de um projeto que foi mal estudado, estamos absolutamente contra e nunca viabilizaremos a construção de um aeroporto como aquele”, assegurou.

— Portanto, se depender do PAN, Montijo jamais — insistiu o homem.

— Montijo jamais. Exatamente. Concordo. Olhe, e não quer levar um panfleto para dar aos amigos?

“Nós não fazemos parte da geringonça”

André Silva não teve tempo de dar meia dúzia de passos antes de ser novamente abordado, desta vez por uma mulher indignada com a geringonça. Vendo o grupo de apoiantes do PAN a descer a Avenida da República, em Vila Nova de Gaia, a mulher aproximou-se e expôs a André Silva os seus problemas.

— Então vamos lá ver. Mas é para trabalhar ou é para fazer a mesma… a geringonça que está. Se for para fazer a mesma geringonça que está, é melhor deixar estar, porque isto já está tudo mal, começando por Tancos, acabando nas barracas, e acabando em quem ganhou 50 anos a trabalhar a ganhar 300 euros. Queria ver se algum daqueles da Assembleia que está lá, se com os anos que eu trabalhei, com 300 euros, o que é que eles fazem. Então agora responda-me lá.

— A geringonça é feita e foi combinada entre os partidos de esquerda. Nós não fazemos parte da geringonça. Nós temos um deputado e durante quatro anos fizemos por cumprir aquilo que prometemos aos portugueses, que foi trabalhar. Aproveitámos todos os momentos para fazer aprovar determinadas medidas para fazer avançar o país. Em algumas propostas, nós somos pequeninos, somos só um…

André Silva, aliás, não poupou esforços para se distanciar de António Costa e do PS perante o descontentamento com o Governo. “Uma pessoa que trabalha 50 anos ganhar 300 euros e os gajos estão lá todos na Assembleia sem fazer nada, só para lá a palavrear todos”, ouviu o porta-voz do PAN da boca da mesma idosa. “Não são todos os gajos”, respondeu.

— Todos, tooooodos. Começa o António Costa, lá naquela geringonça.

— Mas o António Costa não é do nosso partido.

Acompanhado pela cabeça-de-lista do PAN pelo Porto, Bebiana Cunha, André Silva repetiu que “é preciso levar a Bebiana” para o Parlamento e criticou os outros partidos por não colocarem candidatos naturais de cada distrito nos respetivos círculos. “Nós temos candidatos do Porto no Porto”, disse, explicando que há partidos “que têm candidatos de Lisboa” noutros círculos. “Queremos ter um representante do Norte do país”, insistiu. Nas previsões mais conservadoras no interior da caravana do PAN, o resultado mínimo expectável tem sido precisamente a eleição de dois deputados — André Silva por Lisboa e Bebiana Cunha pelo Porto.

Em Santa Catarina a jogar o jogo dos grandes — e a pedir mais meios para PJ

Depois de percorrer algumas ruas de Vila Nova de Gaia e do Porto a distribuir panfletos, André Silva visitou a diretoria do Norte da Polícia Judiciária, numa ação de campanha que acabou por ter de acontecer sem a presença da comunicação social, e seguiu para a rua de Santa Catarina, histórica artéria do centro do Porto onde quase todos os partidos grandes marcam presença durante a campanha eleitoral — PS já lá esteve, CDU e PSD ainda por lá vão passar.

Ali, aproveitou para explicar o que tinha feito minutos antes na sede da Polícia Judiciária e insistiu na necessidade de dotar aquela força de mais meios de investigação, sobretudo em crimes de maior complexidade, como a corrupção. “Fomos confirmar aquilo que temos vindo a dizer, que há falta de meios na investigação do crime em Portugal, nomeadamente dos crimes mais complexos, crimes de cariz económico, de combate à corrupção. Os peritos informáticos deveriam ser o dobro, deveriam existir mais 50 inspetores do que os que existem, durante os últimos cinco anos não entrou nenhum inspetor, não houve nenhum concurso, saíram centenas deles. A média de idade dos inspetores é acima dos 50 anos, para além da falta de outros meios, nomeadamente o parque automóvel, que é obsoleto, está bastante antigo, com muita quilometragem”, denunciou André Silva.

O porta-voz do PAN aproveitou ainda para manifestar otimismo relativamente à possibilidade de reforço da representação parlamentar do partido, mostrando-se confiante na eleição de Bebiana Cunha, a cabeça-de-lista pelo distrito do Porto. “Não temos dúvidas de que vamos reforçar a nossa posição, que as portuguesas e os portugueses reconhecem cada vez mais o trabalho do PAN, e que a Bebiana pelo menos vai ser eleita no distrito do Porto e que vamos alargar a nossa representação parlamentar. A sondagem da rua diz-nos isso mesmo: estamos bastante confiantes de que isso irá acontecer, mas até ao final da campanha iremos continuar a explicar às pessoas a importância de votar no PAN, de reforçar a nossa posição para fazermos avançar as nossas causas, para fazer avançar tudo aquilo que entretanto foi chumbado. Isso é fundamental.”