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FERNANDO VELUDO/LUSA

FERNANDO VELUDO/LUSA

Como Rio recuou em três atos e disse a Costa que hoje perdeu um amigo /premium

Rio, como tem sido habitual quando o atacam, reagiu com ferocidade. Lembrou Sócrates, Pedrógão e enalteceu a manha de Costa recuperando Seguro. Acabou a coexistência pacífica ao centro.

Sempre que se sente acossado, Rui Rio abandona o estilo opositor suave e transforma-se em opositor feroz. No hotel Sheraton, no Porto, onde fez o discurso da vitória sobre Santana e onde começou a derrotar Montenegro, disferiu o mais duro ataque que alguma vez fez a António Costa. O líder da oposição tinha uma relação de respeito mútuo com o primeiro-ministro, e se nos últimos tempos eram evidentes os sinais de que essa relação estava a azedar, a partir deste domingo ficou claro que passou a encarar Costa mais como um inimigo do que como um adversário. Chamou-lhe muito do que de mau há para chamar a um político, acusando-o de farsa, mentira, hipocrisia ou falsidade.

Rio queixou-se ainda do taticismo e da manha de Costa perante o país. E para o fazer foi, ele também, tático: ao líder do PSD não lhe interessavam nada eleições nesta altura. Rio voltou a não virar costas à liça política e, ao mesmo tempo que denunciava uma peça teatral de António Costa em três atos, ele próprio fazia um recuo tático recorrendo à mesma estrutura narrativa.

Se Costa perdeu claramente um amigo (político) Rio deixou também um aviso: o primeiro-ministro pode ter perdido a confiança em PCP e BE, mas também não é com o PSD que contará para figuração em acordos. O discurso de Rui Rio foi um decretar do fim da crise política, mas também uma tentativa de isolar o PS no Parlamento.

Ato I do recuo: segurar o Governo e colocar o ónus no PS

Se o Governo e o Partido Socialista persistirem em recusar as cláusulas de salvaguarda financeira, então o PSD não poderá votar favoravelmente o diploma final, porque, ele, nessa circunstância, pode efetivamente vir a originar excessos financeiros que as finanças públicas poderão não conseguir suportar”

Rui Rio omitiu a principal razão pela qual não quer deixar cair o Governo: o presidente do PSD não quer eleições antecipadas, muito menos num momento em que o PSD (e o CDS também) foi apanhado em situaão de fragilidade debaixo dos holofotes. Acusou Costa de taticismo, mas segura o Governo também por questões de cálculo eleitoral. Se as sondagens fossem outras, talvez a atitude do PSD fosse outra, mais parecida com o PEC IV. E mesmo assim, o tema não ajuda e poderia ter efeitos nefastos numa das principais mensagens de Rio e do PSD: a responsabilidade e o rigor financeiro. O líder social-democrata, que também já demonstrou ser hábil politicamente, ensaiou uma resposta em três atos para que o recuo não pareça um recuo. Pelo caminho, tentou sempre estraçalhar Costa. Já na parte final do discurso, Rio disse a frase que serviu como uma espécie de decreto de fim da crise política: o PSD vota contra a proposta caso não sejam aprovadas cláusulas de sustentabilidade financeira. Ou nas palavras que usaria segundos depois: “Chegamos, assim, ao ato final da peça de teatro com que o senhor primeiro-ministro resolveu brindar os portugueses durante estes três últimos dias”. Quis, no entanto, deixar claro que o PSD só vota contra “se Governo e PS persistirem em recusar as cláusulas de salvaguarda financeira”. O objetivo é tentar colocar o ónus da mudança de voto do PSD numa “incoerência” do PS.

Ato II do recuo: Desvalorizar a aprovação na especialidade

Ainda nenhum diploma foi votado sobre o descongelamento das carreiras dos professores. Apenas se sabe o que cada partido queria alterar ou rejeitar. Daqui, apenas resulta a proposta para votação final no plenário da Assembleia da República. Por isso, o PSD vai coerentemente manter as suas posições sem qualquer alteração. Vamos propor no plenário a inclusão das propostas de salvaguarda financeira que fizemos na comissão, e que o PS incoerentemente rejeitou.”

Para justificar que o PSD não está a recuar (para não dar uma imagem de fraqueza), Rio desvaloriza a aprovação da proposta em sede de especialidade na Comissão Parlamentar de Educação. O presidente do PSD foi dez anos deputado e sabe bem que uma aprovação em sede de especialidade não é um mero esboço e que, a maior parte das vezes, a votação em plenário é quase uma mera formalidade, seguindo aquilo que foi decidido na especialidade. Ou seja: o PSD permitiu que a proposta seguisse para plenário, mesmo sem as cláusulas de sustentabilidade (que como Rio disse, e bem, foram chumbadas com o voto decisivo do PS). É verdade que está sempre prevista a hipótese de haver avocações a plenário (voltar a votar artigos em que votam todos os deputados no hemiciclo), mas também é verdade que o PSD podia ter travado logo a proposta na comissão ao ver que as cláusulas foram chumbadas. E mesmo depois disso, anunciar que não estava satisfeito e que iria avocar as matérias que não tinha conseguido fazer aprovar em comissão. Não o fez. Até este domingo (de resto, tal como Cristas e o CDS).

Ato III do recuo: Fazer promessa eleitoral

Por isso, se o PS nos obrigar a reprovar a proposta por irresponsabilidade política e financeira da sua parte, o PSD assumirá no seu programa eleitoral, exatamente o mesmo compromisso que consta da proposta que, sobre esta matéria, fizemos na Assembleia da República.

Rio já antecipa a fúria dos professores e, em particular, do sindicato de Mário Nogueira. Sabe que podia aqui capitalizar algum descontentamento dos professores com o PS (muitos fazem parte do voto móvel do “centrão”), mas que perde essa oportunidade ao voltar atrás. Fá-lo também, aliás, para não perder outra franja importante do eleitorado: a do rigor das contas públicas e até a que está numa ala mais liberal e cronicamente contra o “partido do Estado”. Assim, para mostrar que “não tem duas caras”, Rio faz uma promessa: se a proposta for chumbada, vai inclui-la no programa eleitoral do PSD. Mais uma vez, pretende evitar que digam que recuou.

Posta em marcha a estratégia para justificar a resposta do PSD ao ultimato do primeiro-ministro, Rio não quis deixar Costa a celebrar a vitória e marcou o discurso com críticas violentas:

Oiçam, portugueses, Costa é um manhoso

É pois neste enquadramento, que o senhor primeiro-ministro anunciou ao país, num ato de desespero e numa encenação com fraco sentido de Estado, que para evitar o caos financeiro apresentará a sua demissão se o diploma vir a ser aprovado. Um gesto a fazer lembrar o golpe interno no PS contra António José Seguro. Ou no Parlamento após a derrota eleitoral de 2015. Um ato de fuga às responsabilidades, que se assemelha aquele jogador que, estando a perder o jogo e sem que ninguém lhe toque, se atira para o chão a ver se engana o árbitro e consegue um penálti inexistente.

Rio comunicou ao país que ele próprio deixou de confiar em Costa. Que Costa não conta mais com ele. Que se acabou a coexistência pacífica que até foi cooperante (com dois acordos PS-PSD). Sem usar estas expressões, falou mais no primeiro-ministro como inimigo, um malfeitor, do que como um mero adversário. Acusou-o de hipocrisia, falsidade, mentira, taticismo, falta de sentido de Estado. Rio que estão já muito longe dos tempos de cumplicidade quando ambos se uniam como autarcas das duas maiores câmaras do país em defesa dos munícipes. E, falando para os portugueses, lembrou que Costa “traiu” António José Seguro, que arrumou Passos Coelho com taticismo parlamentar e acusou-o de ser um fingido. Rio quis ainda dizer aos portugueses que o PS caminha para uma derrota (ou uma “vitória de Pirro”, como lhe chamaria Soares) nas Europeias e que foi por isso que Costa, o calculista, montou uma “lamentável encenação”. Rio puxou dos galões (leia-se sondagens) para dizer que a campanha para Bruxelas está a “correr bastante mal” ao PS.

Dedo nas feridas: Pedrógão, familygate e Tancos

Morreram mais de 100 pessoas nos incêndios de 2017 e o primeiro-ministro não se demitiu (…) os membros deste Governo enxamearam a administração pública com os seus familiares e amigos socialistas e o primeiro-ministro não se demitiu. Roubou-se material de guerra em Tancos como quem rouba um galinheiro e não se demitiu. Morrem portugueses porque uma estrada no Alentejo abateu por desleixo na segurança e não se demitiu. Agora, porque a AR — que ele tão bem soube utilizar para formar governo sem ter ganho as eleições — debate um diploma com reduzidíssima implicação financeira, face ao que o próprio Governo já tinha assumido, monta um golpe de teatro amador e ameaça que se vai embora. Comigo, não pode contar para ser figurante em peças de teatro de má qualidade, nem para ser corredor de velocidade em disputas mediáticas.

Há aqui uma mudança no tom de discurso e no estilo de Rui Rio. A exemplo do que costuma fazer, por exemplo, o candidato às europeias Paulo Rangel, Rio vai buscar assuntos mais agressivos para António Costa e para o PS, como as mortes dos incêndios de 2017 ou o roubo de armamento em Tancos. Se já tinha existido um Rio 2.0, após a moção de censura (em que prometia ser mais combativo com o PS) este é um Rio 3.0 que usou a artilharia pesada para cima de Costa. Não é propriamente uma surpresa (o próprio Rio admite que é assim) mas antes a confirmação de que quando se sente acossado, Rio se torna mais combativo, mais incisivo e mais politicamente eficaz. Quanto mais a luta aquece, mais Rio mostra as diferenças para o PS.

PSD é o partido do rigor, PS é o partido de Sócrates

O líder socialista quis fabricar um caso político de vitimização para enganar os portugueses. Um número de ilusionismo eleitoral para atacar o PSD e a mim próprio e tentar criar a falsa ideia de que estamos a aprovar medidas que empurrariam o país para uma orgia orçamental (…) Na minha vida nunca pus em causa o equilíbrio financeiro das instituições por que fui responsável. Nem na gestão política, nem na gestão profissional enquanto economista. Se há matéria em que poucos me podem dar lições é sobre questões de rigor na gestão dos dinheiros públicos. O despesismo dos dinheiros do Estado nunca fez nem fará parte da minha forma de atuar na política. Do mesmo não se podem orgulhar outros d0s que nos últimos dias nos têm cinicamente tentado dar lições de finanças em tudo o que é espaço mediático, principalmente aqueles que participaram nos governos presididos pelo engenheiro Sócrates. Haja alguma decência e algum respeito pela verdade.

Rui Rio fez um discurso que pode não ser ter sarado as feridas que eventualmente este caso tenha causado no seu eleitorado natural, mas funcionará para dentro do partido. É um discurso em alguns pontos inatacável até para os herdeiros do passismo sem Passos. Desde logo, Rio foi buscar o seu currículo e a fama de rigor nas contas públicas (na câmara do Porto, no PSD como secretário-geral de Marcelo e agora novamente no PSD a garantir como líder a redução do passivo). Tinha de fazê-lo porque era precisamente essa imagem que esteve  em risco durante todo o fim-de-semana. Depois, passou ao ataque, e disse basicamente que não aceitava lições de ex-governantes de Sócrates. O visado era o número dois do Governo, Augusto Santos Silva. Mas, indiretamente, visou todos os que integraram os governos de Sócrates. O que também inclui António Costa. Desta vez, os adversários internos não se podem queixar de falta de ataque ao PS. Embora Relvas tenha vindo a terreno para criticar, Rio soube estancar bem qualquer nova tentativa de balcanização do PSD.

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