Numa emissão especial a partir do Pavilhão Paz e Amizade em Loures, onde decorre o Congresso do PCP, o convidado foi o anfitrião Bernardino Soares. Assumiu a ambição do partido em conquistar mais câmaras nas próximas autárquicas, em particular “aquelas que perdeu para o PS”. Quando encurralado com duas escolhas, o antigo líder parlamentar do PCP disse que preferia viver na Venezuela do que num Portugal governado pelo PSD e o Chega.

[Ouça aqui a emissão especial da Vichyssoise gravada a partir do Pavilhão Paz e Amizade, em Loures]

Fomos ao Congresso do PCP e falámos com o anfitrião

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Consegue garantir que quem está nestes espaço do Congresso estão em segurança e não o preocupa que algumas não esteja. como presidente da Câmara de Loures?
A organização do congresso é a DGS decidiram as medidas adequadas e penso que se estão a cumprir, do que tenho observado, todo o congresso é organizado no sentido de não haver grande contacto com a comunidade envolvente e portanto julgo que estão asseguradas todas as condições sanitárias para a organização desta como de outras iniciativas. Acho aliás extraordinário que seja dada tanta atenção ao congresso do PCP quando — e bem — muitas outras, até com mais pessoas, se têm realizado nos últimos dias.

Como por exemplo?
Na semana passada houve um encontro de 1200 promotores culturais no campo Pequeno e muito bem, com boas razões para estarem juntos. E tem havido espetáculos e uma série de iniciativas. E depois não há só uma questão legal, mas dos princípios de defesa das liberdades democráticas que não podem ser postergados. Podemos dizer que não é possível conciliar a defesa sanitária com o exercício de liberdade democráticas. Temos é de fazer um esforço por essa conciliação e não ir por uma linha autoritária de proibicionismo da liberdade partidária como quer Rui Rio.

Adiar o Congresso coartava os direitos políticos para uma altura mais segura?
Sem dúvida, porque isso não sabemos quando vai ser. Para a sua realização tiveram de ser tomadas medidas drásticas, desde logo a redução a metade do número de delegados a não existência de público ou de convidados internacionais e um conjunto de regras de funcionamento em exceção e o PCP já provou, como na Festa do Avante, que é possível fazê-lo. E é um exemplo que também se dá para a sociedade portuguesa que a vida tem de continuar. Não desvalorizando as regras sanitárias, mas garantindo que é possível compatibilizá-las com uma certa normalidade na vida política, na cultura e noutras áreas.

São exageradas as medidas de recolher obrigatório que o Governo decretou para estes concelhos com risco elevado de contágio, como Loures?
Penso que seria possível atingir os mesmo objetivos sem tanto prejuízo para a atividade económica e para a deslocação das pessoas. Estamos a cumprir com todo o empenho e também a criar mecanismos de apoio por exemplo à restauração para aliviar ao impacto que estas medidas têm. E é isso que vamos continuar a fazer nos próximos tempos: minorar impactos económicos e sociais, combater a pandemia e prosseguir a vida.

Como se explica quem está em casa este fim de semana obrigada ao recolher obrigatório que ao mesmo tempo aqui a o lado estão reunidos mais de 600 delegados do PCP? As pessoas conseguem compreender isso?
Acho que sim, muitas compreenderão que se trata do exercício da liberdade democrático que é um valor muito importante que tem de ser preservado. A organização de um congresso não é responsável pelas medidas tomadas de limitação da circulação, mas pelas medidas que teve de tomar para a realização em segurança do congresso.

O PCP vai descendo nas sondagens ao s longo dos últimos tempos, nos Açores desapareceu e não entrou no Parlamento regional. O número de militantes está a cair, há ou não risco do PCP desaparecer?
Não, penso que não há esse risco. Os últimos cem anos têm demonstrado que temos sido capazes de encontrar forças no coletivo partidário e grande segredo da longevidade deste partido com a influência que tem na vida política nacional que, é verdade, nem sempre se traduz da melhor forma nos resultados eleitorais, é a ligação muito profunda ao povo português e aos trabalhadores. E essa ligação muito próxima, esse estar junto do povo é que nos dá a garantia que estaremos por cá por muitos e muitos anos para intervir.

Ainda hoje Jerónimo de Sousa deu conta de uma ação ambiciosa de 5 mil contactos de que resultaram 1350 novos militantes. As entradas não vão compensado as saídas quais são os objetivos para o PCP neste campo?
Houve uma diminuição do número de militantes, mas isso não significa que tenham saído. Não há nenhum partido que mostre com tanta transparência a sua situação interna de militância e estamos a falar depois de um processo que fizemos há uns congressos de militância real. Houve um momento em que fizemos um contacto com todos os inscritos no partido para confirmar se queriam continuar a ser militantes do partido ou se não queria e isso levou a que tivéssemos a partir daí um registo fidedigno do número de militantes.

O partido tem hoje mais força do que tinha há 4 anos?
Continua a ter uma grande influência política e social. A influência do partido não se mede só ao nível da Assembleia da República ou nas decisões que o Governo toma.

Não recuperar mais câmaras será um desastre eleitoral nas próximas autárquicas?
Certamente teremos o objetivo de aumentar as presidências de câmara nas próximas autárquicas.

Algumas específicas?
Todas as que perdemos nas últimas eleições.

E manter Loures?
Espero que sim!

Já disse que ia recandidatar-se. Perder ou manter câmaras seria uma derrota e daí poderia retirar-se alguma ilação?
Não, o Congresso define aliás esses objetivos no capítulo dedicado ás batalhas eleitorais, o nosso objetivo é aumentar o número de câmaras e de eleitos. E isso que vamos trabalhar e temos boas condições para o fazer.

Jerónimo de Sousa vai ser secretário geral dos próximos quatro anos? Vai sair deste congresso nessa condição?
Isso vamos ver porque essa decisão será tomada na reunião do Comité Central que decorrerá a seguir à sua eleição.

O próximo secretário-geral a ser eleito ficará quatro anos, é isso?
Ele é eleito enquanto o Comité Central entender que ele deve ficar em funções.

Admite a possibilidade de Jerónimo de Sousa não ficar até ao próximo Congresso?
Isso é uma especulação e não contribuo em nada para isso.

Há vários septuagenários que saíram do Comité Central e o secretário-geral também está nessa faixa etária. Vai ficará mais 4 anos? Tem força para isso?
Tem para isso e para muito mais e disso não tenho dúvidas e acho curioso que estejamos acusados de ter uma estrutura envelhecida e depois quando fazemos uma renovação em que há camaradas de mais idade que continuarão a dar contributo ao partido seja esse o tema de conversa.

Arménio Carlos é do Comité Central mas não faz parte da lista que vai a votos neste congresso. Isabel Camarinha também não. É normal que aconteça assim e porquê?
Eu acho que todos devem convencer-se que a CGTP tem o sue funcionamento e as suas estruturas democraticamente eleitas e é aí que se determinam as eleições dos seus órgãos dirigentes. É uma central sindical que foi formada e mantém-se como convergência de vários movimentos de várias proveniências políticas na área da defesa dos direitos dos trabalhadores.

Mas o PCP tem uma influência na organização.
Tem a influência que os trabalhadores lhe dão. É que se numa empresa ao delegado sindical eleito é militante do PCP, isso é positivo. É normal que se o PCP tem prioridade na defesa dos direitos dos trabalhadores, muitos dos seus militantes se destaquem no movimento sindical e assumam tarefas de responsabilidade. Mas a diversidade e pluralidade da CGTP continua a ser uma das suas grandes mais valias.

A figura do secretário-geral-adjunto era útil numa situação como esta e é desejável para preparar a sucessão de Jerónimo de Sousa?
São possíveis todas as soluções e o Comité Central tomará a melhor decisão para continuarmos a ter uma forte liderança nos próximos anos e que terá condições para, até ao próximo congresso, fazer todo o trabalho que temos de fazer.

Em 2017, quando enfrentou André Ventura percebeu logo que ele acabaria por se tornar na figura que é hoje e formar um partido diferente?
A campanha de André Ventura neste concelho foi assente em traços populistas que se continuam a verificar no seu discurso, em relação às leis penais e outras. Mas também devo dizer que ele esteve um ano como vereador na Câmara e a sua presença foi mais ou menos irrelevante. E isso também é uma boa demonstração por pessoas que se deixam encantar por um certo discurso populista que parece dizer verdades que afinal não têm grande consistência. Não fez nenhuma proposta relevante, discutia algumas questões jurídicas porque é um jurista com experiência, até formais, e de três em três reuniões falava nas rendas dos bairros sociais.

Faltava muito?
Não é isso que eu estou a dizer, mas a sua participação não acrescentou nada ao funcionamento do município. As pessoas que nele votaram não tiveram depois na sua intervenção uma ação consequente, para além de se ter ido embora ao fim de um ano. Quando uma pessoas se candidata com ambição de ser presidente da câmara e depois não têm nenhuma proposta com algum tipo de consistência a não ser mais umas tiradas populistas ou demagógicas numas reuniões de câmara, isso mostra bem como o populismo de extrema direita não é solução para nenhum problema nem em Loures, nem no país.

Na hora H André Ventura modera-se?
Uma coisa é dizer o que as pessoas querem ouvir quando estão zangadas com muitas coisas com as quais têm razões para estarem zangadas, outra coisa é isso significar a capacidade de resolver os problemas das pessoas. E essa André Ventura não mostrou nenhuma.

Considera-o uma figura perigosa?
Acho que é sempre perigoso sobretudo quando temos os partidos da direita tradicional a aceitarem o partido de André Ventura como um parceiro normal e isso é que é uma alteração importante na vida democrática nacional. O PSD e o CDS têm ambição de voltar ao poder, isso é normal, o que já não é  muito normal é que para isso estejam dispostos para normalizar a extrema direita anti democrática com que se estão a juntar nas últimas semana.

O PCP absteve-se no Orçamento e ajudou à viabilização. Acaba sozinho na solução que apoia o Governo. Esta confortável nesse papel em que até o BE preferiu ficar de fora?
É a opção do BE. O PCP fez o que sempre afirmou nestes últimos anos de nova fase de vida política nacional: procurar o mais possível fazer valer soluções positivas para o país e avaliar em cada momento se o nível das soluções conseguido era suficiente para viabilizar o Orçamento ou aprovar alguma outra legislação. Neste momento foi esta a avaliação que foi feita, em que apesar de um enorme distanciamento em relação a questões estruturais, se considerou que há conquistas muitíssimo importantes: os trabalhadores que vão ter o layoff pago a 100% vão dar por isso, os reformados com aumento logo em janeiro, os desempregados som subsídio de desemprego prolongado.

Fica confortável com o eleitorado a olhar para ao partido sozinho a dar a mão ao PS?
Mas não estamos a dar a mão ao PS, a crítica às posições do PS é bastante acentuada. Agora, temos de ser capazes de olhar para as coisas como elas são, a vida política não pode ser só táctica.  Tem de ser também princípios e afirmações estruturais. E se decidimos que é possível fazer uma negociação até onde pudermos ir e se entendemos que, apesar de ser amplamente insuficientes as opções do governo PS, há ganhos que nesta fase justificam a viabilização. então vamos fazê-los, independentemente do cálculo político que possa significar quem fica de fora a criticar ou dentro a viabilizar. Vamos continuar a criticar o PS sempre que ele se junte à direita, que aliás agora já não é os o PSD. Cada vez que o PS se juntar ao PSD tem de ter consciência que esta a juntar se a um partido que abriu as portas à extrema direita.

O PCP também se juntou ao PSD para evitar uma transferência para o Novo Banco e quase repetiu o PEC IV…
Há uma cosia que tem de ser clarificada. É que antes do PEC IV tinha havido um I, um II e um III todos viabilizados pelo PSD. E antes desta votação tinha havido várias transferências para o Novo Banco todas viabilizadas pelo PSD e apoios ao BPN, e uma série de decisões em relação ao sistema bancário que foram sempre viabilizadas pelo PSD. O que aconteceu não foi que o PCP tivesse mudado de posição, foi que o PSD, de forma oportunista quis mudar de posição. Acho muito bem que a proposta tenha sido aprovada, mas mal seria que agora quem esteve sempre nesta posição de não transferência para o Novo Banco e até defendeu a sua nacionalização esteja agora a ser acusado de estar ao lado de quem nunca esteve e que, agora por razões táticas resolva dar o pulo para o outro lado. Quem pulou a cerca foi o PSD e não o PCP.

Vamos agora para a parte do Carne ou Peixe — nesta emissão especial czar ou coroa — em que tem de escolher entre duas opções…

Preferia votar a favor e por unanimidade o secretário-geral adjunto João Oliveira ou no secretário geral adjunto João Ferreira?
Votaria com tranquilidade em qualquer secretário geral que reunisse condições para liderar o PCP.

Preferia viver num país governado pelo PSD e pelo Chega ou na Venezuela?
Na Venezuela.

Se só pudesse escolher um preferia estar no Congresso ou no Avante?
Esse dois não são alvo de escolha, são duas faces da mesma moeda. Mas ia ao congresso.