i

A tradicional arruada do Porto é mais um desfile da força partidária local do que propriamente um momento de contacto com a população

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

A tradicional arruada do Porto é mais um desfile da força partidária local do que propriamente um momento de contacto com a população

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Bloco de notas da reportagem no PS. Dia 11. No Porto a fintar a "geringonça" na rua e na Europa /premium

Em Santa Catarina, PS atrasou a arruada uma hora para evitar atropelos com PCP, parceiro no Parlamento que não é tão parceiro assim na Europa. "Geringonça" desacerta passo e PS pede eleição do 9º.

Junto ao número 380 da Rua de Santa Catarina estava a carrinha da CDU a desmontar o sistema de som no sítio onde João Ferreira tinha acabado de falar aos comunistas. Lá em cima já vinha Pedro Marques, com o PS atrás, para a tradicional arruada do Porto. Não se cruzaram porque o PS acabou por adiar em uma hora a descida da rua da baixa portuense. Um descompasso na “geringonça” e que esta campanha veio expor a outro nível, bem além de uns metros de rua.

“Onde estão PCP e BE na Europa?”. A pergunta de Pedro Marques repete-se nestes últimos dias. E é acompanhada de outros altos dirigentes do partido, sobretudo António Costa. No topo do partido garante-se que isto não acontece por outra razão que não a de clarificar a posição do PS quando o Bloco de Esquerda coloca tantas dúvidas, nomeadamente sobre a frente progressista que António Costa defende, ao lado de Emmanuel Macron, para combater os extremismos na União. A verdade é que essas dúvidas não se colocam apenas entre os parceiros mais à esquerda, dentro do PS também há quem não saiba o que pretende o líder com esta proposta de aliança com liberais, na Europa, para combater o populismo. “No que é que isso se vai traduzir?”, questiona um dirigente do partido em conversa como Observador.

Na caravana socialista que anda pelo país, os detalhes são poucos sobre como se pode materializar esta frente. Pedro Marques diz que “é uma coligação de europeístas contra a extrema direita, os nacionalismos, contra a Europa dos cortes e das sanções”. A ideia da frente começou como forma de combater os populismos e já vem numa forma de combater a atual política europeia que o PS associa ao PPE.

E o que quer saber o candidato dos parceiros do PS nestes três anos na governação do país é se “estão dentro ou fora da Europa”. E porque aparece agora esta provocação à esquerda, se foi coisa que o PS sempre soube e assumiu que não havia entendimento possível? “Estamos a disputar Europeias, é legitimo que os portugueses compreendam se esses partidos estão dentro da Europa, entre os europeístas ou com um pé fora da Europa ou com dois pés a caminho da saída da Europa como é o caso do PCP”.

O mais positivo neste penúltimo dia de campanha foi a demonstração de força da máquina do partido no Porto, na tradicional arruada de Santa Catarina. Não é um momento por aí além para o contacto com eleitores. Para quem está de fora é mais um rolo compressor que leva tudo à frente e em que mal se vê o candidato, quanto mais falar com ele. Mas se corre mal, se não mobiliza o partido, é coisa para definir uma campanha. No caso do PS, Santa Catarina cumpriu na demonstração de poderio local e serviu a Pedro Marques para garantir que segue para os votos com “uma confiança enorme”. E sem o dizer diretamente, colocar como fasquia a eleição de Manuel Pizarro, que é o número nove na lista do PS (que nas últimas Europeias conseguiu oito eurodeputados). “Estamos na luta para que o Manuel seja um de nós em Bruxelas”, disse o candidato.

O ponto baixo deste dia foi uma viagem no metro do Porto. Quatro paragens, entre Vila Nova de Gaia (freguesia de Mafamude) e a Trindade, para as as tv’s verem. O candidato foi encostado ao vidro, acompanhado de uma comitiva de autarcas socialistas locais, não falou com ninguém. E pouco mais serviu do que para, no fim, poder registar aos jornalistas que, depois da redução do preço dos passes, os pedidos de novos andante aumentarem em 22%.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

António Silva é o “cabeçudo” do dia. Sem metáforas e sem segundas intenções. A descida de Santa Catarina do Partido Socialista contou com um conjunto de bombos, liderado por dois cabeçudos (também conhecidos por “Zé Pereiras”) que iam abrindo caminho pela apertada rua portuense. Ao Observador, António Silva (o homem dentro de um dos cabeçudos)  confessa que esta não é a principal função no grupo, mas acabou por ter que largar o bombo — que tradicionalmente toca –, para vestir o fato e fazer outro papel na animação da tarde desta quinta-feira.

O “chefe da banda” diz que costuma participar em todos os atos eleitorais, embora este crie um maior distanciamento face aos candidatos e às propostas. “Nas autárquicas e nas legislativas nós sabemos em quem vamos votar, aqui quase não conhecemos os candidatos”, admite António Silva que vai à frente da arruada socialista. Mas nada disso o desmotiva de ir às urnas.

Para António Silva este é “mais um dia de trabalho”, “cansativo, mas que se faz bem”, isto quando o calor não aperta e dificulta a tarefa de levar um fato “muito abafado” que torna o papel mais difícil de aguentar. O grupo quem vem de Penafiel — e que participou também na arruada da manhã – costuma ser chamado para várias iniciativas na rua, uma forma de ir agitando as massas e tirar a timidez a quem participa neste tipo de iniciativas.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Para entrar na bolha que vai à frente destas arruadas maiores, quem quer cumprimentar o candidato tem de furar a muralha de pessoas que o rodeiam. Pedro Marques segue e só cumprimenta mesmo quem se atreve a atravessar até ao núcleo da arruada.

Trinta e um quilómetros feitos durante o dia. Foi a distância mais curta num dia da caravana socialista. Pedro Marques ainda havia de seguir, depois do jantar-comício da noite, para Lisboa, completando neste dia 7.198 quilómetros de estrada (e pelo ar, já que nas nossas contas entra a deslocação aos Açores e Madeira).

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.