Esqueça o gestor de conta. Chegou o primeiro robô que lhe gere o dinheiro

25 Outubro 2016172

A ETFmatic é a primeira gestora robótica de ativos registada em Portugal. Luis Rivera, o espanhol que lidera a firma britânica, explica como consegue reduzir as comissões a 0,5% do património por ano.

Os gestores robóticos de patrimónios não são uma novidade. Há oito anos que proliferam nos Estados Unidos da América, onde já administram mais de 45 mil milhões de euros. Há quem estime que a carteira global dos gestores-robôs chegará a dois biliões de euros até 2020, apenas nos EUA.

O modelo de gestão de patrimónios – em que o dinheiro dos clientes é investido automaticamente por decisão de algoritmos financeiros – está a chegar à Europa mais lentamente. No mês de maio passado, a ETFmatic lançou o seu serviço robótico de gestão de carteiras em 17 países europeus, incluindo Portugal. A companhia tinha carimbado o seu passaporte britânico na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários no mês anterior.

Numa conversa por correio eletrónico, Luis Rivera, o empreendedor espanhol que fundou a ETFmatic em Londres, explicou ao Observador como funciona o seu algoritmo, quanto cobram pelo serviço e porque os fundos cotados devem estar na carteiras dos investidores. Afinal, o “ETF” em ETFmatic refere-se a exchange-traded funds, ou seja, fundos cotados na bolsa.

Luis Rivera, ETFmatic

Luis Rivera, acionista fundador e diretor executivo da ETFmatic.

Dizem que a ETFmatic é um “robo-advisor”. O que é isso?
É um termo popularizado nos Estados Unidos pela Wealthfront e pela Betterment, duas startups que agora gerem vários milhares de milhões de dólares. Tenta ilustrar que não precisamos de intermediários nos processos de investimento que podem ser automatizados. [O termo] não se traduz bem na regulamentação europeia, porque nós temos uma licença de gestão discricionária de investimento e não de aconselhamento.

Começaram as operações em dezembro de 2015, há quase dez meses. Qual é o montante gerido atualmente pela ETFmatic?
Temos estado a afinar o nosso produto com um grupo pequeno de utilizadores desde fevereiro e “abrimos as portas” em maio. Gerimos atualmente menos de 50 milhões de euros.

Quanto pertence a investidores portugueses?
Menos de cinco milhões de euros.

Porque se concentram em fundos cotados de índice?
[Porque permite uma] diversificação eficiente ao nível dos custos e elevada liquidez.

Quais são os vossos principais critérios na eleição de fundos?
Publicámos um estudo que descreve a nossa abordagem em detalhe. Os nossos [fundos] favoritos tendem a ser dos principais gestores, com taxas de encargos correntes muito reduzidas e replicação física.

Como decidem os pesos a atribuir a cada fundo?
A nossa plataforma combina a classificação de risco dos nossos clientes – obtida através de questionários comportamentais que medem a atitude face ao risco em termos de exposição, paciência e estratégia – com mais de 250 modelos de carteira, que, depois, são ainda mais personalizados. Também propomos os Starter Portfolios, em que os clientes escolhem a alocação entre obrigações e ações, e as carteiras personalizadas, ainda numa versão-piloto limitada, em que os clientes decidem os seus próprios fundos e pesos e nós gerimos a carteira de modo a ficar próxima dessa alocação ideal.

Cozinhar uma carteira de fundos

A ETFmatic está a testar uma solução paralela: o portfolio.kitchen. “Temos testado com profissionais da área das finanças nos últimos meses”, revela Luis Rivera. Neste serviço, os clientes compõem as suas próprias carteiras a partir de uma lista de uma centena de fundos de índice. É uma via mais económica: custa 0,3% do património por ano.

Porque escolheram o Saxo Bank como depositário dos fundos?
Pelas suas condições gerais e pelo seu histórico. Também têm um das mais modernas infraestruturas.

O custo de gestão é de 0,5% do património por ano. Não é elevado para um serviço algorítmico?
Quando comparado com o que está disponível nos Estados Unidos, é bastante alto. Acreditamos que, quando comparado com a oferta na Europa, é um preço muito competitivo, em particular porque é uma comissão que inclui tudo. Para a maioria dos clientes, é significativamente mais barato do que uma solução “faça-você-próprio” que envolva a negociação através de um corretor.

Este custo anual inclui as comissões de transação sobre os fundos e as despesas de guarda de títulos?
Inclui tudo exceto os custos implícitos nos fundos, conhecidos por taxa de encargos correntes. [A taxa de encargos correntes inclui custos de gestão, depósito, supervisão e outras despesas correntes da gestão do fundo.]

Como cobram os gestores robóticos?

A ETFmatic tem uma comissão de 0,5% por ano, mas nem todos os concorrentes europeus cobram da mesma maneira. A alemã Cashboard não tem uma comissão fixa; apenas fica com 10% dos lucros dos clientes. A britânica Fiver-a-Day cobra uma comissão de 0,25% sobre os depósitos, além da comissão de gestão de 0,34%. A espanhola Indexa Capital tem comissões decrescentes com o montante investido, de 0,45% a 0,10%. A britânica Money Farm isenta os muito ricos (mais de um milhão de libras) e os menos ricos (menos de dez mil libras); todos os outros pagam entre 0,4% e 0,6%. Em todos os casos, estas são apenas as comissões dos gestores de patrimónios. Os investidores são também alvo das comissões dos fundos selecionados pelos gestores.

Nos Estados Unidos da América, a comissão média neste tipo de serviço é de 0,3%. A WiseBanyan, por exemplo, não cobra comissão no serviço-base. Pode ser um caminho a seguir?
Revemos continuamente os nossos custos para ver quanto podemos reduzir as comissões. As estruturas de custos e de incentivos nos Estados Unidos são muito diferentes quando comparadas com as da Europa.

O que impede um investidor de aplicar o mínimo de mil euros na ETFmatic e, depois, replicar essa carteira com o resto do seu dinheiro numa corretora nacional económica, como o Banco Carregosa (que também é parceiro do Saxo Bank), ou numa corretora pan-europeia, como a DeGiro, que isenta os clientes de comissões sobre alguns fundos cotados?
Essa parece a abordagem que eu e o Johan [Hellman, cofundador e diretor de operações] aplicámos com uma folha de cálculo antes de lançar a ETFmatic. Isso envolve muito trabalho, cometem-se erros a dar ordens e eles [os intermediários financeiros] cobram comissões e margens escondidas. As nossas carteiras não envolvem tecnologia de ponta; apenas fazemos que seja mais simples e barato para a maioria das pessoas.

Planeiam ter uma versão em português do vosso portal e das vossas aplicações?
Vamos implementar várias línguas durante 2017. O português é um candidato provável.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Finanças

O chapéu da habilidade e o casaco de visão

João Cândido da Silva

Combater a debilidade da poupança exige visão de longo prazo. Não é uma batalha que produza resultados com visibilidade imediata ou dividendos políticos ao virar da esquina.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)