Maria da Paz Brito espera sem saber bem o quê. Está sentada no piso -1 do Instituto de Registos e Notariado (IRN), na Avenida Fontes Pereira de Melo, sem a senha de que precisa, mas tem um problema urgente para resolver. “Preciso de acompanhar o meu pai numa viagem, por causa de um problema de saúde”, conta, aflita. Perdeu o Cartão do Cidadão e também não tem um passaporte válido. A viagem é já no domingo — dois dias depois desta sexta-feira, em que a encontrámos na sala de espera. Quando chegou, às 9h40, já não havia senhas para o cartão de identificação. Tirou senha para o passaporte (para ver no que dava), mas, ao fim de um par de horas de espera, descobriu que só podia tratar daquele documento se tivesse consigo um Cartão de Cidadão válido. O problema acabaria por resolver-se, contou, mais tarde, ao Observador: a ajuda da coordenadora do serviço e uma máquina que voltou temporariamente a dar senhas permitiram que, ao fim de cerca de três horas e meia, Maria da Paz Brito, de 31 anos, saísse daquele balcão com a garantia de que, durante a tarde, podia levantar um Cartão do Cidadão temporário no Campus da Justiça.

Será, ainda assim, um caso raro. Quem passa na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, antes das oito ou nove da manhã, já está habituado a ver a longa fila que dobra a esquina do edifício onde se encontra o IRN. Assim que as portas abrem, às 9 horas, começa a corrida às senhas, que se esgotam em menos de um fósforo. A interrupção na distribuição de senhas é decidida pelo próprio serviço — assim como o momento em que voltam a distribuí-las. Manuela (nome fictício) chegou às 9h30 e ainda conseguiu senha, mas não hesita em criticar o que vê, nem se inibe de o fazer em voz alta. “Entre as 9h30 e as 10 horas, vai tudo [os funcionários] tomar o café. Só atenderam duas pessoas”, diz, lembrando que trabalhou na Administração Pública e sabe bem como é que as coisas funcionam. “Andou mais rápido nestes 30 minutos [por voltas das 11h30] do que na manhã inteira.”

Nos serviços do Campus da Justiça e da Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, encontrámos utentes à espera há várias horas. As senhas tinham acabado pouco depois da abertura das portas.

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