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Espectral, de outro tempo, mas "tão cool": o "fantasma" Nick Drake revelou-se há 50 anos /premium

O mundo, porém, não lhe prestou grande atenção — e não demorou muito até que ele o abandonasse aos 26 anos. Quem foi Nick e como chegou a 'Five Leaves Left', o álbum de estreia lançado há 50 anos?

Passaram-se 50 anos desde o primeiro álbum, 45 desde que morreu com apenas 26, mas ainda hoje ninguém consegue decifrá-lo. Matou-se com intenção ou teve uma overdose acidental? Pôr o público a ouvi-lo, como desejava, teria mudado o seu destino ou não faria grande diferença? O que é que lhe passava pela cabeça e o levava a atingir estados de depressão tais que até para família e amigos se tornava inacessível?

Eis a pergunta a que ainda ninguém conseguiu responder: quem foi Nick Drake? Há várias hipóteses de resposta. Opção 1: foi um homem nascido a 19 de junho de 1948 em Rangum, na Birmânia, filho de dois britânicos, mas que em criança se mudou em definitivo para o Reino Unido. Opção 2: foi um estudante da universidade de Cambridge que preferiu sempre a música às aulas. Opção 3: foi um guitarrista dotado, cantor frágil e leitor atento que escreveu poemas desencantados (de palavras económicas mas cuidadas) e os tornou canções — por vezes só com guitarra acústica, outras vezes com arranjos mais sinfónicos e elaborados, apropriando-se do blues, da folk e do jazz para canções que pedem tempo, isolamento, se possível até um refúgio campestre. Opção 4: uma súmula das três, a que acrescem as peças em falta de um puzzle que ninguém consegue completar.

A missão de o compreender tornou-se espinhosa desde cedo e os pais aperceberam-se disso. Da primeira escola que frequentou, os progenitores receberam relatórios do diretor a dizer que “nenhum de nós parecia conhecê-lo muito bem”, como recordou o pai, Rodney Drake, no breve documentário (48 minutos) feito sobre a sua vida, “A Skin Too Few: The Days of Nick Drake”. Concluía Rodney: “Acho que [o diretor] estava correto. No que respeita ao Nick, as pessoas nunca o conheceram muito bem”.

[O documentário “A Skin Too Few — The Days of Nick Drake”:]

Uma das pessoas que mais próxima terá estado de o compreender terá sido a irmã, Gabrielle Drake, que até viveu com Nick enquanto este gravou e lançou o seu primeiro álbum, Five Leaves Left, há 50 anos — o disco celebra meio século esta quarta-feira, 3 de julho. Numa entrevista ao The Guardian, há 15 anos, Gabrielle explicava porque resistia à ideia de um filme ficcional sobre o irmão: “É difícil pensar que alguém fosse capturar nuances quase impossíveis de capturar. Além disso, qualquer filme, ao fim e ao cabo, é uma tentativa de explicação do artista”.

Porque é que tentar explicá-lo seria, em si, um problema? O The Guardian prosseguia: porque, “como Gabrielle aponta”, faltam respostas. “Não houve nenhuma infância infeliz” que explicasse a dor das canções e a mente sofrida. Na escola e mais tarde na faculdade, nunca lhe aconteceu nada, que se saiba, que lhe marcasse a personalidade de forma traumática. Grande parte dos problemas terão sido interiores, reflexivos, e Nick Drake terá partido com eles.

Faltaram sempre explicações lógicas, simples, retilíneas, para o que lhe aconteceu: a insegurança e incapacidade de conquistar o público em concertos, o estado de alienação e absorção a que por vezes era remetido, o desinteresse por aspetos mundanos da vida. Não se lhe conheceram, por exemplo, muitas relações amorosas, embora fosse atraente, inteligente e misterioso — uma espécie de triunvirato apelativo, como chegaram a apontar algumas das suas amigas e amigos próximos nos tempos de faculdade. Quando há tantas perguntas e tão poucas respostas, talvez seja mais benéfico baralhar tudo, em vez de encontrar uma resposta à curiosidade e às dúvidas dominantes, chegou a sugerir Gabrielle Drake, após publicar uma biografia sobre o irmão.

"Ele mal esteve aí, na verdade. Não estou sequer certa de que deva usar a palavra timidez. Nunca senti verdadeiramente que ele pertencesse aqui, de modo algum. Era espectral."
Linda Thompson

Quase toda a gente que com ele conviveu partilhava, contudo, uma ideia: embora também mostrasse ocasionalmente bom humor, embora aqui e ali passasse períodos felizes e saudáveis, durante grande parte do tempo Nick Drake era retraído, reservado, pouco falador, até mais do que isso: “Ele mal esteve aí, na verdade. Não estou sequer certa de que deva usar a palavra timidez. Nunca senti verdadeiramente que ele pertencesse aqui, de modo algum. Era espectral”, chegou a dizer a amiga e cantora Linda Thompson, ex-mulher do guitarrista e cantor (com quem chegou a gravar importantes discos nos anos 1970) Richard Thompson, que tocou nos discos de Nick Drake.

Linda não foi a única a questionar a coexistência de Nick Drake com o tempo e o mundo em que viveu. O músico Robert Kirby, amigo de Nick Drake em Cambridge e seu parceiro nos primeiros dois álbuns (Five Leaves Left e Bryter Layter), colocou a questão assim: “O Nick estava, de uma forma estranha, fora de tempo. Quando se estava com ele, tinha-se sempre uma sensação triste de que tinha nascido no século errado. Se tivesse vivido no século XVII, durante o reinado de Elizabeth I, na mesma era de compositores como Dowland e William Byrd, teria ficado bem. O Nick era elegante, honesto e um romântico incorrigível — e ao mesmo tempo tão cool”. Mais tarde, citado pela antiga revista (hoje, publicação digital) New Musical Express, Kirby sublinharia “a sua capacidade de observação”: “Vejo o trabalho dele acima de tudo como uma série de observações extremamente vivas e completas, não apenas como meros exercícios de introspeção, como alguns sugerem”.

O primeiro dos três discos que lançou em vida, editado há 50 anos, começava assim: uma guitarra tocada com calma, um som que convidava à absorção (como se estivesse prestes a revelar ao ouvinte segredos íntimos) e o trovador a começar a cantar com voz suave mas tom místico, de quem viveu e aprendeu mais do que os seus 21 anos indiciariam:

“Time has told me
You’re a rare, rare find
A troubled cure
For a troubled mind

And time has told me
Not to ask for more
Someday our ocean
Will find its shore”

[“Time has Told Me”:]

A música, os tempos de escola e a passagem por França

Os pais conheceram-se em Rangum, capital da Birmânia, onde Molly Drake (que tinha ascendência galesa) nascera. Ela era filha de um funcionário britânico “envolvido no exército” e destacado para servir no Indian Civil Service, isto é, na Índia então governada pelo Império Britânico — Rodney era, por sua vez, um engenheiro que trabalhava na Bombay Burmah Trading Corporation, empresa que se dedicava, entre outras coisas, ao negócio da plantação de chá.

Casaram novos, os progenitores de Nick Drake, tanto que tiveram mesmo de fazer um compasso de espera para que Molly completasse os 21 anos de modo a consumar o matrimónio. Depois de o filho Nick nascer, em 1948, não demoraram muitos anos a Birmânia, rumo ao Reino Unido onde Rodney e Molly Drake tinham crescido (a mãe, em pequena, fora enviada pela família para Inglaterra, para estudar) e onde o filho também cresceria.

Regressados à Grã-Bretanha, o pai de Nick Drake assumiu um cargo importante de presidente e diretor-geral numa empresa britânica, a Wolseley Engineering. Rodney Drake não era, porém, apenas engenheiro — era também músico amador, assim como a mãe de Nick Drake.

A irmã mais velha de Nick, Gabrielle, recordaria assim os dotes musicais do pai, em 2014 e em entrevista ao The Guardian: “Era fantástico ao piano. Tinha mãos lindas e longos, longos dedos”. Embora o pai escrevesse operetas cómicas, foi a mãe que mais influenciou Nick Drake: Molly, também ela pianista (e cantora, ao contrário do marido), encorajou o filho a tocar piano desde cedo. As canções que compunha, aliás, tão frágeis e contemplativas quanto as que Nick escreveria anos mais tarde — fruto, acredita-se, de um estado depressivo de que a mãe também padecia e que se terá intensificado quando sofreu uma pneumonia a seguir ao casamento —, terão marcado profundamente o filho. Tanto assim terá sido que já esta década, em 2013 (20 anos depois da sua morte), uma coleção de temas de Molly Drake foi lançada em formato álbum póstumo e o antigo produtor musical de Nick, Joe Boyd, não teve dúvidas: eram “a ligação que faltava na história do Nick Drake”, já que “ali, nos acordes de piano [da mãe], estão as raízes das harmonias” do músico.

[“I remeber”:]

Antes de entrar na faculdade, antes ainda de começar a compor as canções que dariam origem ao seu primeiro disco, Nick Drake notabilizou-se noutra atividade: o atletismo. Era corredor de distâncias curtas (100 a 200 metros) na equipa da sua escola secundária, Marlborough College, uma instituição pública em Marlborough, Wiltshire, no Reino Unido, onde já tinham estudado o seu pai, o seu avô e o seu bisavô — e que tinha pergaminhos nesse desporto.

Foi também ainda no Marlborough College, onde estudou depois de frequentar a Eagle House School no ensino preparatório, que Nick Drake desenvolveu as aptidões para a música que trouxera de casa. Passou pela orquestra da escola, onde tocava piano, e aprendeu ainda clarinete e saxofone. Integrou a primeira banda (com colegas de escola) quando tinha 16 a 17 anos — um grupo musical chamado Perfumed Gardeners que tocava versões de rhythm and blues, de jazz e das bandas rock The Yardbirds e Manfred Mann.

Uma das pessoas que conviveu com Nick Drake durante a escola secundária, citado num site quase oficial dedicado a Nick Drake como C. G. Reynold, recordou-o como “um dos mais simpáticos” do seu grupo de amigos e alguém que provinha de um meio familiar “inteligente” (ou, sendo mais rigoroso, culto, até relativamente intelectual). Era, também, “bastante descontraído relativamente à vida escolar”, recordava ainda C. G. Reynold, que se lembra de ter visto Nick Drake, de calças e casaco de ganga, a tocar guitarra e a tocar harmónica durante um dia de escola, encostado aos pilares da entrada, cantando canções de Bob Dylan, Woody Guthrie e “algumas canções iniciais do Donovan”.

Essa performance escolar terá acontecido já depois de Nick Drake ter comprado (em 1965, com 17 anos) a sua primeira guitarra acústica, instrumento musical em que se notabilizaria e que serviria de base das suas canções. Passados dois anos a experimentar com a guitarra, surgiriam os primeiros esboços sólidos que começariam a indicar o caminho que tomaria o primeiro disco (Five Leaves Left, editado passados dois anos), durante um período em Aix-en-Provence, em França — país em que passou alguns meses a estudar antes de entrar em Cambridge. O estudo, contudo, passou para segundo plano face à experimentação na guitarra, que o cativava cada vez mais desde que ouvira o primeiro álbum de Bert Jansch, músico escocês virtuoso desse instrumento e antigo membro do grupo Pentangle.

Em França, "ele [já] sabia deslumbrar e encadear os outros com a guitarra. Sabia que era bom — tinha passado muito tempo a tornar-se bom. Esse tempo foi um momento divertido da vida dele. Andava a estudar o Bert Jansch e o John Renbourn [dois guitarristas virtuosos, que passaram pelos Pentangle] de forma algo analítica".
Robin Frederick

Como lembrava o The Guardian num longo texto publicado há 15 anos, a propósito dos 30 anos da morte do músico, Nick Drake escreveu mesmo o tema “River Man”, que viria a figurar no primeiro disco, “umas semanas antes” de entrar em Cambridge, ajudado pelos “relaxantes recreativos daquele tempo”. Na universidade inglesa, que Drake frequentou após ter ganho uma bolsa de estudo para estudar literatura inglesa já depois de passar por França (onde estreitou a relação não só com a música mas também com o canábis, trazido de Marrocos, e alegadamente também com o LSD), o ímpeto criativo aceleraria.

Ainda assim, como chegou a dizer um antigo compositor de canções que conheceu Nick Drake em França, Robin Frederick (citado pela New Musical Express), “ele [já] sabia deslumbrar e encadear os outros com a guitarra. Sabia que era bom — tinha passado muito tempo a tornar-se bom. Esse tempo foi um momento divertido da vida dele”. Frederick acrescentaria ainda que se o período em Cambridge o terá ajudado a afirmar-se musicalmente, em França já compunha e mostrava canções próximas das que revelaria no seu primeiro disco: “Andava a estudar o Bert Jansch e o John Renbourn de forma algo analítica”.

[“River Man”, uma das grandes canções de Nick Drake, foi escrita antes mesmo de este entrar na faculdade:]

À bossa nova, que Nick Drake ouvira no disco colaborativo do safoxonista norte-americano Stan Getz com o brasileiro João Gilberto (Getz/Gilberto, de 1964), fora buscar uma nova forma de exploração da melodia, acrescentava Robin Frederick. O jazz, já testado na sua banda de adolescência, seria também um género musical que Nick, antigo intérprete de saxofone, saberia moldar e ajustar às suas canções contemplativas. A mistura de ingredientes musicais — também sabia tocar piano e conhecia música clássica — originaria uma receita quase inclassificável e original, que muitos, erradamente, catalogaram simplesmente como folk.

Cambridge e a “primeira impressão” de Joe Boyd: “Um génio”

Se em França Nick Drake começara já a deixar os estudos de parte para dedicar mais tempo à música, em Cambridge tudo isso se acentuou — a ponto do jovem não terminar o curso de literatura inglesa que ali frequentou, por vontade de seguir uma carreira musical. O desporto, por essa altura, ficara devidamente para trás, em contraciclo com o canábis, que viera definitivamente para ficar.

No apartamento da irmã em Hampstead, onde viveu, Nick Drake dedicava boa parte do tempo a praticar na guitarra e a ouvir alguns discos que mais o impressionavam: por exemplo Astral Weeks, de Van Morrison, Blonde on Blonde, de Bob Dylan, álbuns de Randy Newman, Tim Buckley e os discos iniciais de Donovan. A cena folk impressionava-o, mas o seu gosto pela complexidade não lhe permitia enclausurar-se nesse género musical.

"Tinha um ouvido mais jazz do que folk. Parecia ir para sítios a que as pessoas ainda não tinham ido"
Richard Thompson

Richard Thompson, que sabia bem do que falava — tocou guitarra, por exemplo, na “difícil” “Time Has Told Me”, disse um dia à Uncut: “Tinha um ouvido mais jazz do que folk. Parecia ir para sítios a que as pessoas ainda não tinham ido”. Joe Boyd, por sua vez, apontou, ao mesmo meio: “Divirto-me sempre que entro numa grande loja de discos e vejo o Nick Drake na categoria ‘folk’. Se houve alguém que não fazia música folk, esse alguém era o Nick Drake”.

Em 2014, num artigo intitulado “Como a internet (e a Volkswagen) tornou um cantor folk numa estrela”, a revista The Atlantic colocou assim a questão: Nick Drake era “demasiado folky para ser jazzy” e “demasiado jazzy para ser folkie”. E não havia problema nenhum com isso.

Um antigo colega em Cambridge, J Venning, recordou Nick Drake como “uma figura de alguma forma misteriosa” nesses tempos: “Não passou tempo nenhum a socializar com as pessoas do seu ano. Veio da escola (Marlborough, penso) e passava o tempo ou com os amigos dele ou com os amigos músicos que tinha. Ainda tocou um bocado em Cambridge, lembro-me de o ouvir em várias ocasiões”. Brian Wells, um outro amigo de faculdade, recordá-lo-ia como alguém que “dedicava-se simplesmente a tocar guitarra. Fazia aquilo parecer fácil, como se não tivesse de se esforçar. Tinha um estilo folksy e bluesy, sempre muito limpinho, com grande precisão.”

Já com canções compostas e um estilo definido, que permitia variações e ramificações, Nick Drake apresentar-se-ia perante os amigos mas também em cafés à volta de Londres, em pequenos showcases. Um dos concertos mais míticos que deu aconteceu quando ainda não tinha qualquer disco ou canção publicamente revelada, em dezembro de 1967, na sala de concertos e espetáculos performativos Rondhouse, em Londres. Durante uma espécie de festival de cinco dias, organizado para angariar dinheiro para um centro de artes local, o baixista do grupo Fairport Convention, Ashley Hutchings, ouviu-o tocar e ficou siderado.

[“Day is Done”:]

Ashley Hutchings estava a tocar com os Fairport Convention nessa espécie de festival e, quando não estava em palco, estava só “a matar tempo, na verdade”, como recordou anos depois à revista Uncut. “A curtir a música”, sem grandes pretensões. De repente, ouviu um som vindo de “uma pessoa muito alta e jovem a cantar e tocar guitarra”. O jovem era Nick Drake. Na altura, recordou Hutchings, “todos os cantores e compositores ingleses, como por exemplo o John Martyn, cantavam com sotaque americano. Ouvir aquela música que soava muito inglesa marcou-me”.

Os dois trocaram números de telefone e Hutchings não perdeu tempo: telefonou logo a Joe Boyd, afamada figura da música alternativa inglesa à data, produtor que participou na criação do single “Arnold Layne” dos Pink Floyd e dono da Witchseasons Productions, empresa de produção e management que descobrira os Fairport Convention e que apostara com sucesso em John Martyn e no grupo Incredible String Band. A “família Witchseasons” era, por tudo isto, uma espécie de comunidade criativa e musical “cool” do Reino Unido, capaz de apresentar músicos bons e irreverentes ao grande público. Durante a conversa telefónica, Hutchings recorda-se de ter dito a Joe Boyd algo como “tens de ver este tipo, é incrível, é muito diferente”. Boyd acedeu e só precisou de umas maquetes para perceber que tinha em Nick Drake um diamante por lapidar: “A primeira impressão que tive é que ele era um génio, foi assim tão simples”, lembrou, citado pela Uncut.

Nick Drake aceitou de bom grado a proposta de contrato com a Witchseasons Productions, que envolvia a gravação de discos a editar pela Island Records. Se antes pouco ligava às aulas, a proposta foi a peça que faltava para romper em definitivo com a universidade, não terminando o seu terceiro ano em Cambridge para se dedicar à música, como planeava há algum tempo fazer.

Um disco com risco e genialidade. O segredo? “A atmosfera”

No segundo semestre do ano de 1968, o mesmo em que assinou contrato com a empresa de Joe Boyd, Nick Drake começou a gravar o seu primeiro álbum no estúdio Sound Techniques, no bairro de Chelsea, em Londres. Boyd assegurou a produção do disco, mais logística do que musical: chamou músicos e convidou Richard Hewson, creditado pelo trabalho no primeiro álbum de James Taylor e na canção “Long and Winding Road” dos The Beatles, para assegurar os arranjos musicais.

O som que Richard Hewson tinha na cabeça era mais “pop” (ou ligeiro, para não dizer foleiro) do que aquele que Nick Drake tinha em mente. Hewson foi, por isso, dispensado. Em vez de convidar alguém com créditos firmados, o cantor e compositor lembrou-se de um colega de Cambridge, mais novo (tinha apenas 19 anos), mas que “não era mau de todo”. 

Os primeiros testes não correram bem: o som que Richard Hewson tinha na cabeça era mais “pop” (ou ligeiro, para não dizer foleiro) do que aquele que Nick Drake tinha em mente. Hewson foi, por isso, dispensado. Em vez de convidar alguém com créditos firmados, o cantor e compositor lembrou-se de um colega de Cambridge, mais novo (tinha apenas 19 anos), mas que “não era mau de todo”. O colega era Robert Kirby, que viria a ser responsável pela maior parte dos arranjos musicais dos dois álbuns iniciais (de três completados em vida) de Nick Drake, nomeadamente as partes da secção de cordas que tocou no disco. Só “River Man”, a segunda canção, revelou-se um desafio demasiado arrojado para Kirby, que cedeu aí o lugar a Harry Robinson.

Joe Boyd foi quem garantiu que tecnicamente tudo estava pronto para Nick Drake gravar as suas canções — e que o inglês tinha os músicos de que necessitava para o acompanharem, como o contrabaixista dos Pentangle Danny Thompson, o guitarrista dos Fairport Convention Richard Thompson, a violoncelista Clare Lowther (tocou em “Cello Song”), o percussionista Rocky Dzidzomu e o pianista norte-americano Paul Harris —, o principal responsável por polir a sonoridade do álbum foi o engenheiro de som John Wood. O técnico veio a recordar assim as sessões de gravação, nomeadamente “a segunda ou terceira”, em que Drake “recusou-se a prosseguir e dispensou os arranjos. Disse que convenceria o seu amigo de Cambridge, Robert Kirby, que achava que se identificaria melhor com aquilo que ele queria fazer”. Aposta de risco? Basta dizer que “o Robert nunca tinha feito nada, na sua vida, dentro de um estúdio de gravação. Mas passadas duas semanas marcámos uma sessão com ele e com um grupo de músicos — menor desta vez, por aquilo que me lembro — e ficámos espantados. Ele era tão bom”.

Tal como Nick Drake, também John Wood tinha percebido cedo que não era com Richard Hewson como responsável pelos arranjos que o álbum chegaria a bom porto, segundo relatou Joe Boyd à Uncut: “Lembro-me que apertámos as mãos e o Nick e o John Wood ficaram ali e disseram: isto foi um desperdício de dinheiro. Acho que o Nick ficou aliviado — ele hesitava em dar as suas opiniões, mas era teimoso” quando queria. O engenheiro de som corroborou, ao mesmo meio de comunicação: “Simplesmente não encaixavam. Dava perceber que o Nick estava a ficar cada vez mais insatisfeito”.

O álbum demorou vários meses a ser terminado. Como a Witchseason Productions tinha vários músicos e bandas no seu catálogo, não foi fácil agendar todas as sessões de gravação necessárias e a data de lançamento do álbum. “Estava ocupado com outras coisas, portanto acontecia algo como dizer: OK, tenho uns dias livres aqui, vamos fazer umas sessões do Nick Drake. Depois voltávamos a fazer o mesmo passados uns dois meses”, recordaria Joe Boyd, citado pela Uncut. As gravações, porém, já com Robert Kirby a bordo, foram correndo bem, quase sempre em registo “live takes”, sem o número habitual de repetições e “colagens” de sons gravados, por vezes até com Nick Drake a tocar e cantar no centro de uma sala, com um conjunto de músicos a formar um círculo à sua volta na mesma sala. O tempo que o álbum demorou a ser gravado foi também, para o produtor Joe Boyd, uma das mais-valias do disco, já que permitiu definir ao pormenor todos os sons de cada canção.

"Era muito secreto e reservado. Sabia que estava a fazer um álbum mas não sabia em que estado estava até ele entrar no meu quarto e dizer: aí tens. Atirou [a cópia] para cima da cama e saiu."
Gabrielle Drake

Quem não estava inteiramente a par da evolução das gravações era a irmã de Nick Drake, Gabrielle. Apercebeu-se que Nick estava a gravar um álbum, mas só percebeu que o disco estava feito quando o irmão lhe atirou uma cópia de Five Leaves Left para a cama, com alguma indiferença. “Era muito secreto e reservado. Sabia que estava a fazer um álbum mas não sabia em que estado estava até ele entrar no meu quarto e dizer: aí tens. Atirou [a cópia] para cima da cama e saiu”, recordaria Gabrielle.

O resultado final é considerado hoje um dos álbuns mais marcantes dos anos 1960 e um dos melhores discos da música inglesa do século XX. No centro de tudo está um dedilhado de guitarra acústica de quem tanto conhece a folk como o blues e o jazz (ouvir “Three Hours”, “Man In a Shed” ou a forma como o disco acaba é suficiente para não lhe chamar folk em vão) na ponta dos dedos, aliado a uma voz levemente frágil e quebradiça mas calorosa, que canta sem urgências e com tom de mistério.

[“Man in a Shed”:]

A guitarra elétrica, o contrabaixo e uma secção de cordas, mais regularmente, acompanhados mais pontualmente por exemplo por piano ou congas, serviam de companhia à voz e guitarra acústica de Nick Drake — mas de forma elegante, sem retirar protagonismo nem se impor ao cantor, compositor e guitarrista, criando-lhe antes uma espécie de cama instrumental que só ocasionalmente ganhava tom de opulência. A produção de som de John Wood seria depois decisiva para garantir que a voz de Nick Drake e a sua guitarra acústica soariam mais alto que toda a cama musical que as acompanhava, que o disco continuaria a soar íntimo apesar dos vários músicos que nele tocavam.

Embora tivesse um conhecimento relativamente vasto de literatura (nomeadamente inglesa), em especial considerando que tinha apenas 21 anos, há quem dispute a ideia de que Nick Drake era predominantemente um poeta, ou que as suas letras eram o ponto mais meritório das suas composições. É indiscutível que a escrita, que não era excessivamente palavrosa, consistindo antes em reflexões e apontamentos cirúrgicos, alguns dos quais enigmáticos, sobre estados de espírito interiores e paisagens exteriores (“River Man”, por exemplo, teria como inspiração um rio por onde Nick Drake passaria diariamente em jovem), continha melancolia e tristeza. Tinha também um bom gosto evidente, mas não teria, de modo algum, o mesmo impacto e misticismo se as letras não fossem cantadas pela voz de Nick Drake (alguém entoaria aqueles versos “Strange face / with your eyes so pale and sincere”, da belíssimo “‘Cello Song”, como Nick os entoou?), se as composições e arranjos instrumentais não fossem tão ilusoriamente simples, tão complexamente suaves.

"A música e as palavras estão tão fundidas que a atmosfera das canções torna-se a faceta mais importante. Sei que era o objetivo primordial do Nick — não acho que estivesse muito preocupado com as suas letras serem 'grande poesia' As palavras estavam lá como complemento... a ajudar a compor um estado de espírito que era ditado em primeiro lugar pela melodia."
Robert Kirby

Uma das pessoas que melhor avaliou a música de Nick Drake foi precisamente o músico que compôs boa parte dos arranjos para a secção de cordas de Five Leaves Left, Robert Kirby. Descreveu-a assim, citado no obituário de Nick Drake escrito pelo crítico musical Nick Kent: “A música e as palavras estão tão fundidas que a atmosfera das canções torna-se a faceta mais importante. Sei que esse era o objetivo primordial do Nick — não acho por exemplo que estivesse muito preocupado com as suas letras serem ‘grande poesia’ ou algo assim. As palavras estavam lá como complemento… para ajudar a compor um estado de espírito que era ditado em primeiro lugar pela melodia”.

O estado de espírito revelava-se também na imagem de capa do disco: uma fotografia (tirada a 29 de abril de 1969) de Nick Drake junto à janela, a observar o exterior, absorto como tantas vezes os amigos o viam. Para uns estava, nesses momentos, meramente introspetivo, para outros revelava-se mais observador atento do exterior. Já a ideia de aparente despreocupação com escrever os melhores versos e poemas de sempre, apontada primeiro por Kirby, ganha outra força à luz da escolha do título, Five Leaves Left, que — como escrevia Nick Kent no obituário de Nick Drake — “refere-se ao dilema dos fumadores que enrolam os seus próprios cigarros quando as mortalhas estão a acabar. Não tinha um significado e relevância especial a não ser ter soado a algo que poderia dar um bom título de álbum”.

A capa do primeiro álbum de Nick Drake, lançado há 50 anos

Uma digressão desastrosa que foi o início do fim

Quase toda a gente esperava que o primeiro álbum de Nick Drake fosse um êxito, pelo menos no circuito alternativo. Havia razões para isso: a música era boa, as companhias daquela que se esperava vir a ser uma futura coqueluche da música alternativa britânica eram recomendáveis (John Martyn, Michael Chapman e Richard Thompson, três guitarristas de excelência, andavam por perto), a voz era distinta… nada parecia poder correr mal.

E no entanto, correu. Nick Drake já tinha abandonado Cambridge e a universidade, contra as recomendações do seu pai, que lhe escrevera cartas tentando dissuadi-lo a trocar os estudos pela música. Por um tempo, pernoitou entre o apartamento da irmã, que estava na rota de se tornar uma atriz de relevo, e casas e sofás alheios, antes de Joe Boyd lhe arranjar um pequeno quarto em Camden. Mas o álbum, lançado no verão de 1969, parecia poder colocá-lo na rota de uma carreira musical sólida.

Os motivos para o disco não ter tido o impacto que se esperava andam a ser discutidos há décadas, mas um deles terá sido a incapacidade de Nick Drake para promovê-lo em concertos. Tudo parecia correr bem no início do outono de 1969, após um concerto do inglês na prestigiada sala Royal Festival Hall, em Londres, a 24 de setembro. Nesse dia, um mês depois de gravar cinco temas para o programa do radialista John Peel na BBC, Nick Drake abriu para o duo John e Beverley Martyn e para os Fairport Convention, que se apresentavam com uma nova formação.

[Nick Drake nas John Peel Sessions:]

O concerto até começou reticente, com Nick Drake “a afinar a guitarra durante três minutos, sem dizer nada”, como viria a recordar Boyd. De repente, começou a tocar e o público começou a ouvi-lo atentamente. Acabou com aplausos “fortes”. O nascimento de um artista proeminente parecia estar consumado.

“Esse concerto no Royal Festival Hall foi o concerto com mais sucesso que o Nick deu. Em retrospetiva, deixou-nos com excesso de confiança”, recordou Joe Boyd, citado pela Uncut, acrescentando que toda a gente que lá estava pensou: “Isto pode resultar, o Nick é tão incrível e a sua música é tão hipnótica que nem tem de falar ou dizer piadas durante o concerto”. Ali, naquele dia, Nick teve um público à sua medida: a sala tinha lugares marcados (e sentados), não havia conversas na plateia nem ouvintes despreocupados a beber cerveja e a ignorar o que ouviam. Estava toda a gente atenta à música — ainda para mais, menos de seis meses antes tinha morrido um dos membros dos Fairport Convention, o baterista Martin Lamble, pelo que “toda a gente estava numa disposição muito respeitadora”.

Beverley Martyn, que atuaria a seguir com John Martyn, viu o concerto de perto e lembra-se de ter encorajado Nick Drake antes da atuação, garantindo-lhe que iria ser “ótimo”. “E foi. Mas foi-o ali, naquele sítio onde qualquer pequeno som que se fizesse era audível. Não foi um concerto normal onde era preciso ir vender o álbum a estudantes, onde caso não tivesses uma banda ou uma guitarra com efeito wah-wah, algo assim, ninguém te ouvia”, acrescentava a guitarrista, cantora e compositora.

[“Cello Song”:]

O problema veio a seguir: depois dessa atuação bem-sucedida, Nick Drake foi enviado para uma digressão de concertos em pequenas salas, bares e clubes de música folk em Inglaterra, para promover o álbum, acompanhado por um octeto de cordas. Correu tão mal que acabou por regressar a casa mais cedo do que o esperado.

Uma das pessoas que ouviu o músico apresentar as canções de Five Leaves Left nos poucos bares e clubes de folk do Reino Unido em que atuou foi o talentoso guitarrista e cantor Michael Chapman — ainda vivo e ativo, com álbuns recentemente editados. “Os folkies queriam canções com coros. Não perceberam nada. Lembro-me de o ver atuar e de ele não ter dito uma única palavra em toda a noite. Foi, na verdade, algo doloroso de ver”.

Outra pessoa que viu Nick Drake tocar nessa pequena pequena digressão de clubes foi Robert Jones. Citado pelo The Guardian, relatou como correu um deles: “O Nick apareceu por volta das 21h. Ainda estavam a limpar as mesas e cadeiras do jantar. Sem dizer uma única palavra, começou a tocar para um público de dez a 15 pessoas, que ficaram à frente do palco. Todos os outros continuaram a limpar as cadeiras e o clube ou ficaram simplesmente a conversar. Depois de cinco ou seis canções, arrumou a guitarra na mala e saiu do palco”. Parte do problema, explicaria Beverley Martyn ao mesmo jornal, era que Nick “não tinha a confiança e a capacidade de dizer piadas que o John [Martyn] tinha. Se alguém estivesse a fazer barulho no bar, o John conseguia encontrar uma maneira qualquer de lhe conquistar a atenção”. Nick Drake simplesmente não conseguia.

"Recebi uma chamada do Nick a dizer-me: não consigo fazer mais isto."
Joe Boyd

Passados quatro ou cinco concertos, o bardo desistiu: “Recebi uma chamada do Nick a dizer-me: ‘não consigo fazer mais isto'”, recordaria Joe Boyd à Uncut. Se o desempenho nos primeiros concertos tinha sido um sinal que Nick teria dificuldades em convencer o grande público da qualidade de Five Leaves Left, o cancelamento prematuro da digressão foi a confirmação. Porém, a editora que lançou o álbum, a Island Records, também não terá ficado isenta de culpas quanto ao fracasso do álbum: “Não me lembro de ninguém que o tivesse ouvido que não ficasse louco com ele. Mas o disco não foi a lado nenhum, em parte porque o Nick Drake não tinha reputação nenhuma como intérprete ao vivo e em parte porque não estou certo que a Island estivesse tão entusiasmada com o álbum como poderia ter estado”, explicava John Wood.

O entusiasmo que quem ouviu Time Leaves Left teve pelo disco foi maioritário entre os (poucos) ouvintes, mas ao contrário do que sugeriu John Wood não abrangeu toda a gente. As poucas críticas publicadas foram tendencialmente positivas, mas também as houve negativas, como recordou o produtor Joe Boyd: “Uma das imagens que tinha na cabeça é que tinham existido boas críticas em contraste com as vendas, que não foram boas. No entanto, há tempos vi a publicação das críticas da altura numa revista de fãs e vi que a Melody Maker [revista musical] descreveu-o como ‘uma mistura desconfortável de folk com cocktail jazz“. Na New Musical Express, o crítico Gordon Coxhill não foi mais brando: “Lamento não poder estar mais entusiasmado porque obviamente tem uma dose de talento que não é irrelevante, mas não há nem de perto nem de longe variedade suficiente no seu LP de estreia para poder ser considerado agradável”.

[“Thoughts of Mary Jane”:]

A frustração, o regresso à casa dos pais e a overdose final

À primeira digressão falhada, seguir-se-ia uma sucessão de tentativas fracassadas de Nick Drake em chamar a atenção dos ouvintes. O passo seguinte foi voltar a gravar um álbum, Bryter Layter, que o músico, a empresa de Joe Boyd e a sua equipa de colaboradores acreditava poder vir a mudar o rumo das coisas. “Senti simplesmente que tínhamos de fazer mais um grande álbum e que mais tarde ou mais cedo as pessoas iriam perceber [o talento de Nick Drake]. As pessoas veriam que isto era sério. Havia uma sensação implícita, que não era expressa vocalmente, que o Bryter Layter tinha de ser mais acessível, de alguma forma”, que teria de ser apelativo “para um público mais vasto”, recordou Joe Boyd.

Há décadas que se discute se o som do segundo álbum de Nick Drake satisfez por completo o músico, já que no disco seguinte o cantor e compositor abdicaria dos instrumentos que deram um tom mais sinfónico ao disco para compor e gravar canções sozinho, à guitarra. Entre os acompanhantes do seu segundo disco estavam elementos dos Fairport Convention, John Cale (dos The Velvet Underground) e Mike Kowalski e Ed Carter, ambos com passagens pelos Beach Boys. O que deixou de se discutir é se o álbum foi ou não mais influenciado pelas ideias de Joe Boyd (foi), se as gravações decorreram sem grandes discussões (não decorreram) e se o disco é bom (é).

Durante as gravações de Bryter Layter, que voltou a contar com arranjos de Robert Kirby, Nick Drake vivia já num quarto em Belsize Park. Toda a gente esperava que fosse desta, mas paralelamente aos problemas financeiros que a empresa de Joe Boyd começava a ter, o disco foi maioritariamente ignorado pelo público britânico, vendendo apenas três a quatro mil cópias — um resultado, à época, francamente dececionante. Não só por isso, mas também, Boyd vendeu a sua empresa à Island Records e foi viver para os Estados Unidos, incrédulo com o plano do seu “protegido” em vir a gravar um disco só com guitarra e voz, quase ao vivo.

As visitas a hospitais psiquiátricos começaram a tornar-se regulares, a prescrição de antidepressivos constante e a incapacidade para dar a conhecer o seu segundo álbum através de entrevistas, concertos e visitas a rádios britânicas exasperante para a sua editora, que deixara de ter Joe Boyd como intermediário.

Sem dinheiro, Nick Drake foi forçado a voltar para casa dos pais, o que para ele foi motivo de vergonha — a irmã descreveu mesmo a mudança como a entrada de Nick “na sua própria prisão e, ao mesmo tempo, no único sítio onde poderia estar”. Deprimido, começou a fumar “uma quantidade inacreditável de canábis”, como recordou o seu amigo e músico Robert Kirby. As visitas a hospitais psiquiátricos começaram a tornar-se regulares, a prescrição de antidepressivos constante e a incapacidade para dar a conhecer o seu segundo álbum através de entrevistas, concertos e visitas a rádios britânicas exasperante para a sua editora, que deixara de ter Joe Boyd como intermediário.

Foram dois a três anos duros: até 1973, mesmo tendo gravado um terceiro disco, Nick Drake viveu em condições precárias e tornou-se ainda mais introspetivo e calado. A irmã e os pais relatavam que fizeram de tudo para o ajudar, mas não sabiam como. Nada parecia resultar. No obituário que escreveu de Nick Drake, o crítico musical Nick Kent apontou o seguinte: “Os momentos positivos eram poucos e muito ocasionais — e muitas vezes as suas conversas, quando existiam, passavam por temas como a loucura e a esquizofrenia. E ocasionalmente o suicídio”.

A sua editora, Island Records, já tinha perdido qualquer esperança de tornar Nick Drake um artista conhecido, acrescentava o autor do seu obituário na New Musical Express (NME), mas gostava o suficiente dele para lhe pagar uma viagem e pequena estadia em Espanha e a gravação de mais um álbum, Pink Moon, em apenas duas noites. Nessa terceira tentativa, Nick Drake estaria acompanhado em estúdio apenas por John Wood, sem quaisquer músicos convidados. Ainda hoje Pink Moon é, como os anteriores, alvo de culto e reverência por parte da crítica musical e dos melómanos, mas durante muitos anos os elementos do seu círculo mais próximo não o conseguiram sequer ouvir, tal a angústia inscrita nas canções.

Uma canção em especial de Pink Moon, “Parasite”, causou arrepios a quase todos os amigos de Nick Drake que a ouviram, entre os quais John Wood: “Fiquei petrificado a ouvir as pistas [no estúdio]. Acho que esse período foi difícil para todos os que gostavam do Nick. Só nos últimos anos é que consegui gostar e desfrutar realmente desse álbum. Durante anos, não o conseguia ouvir”, apontava ao The Guardian, 30 anos depois da morte de Drake. John Martyn, quando o ouviu, terá dito algo como: “Este é o último do Nick…”

[“Parasite”:]

Quando o cantor e compositor gravou o seu terceiro álbum, Joe Boyd teve a certeza de que seria “o desmoronar total das hipóteses do Nick vir a ser reconhecido”. Na altura, recordou Boyd, “o rock estava a ficar cada vez mais complexo” e tudo estava a caminhar para uma direção “mais barroca e mais elaborada”. Em contraciclo, Nick Drake “despiu tudo e passou para um formato de apenas voz e guitarra. Durante muito tempo, não gostei de o ouvir assim. E achei o disco aterrador, realmente alarmante. Agora, claro, acho aquilo que toda a gente acha — que é um disco brilhante. Adoro ouvi-lo.”.

Após lançar o seu terceiro e último álbum terminado, novamente pela Island Records — que ficou a saber que o disco estava acabado quando um rececionista recebeu uma embalagem com uma cópia do álbum, ficando registado esse episódio e o facto de “não sabermos dele desde aí” no comunicado que apresentava oficialmente o álbum —, Nick Drake voltou a hospitais psiquiátricos, quase sempre para estadias breves, muitas vezes entrando e saindo no mesmo dia. Em casa dos pais, tinha ao seu dispor um carro — e conduzir era das poucas coisas que lhe davam “algum conforto”, como recordou John Wood, que com ele convivia. Quase em reclusão, seria alvo até de uma canção de John Martyn, “Solid Air”, que manifestava saudades e amizade pelo rapaz alto que compunha canções desesperadas — e que John via a caminho do fim.

Tentando arranjar um novo rumo, Nick Drake tentou ainda alistar-se no exército e trabalhar como programador informático — mas nenhuma das tentativas de recomeço deu certo. Apesar disso, o músico chegou a viver um período mais feliz, pouco antes de morrer.

Na madrugada de 24 para 25 de novembro de 1974, depois de tocar umas canções e uns acordes na guitarra de pijama vestido, depois de comer uns cereais "ou algo assim" já tardiamente, tomou uma dose reforçada e forte de Tryptizol. Nunca ninguém conseguiu afirmar com certeza se a overdose foi propositada.

Na madrugada de 24 para 25 de novembro de 1974, depois de tocar umas canções e uns acordes na guitarra de pijama vestido, depois de comer uns cereais “ou algo assim” já tardiamente (como recordou o pai), sofrendo das insónias noturnas que tinha habitualmente, tomou uma dose reforçada e forte de Tryptizol, um medicamento que lhe tinha sido prescrito e cuja potência a própria família desconhecia (e possivelmente, em parte, também o próprio Nick Drake). Não escreveu nenhuma nota de suicídio e nunca ninguém conseguiu afirmar com certeza se a overdose de antidepressivos, que causou a morte por volta das 6h de dia 25 de novembro, foi acidental ou propositada.

A irmã, Gabrielle Drake, chegou a referir que preferia que o irmão se tivesse suicidado do que morrer na sequência de “um erro trágico”, mas a dúvida permanece. A sua música passou a ser gradualmente mais conhecida, com reedições, passa-palavra e um anúncio publicitário da Volkswagen nos EUA que utilizava a música de Nick Drake e o tornou popular. Nos últimos anos, o músico tornou-se um nome amplamente conhecido entre melómanos musicais, o tipo de artista que é quase impossível ouvir e não mostrar a alguém, perguntando “conheces isto?”. O túmulo em Sandringham, Norfolk, é aliás visitado regularmente por fãs, que vão prestar-lhe homenagem. O legado estende-se também pelo seu impacto nos seus descendentes artísticos: Nick Drake inspirou uma série de músicos posteriores, em especial guitarristas que compõem canções e as apresentam a solo.

No documentário “A Skin Too Few”, a irmã Gabrielle disse o seguinte: “Não acho que ele quisesse ser uma estrela, mas acho que sentia que tinha algo a dizer às pessoas da sua geração”. A frustração com o insucesso da carreira musical, resultado também das suas inseguranças em palco, não foi motivo único para a morte prematura, mas contribuiu garantidamente para o desfecho. Citado pela Uncut, Joe Boyd confirmou-o: “O Nick acreditava que era bom. Eu dizia-lhe que o era. O John Peel dizia-lhe. O John Martyn dizia-lhe. O John Wood dizia-lhe. Muita gente dizia-lhe que ele era mesmo, mesmo bom — e os discos dele não vendiam. Tinha uma crença e uma expectativa de que poderia chegar às pessoas. Não se perguntava tanto ‘porque é que não faço mais dinheiro?’, perguntava-se sobretudo: ‘Porque é que as pessoas não responderam à minha música?”. Tardiamente, responderam — e esta quarta-feira, 3 de julho, haverá por certo muita gente em muitos pontos do mundo a colocar Five Leaves Left no gira-discos. Como Nick Drake cantava em “Saturday Sun”:

Think about stories with reason and rhyme
Circling through your brain
And think about people in their season and time
Returning again and again

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