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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Coletes à prova de bala e dormir perto do candidato: como agem os homens que protegem Ventura /premium

Grande compleição física, corte militar, coletes à prova de bala, Ventura tem três sombras que nunca o largam. Perante as ameaças de morte, tudo é preparado ao milímetro, da chegada à partida.

Um quarto, dois quartos, três quartos. Os seguranças pessoais de André Ventura nunca largam o candidato. Nem a dormir. Em cada hotel em que fica o líder do Chega são sempre reservados três quartos: um ao centro, onde dorme Ventura, e outros dois, à esquerda e à direita, onde ficam os seguranças que acompanham o candidato. Uma tática protocolar usada para proteger personalidades políticas como Marcelo Rebelo de Sousa e outros líderes mundiais. Apesar de não ter a relevância ou um nível de risco associado a um Presidente da República ou Chefe de Estado, Ventura é tratado como se fosse um deles.

Até ao momento não houve uma única situação concreta de ameaça à integridade física do líder do Chega. Mas o nível de alerta é elevadíssimo. Os mais próximos de Ventura justificam o número de seguranças destacados — são sempre três, mas há mais à paisana a acompanhar de perto os movimentos de Ventura — e o aparente excesso de zelo com as tentativas de infiltração de movimentos anti-Ventura em ações do partido e com as ameaças de morte dirigidas contra o líder do Chega. Elas chegam pelas redes sociais, sobretudo, mas não só. E têm-se intensificado nas últimas semanas.

Em praticamente todos os dias de campanha, têm existido manifestações anti-Ventura nos locais onde decorrem as ações. Na sua larga maioria, são geralmente jovens com meia dúzia de cartazes. Mas a ameaça — visível e invisível — condiciona. Sobretudo depois do que aconteceu no domingo, primeiro dia oficial de campanha, no cineteatro de Serpa.

Naquilo que constituiu uma evidente falha de segurança, alguém conseguiu fazer abrir as cortinas e mostrar um esqueleto no preciso momento em que André Ventura discursava. Quem quisesse atentar contra a vida do candidato — e, aparentemente, há quem faça saber que o quer fazer — teria conseguido.

[Veja o vídeo, onde se consegue perceber a atuação dos seguranças privados de André Ventura]

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Proteger o flanco

Na segunda-feira, um dia depois do sucedido em  Serpa, o tema dominava todas as conversas entre apoiantes do Chega. Bastava estar atento. Na Docapesca de Portimão, enquanto esperavam que o candidato saísse da reunião com os responsáveis, apesar de uma ou outra graçola (“[o esqueleto] parecia o Jerónimo”), a tensão era evidente.

Quando uma das apoiantes se dirigiu a Rui Paulo Sousa, diretor da campanha e mandatário nacional, a perguntar pela caravana até Faro, o responsável cortou a eito: “Não se faz caravanas. Seguimos direto para Faro, sem paragens. Por razões de segurança”. O ar de desilusão foi notório, tal como o esgar de preocupação. Consternada, a apoiante comunicou o que acabara de ouvir ao restante grupo. Assentiram sem dizer mais.

O dia de campanha tinha começado com a manifestação de um grupo de cerca de 20 homens de etnia cigana que seguravam cartazes onde se lia “André Ventura fascista, André Ventura racista”. À distância, elementos da Polícia Marítima observavam a cena, enquanto andavam para trás e para a frente agarrados ao walkie-talkie. Primeiro, dois agentes. Depois, mais dois. Finalmente sete e três carros de apoio, num aparato aparentemente desproporcional face ao número de pessoas presentes e ao baixo risco da iniciativa. Ao Observador, um dos elementos da Polícia Marítima confessava com ar grave: “É por prevenção.”

André Ventura tem sido recebido com protestos um pouco por todo o país.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O candidato tardava em chegar. Os manifestantes aguardavam para lá das redes que delimitavam o recinto, a umas largas centenas de metros do local onde se encontravam apoiantes de André Ventura e a comunicação social. Uma rápida caminhada até junto dos manifestantes permitiu descortinar um elemento estranho à cena: num campo aberto, mal camuflado entre uma fileira de carros estacionados, uma carrinha cinzenta parecia estranhamente nova e estranhamente limpa para ser um cliente habitual daquelas paragens de terra batida. No interior do carro, estava um segurança de André Ventura, à paisana, que observava fixamente e não muito discretamente os manifestantes. Estava a comunicar com a equipa que transportava o líder do Chega.

Às 14h42, três Mercedes pretos fizeram-se anunciar a grande velocidade, dispostos em ‘L’: um carro à frente, um atrás e outro a tapar o flanco direito do segundo carro, cobrindo o lugar onde seguia André Ventura. Atrás deles, a carrinha cinzenta arrancou para se juntar à equipa, denunciando formalmente a sua presença.

Chegada da comitiva de André Ventura à DocaPesca de Portimão. Ventura chega no carro mais à direita, a manifestação estava à esquerda da imagem.

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À prova de bala

Esta iniciativa em Portimão contava com cerca de 50 pessoas, entre apoiantes e jornalistas. Num terreno amplo e a céu aberto, sem edifícios à volta, o risco era praticamente nulo. Não havia forma de tentar uma aproximação sem ser notado. Pouco importou. A equipa de segurança do líder e candidato do Chega esteve sempre em alerta máximo.

São três as sombras permanentes de Ventura. Pertencem à empresa de segurança privada LB, que já está com Ventura pelo menos desde a convenção do partido em Évora, em setembro de 2020. Mas há mais seguranças destacados que se juntam ao candidato mediante o nível de risco associado a cada iniciativa de campanha. O Observador tentou saber o número efetivo de elementos mas não foi revelado pela campanha de Ventura, alegando razões de segurança.

Os três que acompanham Ventura em permanência fazem-se notar. Pela compleição física e pelo corte de cabelo militar, mas também pelo facto de usarem colete anti-bala em quase todas as ações. Numa das raras vezes em que um dos seguranças se permitiu trocar mais do que uma palavra com o Observador, limitou-se a justificar o uso de coletes como sendo uma “questão de protocolo”.

Enquanto uns dos seguranças não tiram os olhos da sala onde o candidato discursa, outro não tira os olhos de André Ventura.

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Em espaços fechados, onde tem sido a maioria dos comícios de André Ventura, há sempre um segurança perto do palco e outro perto da entrada. Em Portalegre, no Grande Auditório do CAEP, na Praça da República, com poucas dezenas de apoiantes, o sobretudo de um dos seguranças mal escondia o volumoso colete anti-bala. O pescoço parecia um radar, sempre a perscrutar com grande intensidade todo o espaço, mesmo que o único a mexer a músculo naquela sala fosse, por essa altura, André Ventura. O segurança suava em bica.

Um passo à frente

Na caravana do Chega comenta-se a larga experiência que os três homens destacados para proteger André Ventura têm. Terão prestado serviços de segurança a outras destacadas figuras, incluindo a atletas desportivos de alto rendimento. Raramente baixam a guarda.

Na quinta-feira, quando a comitiva de Ventura deixou Castelo Branco em direção à Guarda, o Observador acompanhou à distância uma dessas operações. O carro do líder do Chega é sempre conduzido por Luc Mombito, amigo de longa data de Ventura. Nele seguem, além de Ventura, o chefe de segurança e, mais recentemente, a mulher do candidato, Dina Nunes, que se juntou à campanha nos últimos dias. Esse carro é sempre protegido por um outro Mercedes preto onde seguem os restantes seguranças e um condutor que é também parte ativa da equipa de proteção de Ventura. Na retaguarda, uma carrinha preta Mercedes de nove lugares, onde segue o restante staff, compõe a comitiva.

Ventura viaja sempre atrás do banco do pendura e nesse lugar está sentado o chefe de equipa da sua segurança pessoal.

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Enquanto seguiam na A23, dentro dos limites de velocidade, facto pouco comum em campanhas eleitorais, um dos carros disparou a toda a velocidade e afastou-se da caravana. Objetivo: inspecionar, tal como o Observador pôde comprovar, a estação de serviço de Castelo Branco, onde minutos mais tarde chegaria Ventura e restantes elementos do núcleo restrito. A área estava limpa.

O sentido de missão é muitas vezes levado ao extremo. No sábado, em Bragança, André Ventura visitou a Oficina da Castanha, um café-mercearia que abriu exclusivamente para receber o candidato e a comunicação social. Espaço simpático, ainda que exíguo, ocupado por três apoiantes do líder do Chega, o relações públicas do sítio, jornalistas e repórteres de imagem, que esperavam há largos minutos a chegada de Ventura. Pois não: antes de o candidato sair do carro, um dos seguranças entrou à frente, verificou se estava tudo bem nas casas de banho, testou a porta da frente, visitou a cave e só depois fez sinal de que o caminho estava livre.

Estudar o terreno

A preocupação em estudar o local onde decorrem as ações de campanha é uma constante. Em Castelo Branco, o discurso de Ventura decorreu num jardim ao ar livre e o único vislumbre de ameaça era um grupo de menos de 20 adolescentes com cartazes anti-Ventura à distância de um campo de futebol. Mas o staff do candidato estava preocupado em evitar que o líder do Chega ficasse no centro do jardim — logo, mais exposto — e queria ter pelo menos uma saída perfeitamente desimpedida.

A preocupação era tal que os assessores de imprensa chegaram ao ponto de propor aos repórteres de imagem que filmassem o candidato em contra-luz, um erro absoluto em termos de comunicação de imagem. Mas a prioridade era outra: deixar Ventura mais próximo da estrada e menos desprotegido face a qualquer eventual ameaça. A muito custo, acabaram por ceder.

No fim dos comícios é habitual os apoiantes quererem tirar selfies com Ventura. Cabe aos seus seguranças limitar essas aproximações e abrir caminho para a saída rápida do candidato presidencial.

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O que se assistiu a seguir foi um ritual que tem preenchido os dias de campanha do candidato do Chega. Os primeiros seguranças a sair são sempre os do carro da frente. Um dos seguranças do segundo carro protege imediatamente a porta por onde Ventura sai. Antes de André Ventura sair do carro, três seguranças rodeiam a viatura. Só quando está devidamente protegido pelas costas é que o líder do Chega deixa finalmente o carro.

À chegada, houve um momento de maior tensão. Assim que André Ventura se fez apresentar, um homem começou a gritar “fascista” visivelmente agitado. Pedro Pinto, líder do Beja/Chega e condutor da carrinha de nove lugares que transporta o restante staff de Ventura, aproximou-se e tirou satisfações. Quando já estavam testa com testa, um agente da PSP teve de intervir e separar os dois. Já com Ventura a discursar, um dos apoiantes do candidato deu um chega para lá numa jovem mulher com pouco mais de 20 anos. Num e noutro caso, os seguranças não se afastaram um centímetro de André Ventura — é ele quem têm de proteger, não os outros.

Na noite de Portalegre, quando houve um bate boca entre um dos membros da comitiva que tem acompanhado André Ventura por todo o país e um grupo de jovens que se manifestava contra o Chega, já há muito que Ventura se tinha ido embora. Não houve, nem tem havido, qualquer tipo de aproximação.

Preparar a saída

Em ações ao ar livre, como em qualquer campanha eleitoral, os jornalistas e apoiantes estão de frente para o candidato enquanto este discursa. As zonas mais expostas são, por isso, as laterais e as costas. Pontos que os seguranças de Ventura não deixam desprotegidos. Em Castelo Branco, no tal jardim das docas da cidade, dois dos três seguranças ficaram sempre costas com costas com Ventura e o terceiro vigiava tudo de perto. Os três em permanente comunicação e atentos a tudo.

Durante o discurso de Ventura 2 dos seguranças, costas com costas com o candidato, não se afastaram dele por 1 segundo. Através de auriculares e transmissor na gravata, estão em constante comuniação.

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Todo este zelo é ainda mais sentido sempre que Ventura deixa um determinado evento político. Nunca o candidato do Chega abandona o espaço onde se encontra sem que os carros onde seguem Ventura, mulher e seguranças estejam prontos à porta para arrancar.

Na Guarda também foi assim. A sessão-comício de André Ventura já tinha terminado há uns bons minutos no Auditório Paço da Cultura. Quinta-feira, 22h59, véspera de confinamento geral e graus negativos no termómetro, não se via vivalma na rua, exceção feita para um homem de samarra que passeava uma buldogue francês, igualmente equipada para o frio.

Depois de olhar em volta e para as janelas do prédio que fazia sombra ao auditório, o segurança de Ventura deu luz verde para avançar através do sistema de comunicação — auricular na orelha e transmissor disfarçado na gravata. “Tudo cinco estrelas aqui”, ouviu o Observador. Ventura surgiria minutos depois.

Declarações de André Ventura à comunicação social depois de um comício em Santarém. O segurança sempre atrás de Ventura.

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O aparato causou estranheza. A determinado momento, uma senhora mais velha aproximou-se de dois elementos do staff do candidato e tentou esboçar um protesto baixinho. “Tanto carro e tudo pago por nós. É como os outros”, queixou-se. “Minha senhora, ele dispensava isto tudo e não se importava de guiar um carro como nós. Mas sabe que ele recebe ameaças de morte todos os dias”, devolveu-lhe simpaticamente uma das responsáveis pela campanha. Um argumento convincente.

O transporte de Ventura do ponto A — sítio onde discursa — para o ponto B — o carro que o transporta — é sempre um momento delicado. Os três seguranças criam uma espécie de círculo em redor do candidato, evitam ostensivamente que apoiantes e jornalistas se aproximem, abrem caminho ao candidato em passo rápido e têm sempre uma mão nas costas de Ventura. Assim que chegam ao carro há uma espécie de dança sincronizada: os três seguranças rodeiam o carro principal, um deles abre a porta a Ventura, o chefe de equipa entra nesse carro, os outros dois entram em simultâneo no carro de apoio e arrancam a toda a velocidade.

Dois locais diferentes, o mesmo procedimento: antes de entrar no carro André Ventura é sempre protegido pelo ângulo que estará mais desprotegido: as costas.

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Na Docapesca de Portimão o contacto entre apoiantes e André Ventura já estava limitado pelo número reduzido de pessoas que se encontravam no local. Nem assim os seguranças permitiram grandes aventuras. Nos dois ou três casos em que alguém se tentou aproximar de Ventura, os guarda-costas posicionaram-se imediatamente ao lado do candidato, com o corpo inclinado para a frente, a um gesto de imobilizar o interlocutor de Ventura e de olhos fixos na possível ameaça.

Contar com aliados

Atendendo ao nível de ameaças que diz receber, a candidatura de André Ventura queixa-se de não estar a receber apoio das forças de segurança, nomeadamente do Corpo de Segurança Pessoal da PSP. A missão de proteger André Ventura tem sido cumprida em exclusivo pela equipa de segurança privada que acompanha o candidato.

Mas a presença policial tem sido uma constante em toda a campanha. Na Guarda, era fácil contar pelo menos duas carrinhas de intervenção com agentes preparados para intervir a qualquer momento. Em Vila Real, junto à Universidade, eram pelo menos 20 os agentes da PSP (mais elementos da Polícia de Trânsito) que acompanhavam a iniciativa. Dependendo da área de jurisdição, também já se juntaram às iniciativas de Ventura elementos da GNR e da Polícia Marítima.

PSP a impedir que os manifestantes tentassem avançar até à porta do pavilhão onde André Ventura participou num debate em Vila Real.

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As manifestações anti-Ventura têm sido protagonizadas quase exclusivamente por jovens adolescentes e em números muito inferiores à comitiva que acompanha o candidato do Chega. “A operação é montada mediante o nível de risco associado. Não sabemos o que pode acontecer e temos de estar preparados para tudo”, explicou ao Observador um dos agentes da PSP que fazia a ronda no Auditório Paço da Cultura, da Guarda.

Há momentos de algum amadorismo, claro. Em Vila Real, um dos elementos da comitiva que se identificou como sendo da Chega TV perguntou a um dos agentes da PSP que apoiava a operação se podia entrevistar um dos manifestantes anti-Ventura. “Eu não posso limitar a liberdade de imprensa, mas tem a certeza que se quer meter ali [no meio dos manifestantes]?”, interrogou, algo atónito, o polícia. “Mas pode falar com o responsável pelo protesto…?”, devolveu-lhe o membro do staff do Chega. “Eu não posso servir de intermediário”, cortou o agente. O membro do Chega lá tentou a sua sorte, sozinho, mas acabou por regressar no segundo a seguir.

Ainda assim, a articulação entre a equipa que protege Ventura e a polícia tem sido uma constante. Desde a disposição dos carros até ao momento de chegada e saída do candidato, seguranças e agentes destacados vão trocando impressões.

Este domingo, o comício de Guimarães, no campo de São Mamede, foi o maior exemplo dessa articulação. A maior ação política até ao momento, com cerca de duas centenas de pessoas a assistir, foi fortemente vigiada pela PSP, incluindo por equipas de prevenção e reação imediata da Unidade Especial de Polícia, que circulavam de moto, à volta do recinto improvisado ao ar livre, de shotgun nas mãos. Houve nova manifestação anti-Ventura, mas tudo foi controlado sem mais. Apesar dos momentos de alguma tensão, a campanha tem decorrido sem grandes percalços.

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