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O que (não) aprendemos com a vida

Faltam cinco minutos para o final do jogo, que está empatado, resultado que ditará a despromoção da equipa da casa ao escalão inferior. Esta tem estado a pressionar incansavelmente o adversário, mas sem conseguir romper a barreira defensiva. O treinador decide substituir um dos seus jogadores que dá mais visíveis sinais de exaustão. O substituto entra em campo e dois minutos depois, após um lance extremamente confuso na grande área adversária, a bola vem parar-lhe inesperadamente aos pés. Remata atabalhoadamente, por instinto, e a bola, após ressaltar num defesa adversário, atraiçoa o guarda-redes e entra na baliza – é o golo da vitória. Os comentadores nas televisões elogiarão o sentido de oportunidade e a astúcia táctica do treinador e os jornais do dia seguinte colocá-lo-ão na rubrica “a subir”.

Ninguém se lembrará das dez vezes anteriores em que o mesmo treinador operou uma substituição de última hora e o resultado do jogo não mudou em seu favor, ou até foi seguida pela marcação de um golo pela equipa adversária.

Evolução dos diagnósticos de autismo e das vendas de alimentos biológicos nos EUA entre 1997 e 2009. Pode concluir-se que o consumo de alimentos biológicos induz autismo?

Com um sorriso triunfal, o Ministro das Finanças exibe o gráfico ascendente da evolução do PIB e o gráfico descendente da evolução do desemprego nos últimos quatro trimestres, que, segundo ele, atestam a sageza e bondade da sua política.

Nada diz sobre o facto de o tecido económico do país se manter, na sua essência, inalterado e de as exportações terem sido puxadas pelo aumento da procura nos países clientes, em resultado da sua boa situação económica, e no facto de os turistas, alarmados com a instabilidade e as ameaças terroristas no Norte de África e Próximo Oriente, terem descoberto um destino alternativo pouco mais dispendioso nestas paragens.

Uma deputada da oposição interpela o ministro, no tom vociferante e indignado que crê ser o do genuíno e nobre defensor dos interesses do povo, lembrando que a maior parte da redução do desemprego resulta de empregos precários e mal pagos no sector do turismo e em call centers e que outra parte resulta do facto de muitos desempregados de longa duração, desesperançados, terem desistido de procurar emprego. Não fosse ter ficado afónica a meio da sua intervenção, a deputada poderia ter acrescentado que bastaria que os nacionais que tinham ido procurar melhor sorte no estrangeiro nos anos “de crise” decidissem regressar ao país para que as estatísticas de emprego apresentadas pelo ministro perdessem o seu brilho.

Num programa de debate político na televisão, dois politólogos engalfinham-se devido a interpretações divergentes sobre o significado da queda nas sondagens do principal partido da oposição, embora a queda das intenções de voto, de 3 pontos percentuais, seja inferior à margem de erro da sondagem.

Um gráfico “prova” que o consumo de margarina per capita e a taxa de divórcio no estado do Maine estão “correlacionados”. Será que os divorciados comem mais margarina ou será que é o aumento do consumo de margarina que favorece o divórcio? Será que o pouco ortodoxo uso de manteiga em contexto amoroso no filme O último tango em Paris pode explicar isto?

O Sr. Anastácio tem um cachecol da sorte, que leva aos jogos da sua equipa de futebol. O cachecol já tem uns anos, mas ele não o troca por outro, pois crê que sempre que o usa a sua equipa ganha. E lembra aquela vez em que se esqueceu dele em casa e a sua equipa perdeu o jogo que decidia o campeonato. Na verdade, o Sr. Anastácio tem usado o cachecol em muitos jogos que a sua equipa perdeu, mas apagou-os da sua memória ou atribui a derrota a circunstâncias excepcionais: um penalty flagrante que ficou por assinalar ou a expulsão injusta de um jogador.

O Ministro da Administração Interna apresenta o relatório sobre a evolução da criminalidade no país e realça o facto de o número de ocorrências reportadas ter caído 4% em relação ao ano anterior, o que atribui à eficaz actuação das forças da ordem, desde que assumiu o seu comando.

Nada diz sobre a possibilidade de a diminuição do número de ocorrências reportadas resultar de muitas vítimas de crimes menores, sabendo da inoperância das forças da ordem, não se terem dado ao trabalho de apresentar uma queixa formal. Ou sobre o facto de o líder da quadrilha que assaltava carrinhas de transportes de valores ter tido o seu momento “estrada de Damasco” e ter renegado a carreira criminosa para se tornar pastor numa igreja evangélica. Ou que o gang que assaltava caixas multibanco com impressionante eficácia se dissolveu após uma discussão sobre repartição dos proventos, que resultou em dois feridos graves.

Os media concedem generoso tempo de antena a um sociólogo que elaborou um estudo sobre a evolução da taxa de natalidade no país e concluiu que esta diminuiu entre 2008 e 2015 e que isso se deve à estagnação ou diminuição dos salários, ao aumento do desemprego e à falta de perspectivas de futuro que marcou o período em que as depauperadas finanças do país estiveram sob o diktat de entidades internacionais e foi aplicado um programa de reformas visto como particularmente duro.

Três anos após a partida dos odiosos agentes estrangeiros, do levantamento do regime de “protectorado” e do anúncio do término da “austeridade”, a taxa de natalidade atinge o seu valor mais baixo de sempre, mas nenhum jornalista se lembra de chamar o sociólogo para lhe pedir que explique estes resultados num período de relativa prosperidade. Também não se esperaria que o fizessem, já que, antes, nenhum deles se lembrou de confrontar o sociólogo com o (aparente) paradoxo de o país registar uma taxa de natalidade bem mais alta há 30 ou 40 anos, quando o PIB nacional per capita era ¼ do actual, ou de haver países mais pobres com taxas de natalidade mais altas (ou melhor: de serem usualmente os países mais pobres a apresentar taxas de natalidade mais altas).

Nicolas Cage parece ser alguém com grande influência no que acontece pelo mundo: este gráfico sugere que o número de filmes protagonizados pelo actor está relacionado com o número de pessoas que morrem afogadas ao cair em piscinas. É verdade que os filmes em que Cage entrou entre 1999 e 2009 são, genericamente, beras, mas justificarão que alguém ponha termo à vida saltando para uma piscina?

A Dona Genoveva, que tem sido atormentada por indisposições, prostrações e achaques de natureza flutuante e indefinida, cuja origem o seu médico não consegue identificar, deixa-se convencer pelos argumentos de uma amiga e adopta uma dieta sem glúten. Inicia o novo regime na mesma semana em que faleceu o seu gato e, gradualmente, começa a sentir melhorias no seu estado de saúde. É uma reacção expectável, dado que o problema da Dona Genoveva é – embora não o saiba – ser alérgica a pêlos de gato. Com efeito, seis meses depois, arranjará um novo gato e os sintomas regressarão, mas por essa altura nada fará já demover a Dona Genoveva da crença nas vantagens do novo regime para a sua saúde e bem-estar: converteu-se numa convicta militante anti-glúten e o seu proselitismo entusiástico já convenceu seis amigas, tão saudáveis como ela, de que sofrem de doença celíaca.

Na apresentação da declaração de princípios e objectivos de um novo partido político, anuncia-se que se pretende que o PIB nacional cresça 3% ao ano. Apesar de isto ser equivalente a anunciar que o partido pretende assegurar que a floração dos jacarandás de Lisboa se inicie impreterivelmente antes de 15 de Maio, tal objectivo não é contestado pelos outros partidos nem pelos comentadores políticos.

Após oito jornadas sem vencer, um treinador de futebol é despedido, apesar de nas duas épocas anteriores em que dirigiu o clube ter obtido bons resultados e de o despedimento obrigar o clube a pagar uma vultosa indemnização. Apenas três dias depois de ter assumido o cargo, o novo treinador “leva a equipa à vitória” infligindo uma goleada ao seu principal rival no seu próprio campo, suscitando uma onda de entusiasmo entre os adeptos e comentários favoráveis nos media ao novo treinador. Alguns hierofantes do ludopédio de alta competição desdobram-se, nas televisões, em observações perspicazes sobre a “cultura táctica” do novo treinador e a sua adequação às características daquele clube. Um ano depois, após uma série de dez jogos sem vencer, o clube anuncia o despedimento do treinador num comunicado seco.

Há más notícias para a sagrada instituição do matrimónio, pelo menos no Kentucky: a taxa de casamentos nesse estado segue de perto a evolução do número de pessoas que se afogam ao cair de um barco de pesca

Após um Verão de temperaturas amenas, pouco vento e tempo invulgarmente húmido, o ministro da Administração Interna faz um balanço “extraordinariamente positivo” da “época de fogos” e realça, com satisfação, que este foi o ano com menor área ardida da última década, facto que atribui à sua preclara actuação e ao reforço do “dispositivo de combate a incêndios”. Nesse mesmo dia, várias personalidades e entidades reivindicam para si o declínio na área ardida: a Autoridade Nacional de Protecção Civil explica-o pela sua exemplar condução das operações de combate ao fogo; a Associação Nacional de Municípios diz que foi obra do colossal trabalho de prevenção realizado pelas autarquias; a Liga dos Bombeiros reclama louros para o esforço abnegado e o profissionalismo dos bombeiros; a Associação de Produtores Florestais realça o investimento dos seus associados na gestão e limpeza das florestas; as associações de caçadores fazem notar que foi a atitude vigilante dos seus associados que permitiu identificar focos de incêndio logo na fase inicial e extingui-los antes de se tornarem incontroláveis. No ano seguinte, um Verão invulgarmente quente, ventoso e seco resulta na maior área de floresta ardida da última década, o que é atribuído a incêndios de origem criminosa, às “forças demoníacas da natureza” e até à possibilidade de “Deus nem sempre ser amigo”.

O presidente do conselho de administração de um banco aparentemente próspero publica um livro sobre o seu segredo para “vencer nos mercados”. O livro exalta os superiores poderes de análise do protagonista, a intrepidez das suas decisões, a determinação férrea da sua vontade e narra uma arrebatadora história de superação: alguém que, pelo seu próprio pulso, trepou de uma origem humilde “ao topo do mundo das Finanças”. Por coincidência, no dia aprazado para o lançamento do livro, a que assistem a fina-flor do meio empresarial e financeiro e uma impressionante moldura de governantes, ex-governantes e comendadores, surge o rumor de que o dito banco terá pedido um vultoso empréstimo de emergência ao Estado. Isto não impede que o livro seja comprado por algumas centenas (milhares?) de pessoas que acreditam simultaneamente em quatro coisas absurdas: 1) que os mercados se comportam de forma previsível; 2) na existência de uma “estratégia de fazer negócios e investir na Bolsa”; 3) que essa hipotética estratégia pode ser resumida a uma receita tão simples como a da preparação de um dry martini; e 4) que quem detém tão mirífico conhecimento está disposto a partilhá-lo com todos por apenas 15 euros.

Alguns dias depois apura-se que o pedido de empréstimo de emergência tinha mesmo sido feito e que tinha sido recusado, pelo que não tarda que o dito banco vá à falência e o banco central decrete oficialmente a sua extinção. As investigações à gestão do banco sugerem que o triunfo do banqueiro nos mercados não só foi efémero como foi alcançado por processos pouco lícitos, mas o processo judicial por branqueamento de capitais e burla redunda, por falta de provas, na absolvição do banqueiro. Este continua a publicar livros sobre mercado financeiros, em que gaba os seus superiores dotes de gestão e atribui todas as culpas pela falência do seu banco ao banco central, ao governo e, pasme-se, a uma evolução imprevisível dos mercados.

Um Chefe de Estado que, durante a sua campanha presidencial, afirmou repetidamente que o aquecimento global e as alterações climáticas são uma invenção de uma potência rival que pretende prejudicar a indústria do seu país, levando-a a adoptar medidas de contenção das emissões de CO2 que a tornarão menos competitiva, olha pela janela do gabinete presidencial e repara que está a nevar. Apressa-se a colocar uma mensagem no Twitter – o seu meio de comunicação favorito, pois dispensa a intermediação desses velhacos liberais e anti-patrióticos dos jornalistas – em que apresenta o facto inédito de estar a nevar a 1 de Novembro, como prova da falsidade dos rumores sobre aquecimento global. Na verdade, o registo meteorológico para a capital do país, que remonta a 1880, aponta 9 de Outubro de 1979 como a ocorrência mais precoce de queda de neve, mas o Chefe de Estado não é homem que se preocupe com dados coligidos por meteorologistas picuinhas, quando lhe basta abrir a janela e sentir o ar gelado e os flocos de neve a entrar pelo gabinete dentro para comprovar as suas convicções. Na verdade, nem sequer compreende que os eventos meteorológicos têm uma forte componente aleatória e que, tal como uma andorinha não faz a Primavera, pode acontecer que, num ano, a neve chegue mais cedo a um dado ponto do planeta, mesmo que, globalmente, o planeta esteja a aquecer.

Taxa de mortes por acidentes nas estradas dos EUA e importação de limões do México para os EUA. Esta é uma informação que Donald Trump não reproduzirá no seu Twitter: a invasão de produtos estrangeiros poderá roubar emprego a alguns americanos mas, aparentemente, salva as vidas de outros

Após meses de atritos quase diários com os professores devido a questões salariais e de carreira, o ministro da Educação tem, finalmente, boas notícias para dar na área que tutela: os resultados dos alunos nos exames de Matemática e Português no 12.º ano melhoraram em relação ao ano anterior, o que comprova, na sua opinião, o acerto da sua política educativa. Esquece – ou faz por esquecer – que os resultados dos exames dependem antes da mais da maior ou menor dificuldade das provas, que é muito variável de ano para ano, e da sua sintonia com o programa ministrado pelos professores.

Para não ser acusado de soberba e para tentar amenizar a relação crispada com a classe docente, o ministro entende que é boa ideia partilhar publicamente o seu “triunfo” com os professores de Matemática e Português e agradece a inexcedível dedicação destes, “sem a qual este excelente resultado não teria sido alcançado”. É um elogio que ignora que a maior parte dos alunos que tiveram boas notas no exame têm explicações particulares e que os seus resultados – sejam eles melhores ou piores que no ano transacto – se devem tanto aos explicadores como aos professores.

Um jogador de futebol com uma carreira até então discreta, marca um golo decisivo num jogo decisivo e é convertido em herói. O seu nome é entoado em coro por gente que, dias antes, desconhecia a sua existência ou questionava a sua qualidade e a sua escolha para titular da equipa; peritos do ludopédio tentam fazer passar a ideia de que, antes de qualquer colega, tinham intuído as formidáveis potencialidades deste jogador; as televisões entrevistam familiares até ao terceiro grau, ex-colegas da escola primária e a sua “coach de alta performance”; os jornais publicam a sua história detalhada desde o berço, ilustrada com infografias espectaculares; um governante fá-lo comendador; um grande clube estrangeiro contrata os seus serviços por uma soma estrondosa.

No novo clube, o seu rendimento nada tem de assinalável e o treinador vai, progressivamente, deixando de dar-lhe oportunidades para jogar. Acaba por ser “emprestado” a um clube menos proeminente, mas também neste a sua prestação fica abaixo das expectativas, pelo que um novo empréstimo o empurra para outro clube, num campeonato a que o mundo não dá grande atenção. Cinco anos depois está a jogar num clube da II divisão chinesa. No 10.º aniversário do golo decisivo no jogo decisivo, um jornal publicará um artigo sobre “uma promessa que ficou por cumprir”.

Por outro lado, o aumento do consumo per capita de queijo mozzarella parece estimular o número de doutoramentos na área da engenharia civil. Ou será que o facto de alguém se doutorar nesta área o torna num voraz consumidor de mozzarella? Seja como for, eis um motivo para meditar maduramente antes de passar pela secção de lacticínios na sua próxima visita ao super-mercado

Os pombos supersticiosos de B.F. Skinner

Deixemos este mundo de figuras ficcionais, cuja eventual semelhança com gente de carne e osso não é mais do que mera coincidência, e entremos no mundo real, recuando até 1948. Nesse ano, Burrhus Frederic Skinner (conhecido nos anais da ciência como B.F. Skinner), um pioneiro do estudo da psicologia comportamental em animais e considerado, num inquérito aos seus pares realizado em 2002, como o mais influente psicólogo do século XX, publicou, no Journal of Experimental Psychology, “Superstition in the pigeon”, um artigo em que descrevia uma experiência com pombos, animal que tinha vindo a ser o eleito para muitas das suas experiências (chegando a inspirá-lo para, durante a II Guerra Mundial, propor a criação de um míssil ar-superfície guiado através de um pombo).

B.F. Skinner, c. 1950

Skinner começou por privar os pombos de comida até eles ficarem com 75% do seu peso normal (o que hoje levaria a que fosse acusado de crueldade contra animais e a ser enxovalhado no Facebook). Colocou os pombos esfomeados numa gaiola com um dispensador de comida associado a um temporizador, programado para fornecer comida a intervalos regulares. Em seis casos em oito, os pombos desenvolveram comportamentos “supersticiosos”, ou seja, estabeleceram uma associação entre a aparição de comida vinda do nada e o seu comportamento imediatamente anterior, fosse este qual fosse. Assim, um pombo “foi condicionado a girar no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio”, outro “batia com a cabeça contra os cantos superiores da gaiola”, dois “desenvolveram um movimento pendular da cabeça e do corpo, em que a cabeça era projectada para a frente e oscilada da direita para a esquerda, num movimento brusco”, e assim por diante. Na sua mente rudimentar, os pombos esperavam que a reprodução das acções que tinham desempenhado antes de a comida aparecer iria fazer com que o maná regressasse. E, uma vez que passavam boa parte do tempo a reproduzir este comportamento, é natural que quando a comida voltava a ser dispensada, a sua “convicção” de que as suas “danças” tinham o poder de fazer aparecer comida se reforçava.

[B.F. Skinner usa o controlo do fornecimento de alimento para induzir comportamentos específicos nos pombos]

No artigo, Skinner estabelece analogia entre os “rituais” dos pombos e o comportamento humano: “Os rituais para fazer mudar a sorte nos jogos de cartas são bons exemplos. Algumas conexões acidentais entre um ritual e consequências favoráveis bastam para estabelecer e manter o comportamento, apesar das muitas instâncias em que não há reforço. Outro exemplo é o do jogador de bowling que, após lançar uma bola continua a comportar-se como se estivesse a controlá-la, através de movimentos do braço e ombro. Estes comportamentos não têm, claro, qualquer efeito sobre a sorte [às cartas] ou sobre a trajectória de uma bola, tal como, neste caso, a comida continuaria a surgir com a mesma regularidade, mesmo que o pombo nada fizesse – ou fizesse algo diferente”.

[Micro-documentário sobre as experiências de B.F. Skinner sobre condicionamento de comportamento]

Skinner não dá esse passo, mas é tentador ver neste estabelecimento de relações causais onde não há nenhumas e no subsequente cristalização de “convicções” sob a forma de comportamentos “rituais” a semente das religiões e superstições humanas. Tivessem os pombos outros recursos intelectuais e outros laços de sociabilidade, poderia até imaginar-se a constituição de facções organizadas, com os que giram no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio a denunciar como hereges os que giram no sentido directo e a perseguir e bicar até à morte os que praticam um movimento pendular da cabeça e do corpo.

O acaso que não queremos ver

Os pombos supersticiosos de B.F. Skinner são citados em muitas obras que se debruçam sobre a natureza irracional de muitos comportamentos humanos e, sem surpresa, fazem a sua aparição em Fooled by randomness: The hidden role of chance in life and in the markets, de Nassim Nicholas Taleb, publicado originalmente em 2001 e reeditado em versão revista e aumentada em 2004 – é este o texto utilizado na versão portuguesa da Temas & Debates, Iludidos pelo acaso: O papel oculto do acaso na vida e nos mercados, com tradução de Artur Lopes Cardoso.

“Iludidos pelo Acaso”, de Nassim Nicholas Taleb (Temas & Debates)

Embora tenha sido o último a ser traduzido em português, Iludidos pelo acaso é o primeiro tomo da série Incerto, que compreende O cisne negro: O impacto do altamente improvável (edição original de 2007), A cama de Procusto: Aforismos filosóficos e práticos (2010) e Antifrágil: Coisas que beneficiam da desordem (2012), todos editados pela D. Quixote, e tem um quinto volume, Skin in the game: Hidden asymmetries in daily life (2018), ainda inédito em Portugal.

Como se percebe pelos títulos, o assunto é sempre a nossa falta de consciência perante o papel do acaso e a nossa incapacidade para lidar com a incerteza (excepto A cama de Procusto, que é uma colecção de aforismos pretensiosos que serve a pretensão de Taleb a afirmar-se como filósofo). O segundo título, O cisne negro, já é, em boa parte, uma remastigação de Iludidos pelo acaso, mas compreende-se que, perante a recepção entusiástica dispensada a este – Malcolm Gladwell proclamou na New Yorker que “esta obra é para o saber convencional de Wall Street quase o mesmo que as 95 teses de Martinho Lutero foram para a Igreja Católica” –Taleb se tenha sentido incitado a continuar a explorar o filão.

Tolos com sorte

Nassim Nicholas Taleb (n. 1960) nasceu no Líbano, numa abastada família de religião ortodoxa grega e origem na comunidade grega de Antioquia. A Guerra do Líbano (1975-90) causou a ruína da família e fê-la deixar o país e Taleb estudou na Universidade de Paris e na Universidade da Pennsylvania, na área da matemática aplicada às finanças, e tornou-se trader (corretor da bolsa) e gestor de hedge funds.

Porém, após alguns anos neste sector, apercebeu-se de que o comportamento dos seus colegas não era ditado pela racionalidade e que as suas decisões eram influenciadas por percepções equívocas da realidade. E, pouco a pouco, tomou consciência de que os traders e investidores de Wall Street apenas enfermavam num grau mais agudo de uma maleita que afectava praticamente toda a humanidade. No seu esforço para tornar o mundo inteligível e previsível, os seres humanos tendem a estabelecer nexos causais onde eles não existem e a distinguir padrões onde há apenas aleatoriedade.

“Pátio da Bolsa de Amesterdão”, por Emanuel de Witte, 1653

Afirma Taleb que “Estamos ainda muito perto dos nossos antepassados que vagueavam pela savana. […] Tal como, um dia, um dos nossos antepassados primitivos coçava o nariz, quando de repente começou a chover e elaborou um método complexo de coçar o nariz para provocar chuva […], ligamos a prosperidade económica a uma qualquer descida das taxas de juro ordenada pelo banco central ou atribuímos o êxito de uma empresa à nomeação do novo presidente”.

As origens desta inclinação humana, que são apenas afloradas em Iludidos pelo acaso, são o tema central do muito recomendável Six impossible things before breakfast: The evolutionary origins of belief (2006), do biólogo Lewis Wolpert, que propõe que o desenvolvimento do raciocínio causal surgiu, entre os nossos antepassados, associado ao fabrico de utensílios e que, devido às vantagens adaptativas que proporciona, foi incorporado nos nossos genes pela selecção natural. E assim a “vontade de acreditar”, a necessidade de discernir um padrão e um sentido em tudo o que nos rodeia, tornou-se-nos inata. Se, por um lado, boa parte da nossa evolução como seres pensantes decorre deste ímpeto para explicar o mundo, por outro lado leva a que desperdicemos boa parte da nossa capacidade cerebral em confabulações estéreis e tenhamos uma visão distorcidíssima da realidade.

E assim, além de termos conseguido discernir que materiais e técnicas eram mais adequados ao fabrico de uma boa moca, passámos também a acreditar em demónios, em deuses, em telepatia, em OVNIs, em bruxas, em anjos, em teorias conspirativas, na homeopatia, em crianças índigo, em teorias racistas, na infalibilidade do Papa, na cristaloterapia, nas nossas superiores capacidades como condutores e no facto de o dinheiro que amealhámos com as nossas operações bolsistas resultar exclusivamente no nosso talento. Mas damos menos crédito à ciência, pois esta requer um pensamento disciplinado, contraria o senso comum e oferece poucos ou nenhuns confortos espirituais.

Outra vista do pátio da Bolsa de Amesterdão, por Job Adriaenszoon Berckheyde, c.1670

A incapacidade de perceber a importância do acaso nos mercados financeiros é o tema recorrente de Iludidos pelo acaso: “temos tendência para pensar que [os traders de sucesso] foram bem-sucedidos porque eram bons profissionais. Talvez tenhamos invertido o princípio da causalidade: achamos que são bons simplesmente porque ganham dinheiro. Nos mercados financeiros pode fazer-se dinheiro inteiramente por acaso”. E remata Taleb: “uma grande parte dos homens de negócios com resultados excepcionais não serão melhores do que flechas lançadas ao acaso”. Porém, estes “tolos com sorte não suspeitam minimamente de que são tolos com sorte […] Comportam-se como se merecessem todo esse dinheiro”.

Alguns destes “tolos com sorte” estão tão convictos de que possuem um método para triunfar que o explanam em livro – e não faltam livros deste tipo na secções de economia/finanças/gestão das livrarias. Não será isto um indício de que Taleb estará enganado? Aqui há que considerar o efeito do que Taleb designa por survivorship bias (distorção ou enviesamento da sobrevivência): só escrevem livros os traders e investidores a quem o acaso fez triunfar; e para cada um que triunfa há milhares, porventura com “estratégias” similares, que “estoiram” e se retiram das operações no mercado mobiliário com o rabo entre as pernas – não há gente disponível para escrever (ou para publicar ou para ler) livros com o título Como perdi 50 milhões numa tarde e fui despedido. Para mais, não é sequer necessário que alguém tenha sucesso nos negócios durante toda a vida para que publique um livro sobre como ter sucesso nos negócios, basta um fogacho de sorte. Seria um exercício revelador averiguar o destino dos autores de livros do tipo como-fazer-o-seu-primeiro-milhão publicados nos últimos 30 anos – é bem provável que poucos continuassem na mó de cima.

Bolsa de Valores de Londres, 1810

Outro enviesamento que debilita o raciocínio humano é o “preconceito retrospectivo”: “os acontecimentos do passado parecem sempre menos aleatórios do que foram” e aquilo que as pessoas recordam como passado não são factos mas “explicações elaboradas a posteriori pela sua mente iludida”. Também não somos eficazes a separar “sinal” de “ruído” e por isso somos tentados a ver tendências onde há apenas oscilações aleatórias, o que está associado à inclinação humana para estabelecer relações causais e para confundir correlações com causalidade: “quando se inunda um computador com dados e se procura estabelecer uma relação qualquer, pode ter-se a certeza de que irá surgir uma relação qualquer, sem fundamento, que estabelecerá, por exemplo, uma ligação entre o destino da bolsa de valores e o comprimento das saias das mulheres”.

“Touros e ursos no mercado”, por William Holbrook Beard, 1879, com a antiga Bolsa de Valores de Nova Iorque em fundo. Na gíria dos mercados financeiros, diz-se que o mercado está bear (urso) quando está em baixa e bull (touro) quando está em alta, por, supostamente, os ursos desferirem os seus golpes de cima para baixo e os touros de baixo para cima

Outro aspecto que o cérebro humano tem dificuldade em apreender são os eventos em que variações de pequena monta dos dados de partida podem produzir resultados finais completamente díspares – o tipo de eventos estudado pela “teoria do caos”.

Para Taleb, todas estas debilidades da natureza humana são praticamente impossíveis de serem superadas. É o que ele designa como “visão trágica da humanidade”, corrente de pensamento que “acredita na existência de limites e defeitos inerentes à maneira como pensamos e agimos e que faz depender toda a acção colectiva desse facto” e em que Taleb inclui Karl Popper, Friedrich Hayek, Milton Friedman, Adam Smith, Daniel Kahneman e George Soros.

Esta visão contrapõe-se à “visão utópica da humanidade”, dos que “acreditam na razão e na lógica” e “acham que deveríamos domar deliberadamente a nossa natureza e submetê-la à nossa vontade, a fim de alcançarmos […] a felicidade e a racionalidade”, onde Taleb inclui Jean-Jacques Rousseau, Condorcet, Thomas Paine e os “economistas convencionais e normativos” (os que acreditam que as decisões do Homo economicus são movidas pela racionalidade e que os mercados são eficientes). Taleb entende que a “visão utópica” está completamente equivocada e que a economia normativa, que “estuda as coisas como elas deveriam ser”, não como são, nem sequer é bem uma ciência: “é semelhante a uma religião, mas falta-lhe a estética desta”, ironiza.

“Na Bolsa de Valores de Paris”, por Edgar Degas, 1878-79

Mesmo aqueles que tentam pensar de forma racional e estão conscientes dos enviesamentos da mente humana podem deixar-se levar pelas emoções e cair nas armadilhas em que cai o cidadão comum – até os cientistas “atribuem os seus êxitos às suas qualidades e os seus erros ao acaso […] Uma heurística humana leva-nos a acreditar nisso, para protegermos a nossa auto-estima e continuarmos a lutar contra a adversidade”. Até os mais esclarecidos, que escrevem livros a alertar-nos contra as falácias em que tropeça o raciocínio podem acabar, na prática, por não praticar aquilo que advogam – como escreve Taleb, “gostamos de exprimir ideias lógicas e racionais mas não apreciamos necessariamente pô-las em prática”.

Assim, resta-nos “cultivar a insegurança, em vez da confiança intelectual”, rejeitar o dogmatismo, descartar as crenças do passado se estas se mostram incapazes de explicar o presente e encarar a vida com cepticismo.

Bolsa de Valores de Nova Iorque, 1908

Um puro-sangue numa récua de burros

Apesar de os assuntos abordados por Taleb serem fascinantes, o seu livro está longe de o ser. Resulta isto de os trechos válidos serem escassos e surgirem dispersos entre o assunto principal de Taleb: ele próprio. A vida de Taleb, as opiniões de Taleb e os caprichos de Taleb são assuntos, já de si, de mui escasso interesse, mas quando são apresentados num tom de permanente sobranceria e arrogância podem tornar-se indigestos. Para piorar tudo, boa parte do livro soa como um ajuste de contas com as pessoas com quem convive no sector financeiro, sejam eles traders, investidores ou jornalistas.

Taleb, que faz questão de mostrar que leu Proust e Ovídio, retrata-se como um colosso intelectual rodeado de grunhos, ignaros e tacanhos e afirma que a escrita do livro teve o efeito de fortalecer “ainda mais a minha ideia de me proteger dos meios de informação social e de me distanciar do mundo dos negócios, isto é, essencialmente, dos outros traders e dos investidores, pelos quais sinto um desprezo cada vez maior”.

Bolsa de Valores de Nova Iorque, 2009

Após apresentar abundantes retratos caricaturais dos seus ódios de estimação, diz de George Soros que “talvez seja o único trader que respeitei verdadeiramente”, para, uns parágrafos abaixo reprovar “certos disparates escritos por ele” e lamentar que “os seus artigos não demonstrem grande erudição”, acabando por concluir que Soros mantém uma mente aberta e crítica, “embora não tenha escrito nada de interessante”. Imagine-se o que diria Taleb de Soros se não o “respeitasse verdadeiramente”.

Taleb dá a entender que poderia, se o quisesse, ser tão rico como Warren Buffet (actualmente a 3.ª maior fortuna do mundo, mas que em 2008 chegou a ocupar o 1.º lugar): “não sinto o menor desejo de sacrificar uma grande parte dos meus hábitos, incluindo os prazeres intelectuais, e os meus valores pessoais para me tornar um multimilionário como Warren Buffet e não vejo certamente qual o interesse disso […] Não compreendo por que razão as pessoas o admiram tanto por ele viver austeramente apesar de ser tão rico”.

A um ex-colega (que não nomeia) e que transitou do trading para a selecção de gestores de fundos de investimento, descreve-o como “extremamente aborrecido”, “desinteressante, corpulento e extremamente satisfeito com o seu êxito” e resume a conferência que aquele proferiu nestes termos: “pelo menos 97% do que ele dizia era apenas ruído”.

Quanto aos jornalistas, Taleb interroga-se “porque será que, na sua maioria […], não percebem que sabem muito menos do pensam?” e afirma que a essência da profissão de jornalismo é “meramente parecer esperto e inteligente perante as hordas”.

Taleb poderá ter-se afastado do convívio com os traders e investidores, mas continua, como eles, obcecado em fazer crer que é “the smartest guy in the room”, o “top dog”, o macho Alfa triunfante. As muitas personalidades desprezíveis que desfilam pelo livro, umas directamente nomeadas, outras ocultas sob disfarces que um frequentador de Wall Street será certamente capaz de reconhecer, parecem ter uma única função: fazer realçar a incomparável superioridade e brilho de Nassim Nicholas Taleb.

Quem não tenha paciência para tanta empáfia e egocentrismo poderá aceder a reflexões mais enriquecedoras sobre assuntos similares em O passeio do bêbado: Como o acaso rege as nossas vidas (The drunkard’s walk: How randomness rules our lives), de Leonard Mlodinow (editado em Portugal pela Bizâncio), em Pensar, depressa e devagar (Thinking, fast and slow), de Daniel Kahneman (editado em Portugal pela Temas & Debates), em How we know what isn’t so, de Thomas Gilovich, e no já mencionado Six impossible things before breakfast, de Lewis Wolpert.