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Genevieve ENGEL

Genevieve ENGEL

Dimitrios Papadimoulis: "Com o Syriza no poder não há perigo de Grexit"

O eurodeputado do Syriza e vice-presidente do Parlamento Europeu disse ao Observador que o seu partido não é "um monstro". Syriza quer fazer reformas fiscais, na administração e na concorrência.

Há anos que Dimitrios Papadimoulis combate na frente europeia a ideia que o seu partido, o Syriza, é um “monstro” que ameaça engolir toda a Europa. Hoje apresenta-o como esperança, não só para os restantes povos do Sul, mas como o início de uma nova etapa que pode começar na Grécia e acabar em Berlim. Em entrevista ao Observador, o eurodeputado eleito em maio pelo Syriza para o Parlamento Europeu, assegura que o seu partido não se coligará nem com a Nova Democracia, nem com o PASOK, e a que sua possível vitória no domingo representa uma esperança também para Portugal.

Papadimoulis é um dos vice-presidentes do Parlamento Europeu e é o seu segundo mandato em Bruxelas – cumpriu o primeiro entre 2004 e 2009. Na Grécia já foi deputado no parlamento nacional e porta-voz do Syriza para os assuntos económicos. Mesmo um uma agenda preenchida em vésperas de eleições – corrida que pretende ganhar -, o eurodeputado recebeu o Observador em Bruxelas e disse que o seu partido quer ser “uma mudança poderosa” na Europa.

Qual é a sua expectativa para domingo, tendo em conta a subida do Syriza nas sondagens na última semana?

“Não seria bom para a Grécia voltar a ter eleições. Não nos agrada esse cenário e vamos fazer o maior esforço possível para que isso não aconteça”

Segundo as sondagens, somos a primeira força política na Grécia. Segundo os resultados de ontem à noite [esta entrevista foi realizada no dia 20 de janeiro], tínhamos uma liderança sobre a Nova Democracia entre 4,4% e 6,5% e a margem está a crescer. Não só queremos ser a primeira força politica, mas também ter a maioria no parlamento. Mas nós compreendemos que o que precisamos é de uma maioria popular e, independentemente dos resultados, queremos formar alianças, de acordo com o nosso programa. Precisamos de muitas mudanças, não só na relação com os nossos credores, mas também para continuar a fazer reformas e para isso precisamos do maior apoio possível. Para isso vamos precisar debater com outros poderes políticos de modo a criar alianças ou pelo menos ter o seu voto de tolerância em relação a algumas medidas. Não seria bom para a Grécia voltar a ter eleições. Não nos agrada esse cenário e vamos fazer o maior esforço possível para que isso não aconteça.

O partido To Potami é uma possibilidade para uma aliança alargada como está a sugerir?

Não excluímos à partida o Potami da lista de possíveis aliados. O Potami é como uma matriosca russa…

Há muitas coisas lá dentro?

Sim, eles aqui no Parlamento Europeu estão no grupo dos Socialistas europeus e o seu maior apoiante é o Guy Verhofstadt, que é liberal. Na realidade, o Potami [que significa rio em grego] inclui, tal como todos os rios, muitas pedras, muitos paus, águas cristalinas e águas mais profundas.

Os gregos que vão votar no Syriza estão à espera de medidas diferentes e veem no partido uma certa esperança. Acha que vão compreender que o partido faça alianças com outros partidos mais tradicionais e que já estiveram no poder?

Queremos mudar muita coisa. Não vamos criar coligações com pessoas e com forças políticas que fizeram parte de um regime que criou todos os problemas na Grécia. Porque a situação que existe é difícil para as condições de vida das pessoas com desemprego, cortes nos salários, nas pensões e nas prestações sociais. Tudo isto aconteceu devido a duas razões: má governação durante décadas e o memorando, que aumentou ainda mais os problemas. Então, os dois partidos que alternaram no governo, o PASOK e a Nova Democracia, não são aliados possíveis para nós.

"Os dois partidos que alternaram no governo, o PASOK e a Nova Democracia, não são aliados possíveis para nós"

Como é que imagina os primeiros 100 dias de governo do Syriza? O que é que querem alcançar?

Estamos prontos para negociar com a Comissão Europeia, com o Conselho da União Europeia e com o Banco Central Europeu uma solução para a dívida que já não é viável. Queremos reexaminar e mudar alguns pontos cruciais do programa de ajustamento de modo a fazer com que o crescimento da economia grega seja viável – a melhor maneira se resolver os problemas é fazer crescer a economia e não contrair novos empréstimos. Ao mesmo tempo, vamos começar a implementar algumas reformas que vão dar o sinal de que passo a passo, a Grécia se torna numa verdadeira democracia europeia…

Está a dizer que a Grécia neste momento não é uma verdadeira democracia?

Sim, na Grécia os ricos não pagam impostos, há muita economia paralela, muita burocracia, corrupção, falta de concorrência justa e uma predominância de oligarcas que é muito mais parecida com a Rússia de Putin do que com um Estado europeu. O que temos de mudar imediatamente tem a ver com o sistema fiscal, administração, burocracia e instaurar regras claras de concorrência. Vamos acabar com alguns fenómenos de oligarquia e corrupção. A Grécia é o único Estado europeu onde durante 25 anos os canais de televisão nunca tiveram de pagar por licenças. Eles não pagam um único euro. Os armadores na Grécia pagam quatro vezes menos impostos que os trabalhadores dos seus barcos. Não vamos resolver todos os problemas em 100 dias, mas o nosso programa consiste em negociar e encontrar uma solução de compromisso porque o custo da crise é muito maior para todos nós. Até agora, nos últimos cinco anos, o governo e a troika não fizeram quaisquer reformas, só falaram sobre elas e cortaram nos salários e pensões.

Sendo vice-presidente do Parlamento Europeu, tem noção que essas mudanças na Grécia podem influenciar outros Estados europeus. Que mudanças a nível europeu é que uma possível vitória do Syriza vai trazer?

Sinto que a cada dia que passa, cada vez mais europeus sentem que a vitória do Syriza é uma esperança e um ponto de partida para uma mudança na Europa na direção do crescimento económico, em vez da austeridade unilateral. Vai trazer mais coesão, mais transparência e mais democracia. A situação que agora temos não é boa, temos uma economia estagnada, com o grande perigo de um ciclo de deflação, menos investimento se compararmos com 2009. O dogma Schäuble [ministro das Finanças alemão] e Merkel falhou e agora há muitos esforços do BCE para gerar flexibilidade e algumas decisões da Comissão que mostram mudança. Nós somos parte da nova coligação para um New Deal na Europa. Penso que dia após dia, a propaganda que quer mostrar o Syriza como um monstro populista está a desaparecer. A vitória do Syriza representa uma esperança não só para os povos do Sul, mas também uma oportunidade de abrir o debate sobre o futuro da Europa.

"[A Grécia] é muito mais parecida com a Rússia de Putin do que com um Estado europeu"

Em Portugal também houve um programa de ajustamento. Como é que compara a situação dos dois países?

Portugal também sofreu com as políticas neo-liberais. A Grécia sofreu mais porque a recessão foi maior, o desemprego foi maior e os cortes também foram maiores. Mas a possível vitória do Syriza é também uma esperança para Portugal.

A dívida é uma questão muito importante para os dois países. Como é que o Syriza quer resolver esta questão?

Queremos organizar uma conferência internacional sobre a dívida e é muito importante que o ministro das Finanças irlandês, que pertence ao centro-direita, tenha concordado com a nossa proposta. Há muitas maneiras de resolver a dívida pública e o custo de não haver solução nenhuma é o dobro de conseguirmos um entendimento. Estou otimista.

É um europeísta e por isso deve compreender que algumas pessoas fiquem chocadas com algumas das medidas defendidas em 2012 pelo Syriza. Em 2012, as vossas propostas tiveram muito impacto e foram-se suavizando à medida que se foram aproximando do poder. Consegue compreender por isso as críticas sobre mudança de discurso que fazem ao partido?

Nós trabalhámos para isso. Nós somos uma esquerda pró-europeísta, mas queremos mudar muitas coisas no nosso país e na Europa. Queremos uma Europa mais coesa também em termos solidários e de crescimento sustentável. É claro que 2015 é muito diferente de 2012. O Syriza já não é uma coligação de pequenos partidos de esquerda, mas sim um partido unido, com uma identidade europeia mais clara e propostas mais concretas. A propaganda que nos quer mostrar como monstros não está a funcionar e nós não estamos sozinhos. Temos o Podemos em Espanha, o Sinn Fein na Irlanda e outros partidos. Há uma solidariedade crescente que tem apoio de outras famílias políticas como os Verdes e uma parte dos socialistas. Há muita gente, não só no Sul, mas pessoas pobres que não estão no topo da sociedade no centro e norte da Europa que compreende que ter um corte de 40% em salários e pensões não é aceitável. Perguntei a um jornalista da Suíça o que aconteceria se isso se passasse no país dele e ele respondeu: “Uma revolução”. Queremos ser uma mudança poderosa. O nosso objetivo não é ter poder, é levar a cabo uma mudança.

Considera que é possível haver União Europeia sem a Grécia?

O debate à volta da saída da Grécia do euro é perigoso. É propaganda idiota. Começou como parte da estratégia do governo alemão, mas afetou mais o euro do que o Syriza e então eles pararam. As instituições em Bruxelas não reagiram bem a isso. A própria Merkel afastou-se dessa ideia. Com o Syriza no poder não há nenhum perigo de Grexit, porque esse cenário é demasiado caro e inexplorado.

"O Syriza já não é uma coligação de pequenos partidos de esquerda, mas sim um partido unido, com uma identidade europeia mais clara e propostas mais concretas. A propaganda que nos quer mostrar como monstros não está a funcionar e nós não estamos sozinhos"

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