Eucanaã Ferraz: “O mundo não pode ser o mesmo depois de um poema ter sido escrito” /premium

26 Maio 2019212

Considerado um dos maiores poetas da atualidade, o brasileiro Eucanaã Ferraz tem novo livro. Em entrevista ao Observador, fala da força da poesia, da política no Brasil e da influência de Cesariny.

Pediu uma limonada, recostou-se no sofá e por mais de uma hora, num café do Príncipe Real, dissertou sobre o lugar da poesia num tempo marcado pelas redes sociais da internet e uma polarização política sem precedentes no Brasil. De visita a Lisboa para apresentação de “Retratos com Erro”, a sua nova coletânea de poemas, Eucanaã Ferraz afirmou-se um autor ambicioso, porque escrever poesia é um jogo em que a aposta está muito alta.

O livro tem chancela da Tinta da China e há poucas semanas foi também editado do outro lado do Atlântico. É um conjunto de 66 poemas marcados por “assombrações, assombros, monstros e monstruosidades vulgares”, na descrição de badana assinada por Pedro Mexia, coordenador da coleção de poesia da editora portuguesa. Foi ele um dos intervenientes na apresentação a 19 de maio na Livraria da Travessa, no Príncipe Real, inaugurada nesse mesmo dia (é uma reconhecida livraria brasileira, com casa-mãe em Ipanema, Rio de Janeiro). Além de Pedro Mexia, falou a professora e escritora Rosa Maria Martelo e a leitura de poemas ficou a cargo da cantora Adriana Calcanhoto.

Figura intelectual de trato amigável, com discurso pronto quando o tema é literatura, mas cauteloso quando aborda temas políticos, Eucanaã Ferraz é um carioca de 58 anos, professor de literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultor do Instituto Moreira Salles, referência cultural brasileira. Tem oito livros publicados.

“Retratos com Erro”, de Eucanaã Ferraz (Tinta da China)

É muitas vezes descrito como um dos maiores poetas contemporâneos da língua portuguesa. Que pensa desta classificação?
Fico surpreso, parece que estão a falar de outra pessoa.

Isso é modéstia?
Não. Há muita gente a escrever em língua portuguesa, no Brasil, em Portugal, em países africanos, não só poesia, também prosa e ficção. Quando me descrevem dessa maneira, é um pouco constrangedor, parece um certo exagero.

Como é que avalia o seu trabalho?
É difícil dizer. Também tenho atividade como professor e crítico, o que necessariamente exige distanciamento. Ao falar do meu trabalho, não posso falar como crítico, falarei de dentro e não me sinto à vontade. Não tenho distância para olhar o que faço e dizer como me encaixo na produção contemporânea. Faço uma poesia que é importante para mim, é uma coisa que levo muito a sério, é a minha vida que é posta nisto. Tenho necessidade de dizer o que digo e como digo. Estou muito atento ao que se produz em língua portuguesa em termos de poesia, que é o que me interessa, e são bastantes coisas. É também aquilo de que me ocupo na universidade, exclusivamente poesia. Tento acompanhar a poesia que se faz hoje, tento não perder de vista autores que já conhecia ou conhecia mal e preciso de conhecer melhor.

Por exemplo?
Mário Cesariny, um poeta de que sempre gostei. Até há pouco tempo, nunca tinha parado para o ler com muita atenção. O meu novo livro tem uma presença de Cesariny.

Ele está num poema em particular ou por todo o livro?
Há um poema: “Desgraça”. Sei que fui diretamente ao Cesariny. [Pega no livro e recita]. “Vim ao mundo para escrever sobre o rapaz / que se apaixonou pelo detector de fumaça no quarto do hotel. // Ele vai cruzar no corredor com a rapariga / que se apaixonou pelo aparelho de ar condicionado…” Acho que jamais teria escrito isto se não tivesse lido Cesariny de uma certa maneira, e essa certa maneira não se define, não se escolhe, não sei quando vai acontecer, não é premeditado. Posso ler um mesmo autor muitas vezes, até com admiração ou encantamento, sem que ele chegue a transformar-se em alguma coisa minha.

Sendo assim, como é que escreve, como é que chega ao poema?
Diria que entre os poetas não há grandes diferenças nesse aspeto. Os prosadores têm método, disciplina. Os ficcionistas precisam, de uma maneira geral, de trabalhar um certo número de horas por dia, num mesmo horário: acordam de manhã, tomam o pequeno-almoço, depois escrevem até ao almoço, depois retomam… Têm uma rotina. Há ali uma tessitura que exige uma aplicação, se não, perdem o fio. Estão a construir histórias, a engendrar emoções específicas e personagens que respondem ao mundo com um determinado espírito. O ficcionista não pode abandonar isso. A poesia não é assim. A poesia lida com eventos, instantâneos, muito embora esses instantâneos possam, para se chegar à forma final do poema, levar muito tempo. Pode ser uma semana, um mês, muitos anos, pode ser mais de uma década. Mas o instante inaugural permanece. É como se estivesse à procura. Quando estou a escrever um poema, estou a escrever o poema que ainda não sei qual é. E a permanente escrita do poema é que me leva até ele.

"Já aconteceu estar a escrever durante noites e noites seguidas e numa delas ficar até às três da manhã a mexer no poema, quando no outro dia tenho de acordar às sete para dar aulas. Porquê aquela urgência? Porque é uma urgência."

Escreve no papel?
Sempre. Gosto de cadernos e lápis, estão sempre comigo. Quando o poema já está muito desenvolvido, já tem muitos rabiscos e nem eu próprio já estou a entender, passo para o computador. Depois, imprimo várias vezes e trabalho sempre no papel. Preciso do papel. Acho o computador excessivamente facilitador para poetas. Para jornalistas, então, pode ser desastroso.

Porquê?
Porque é muito fácil. A escrita flui demasiado depressa e o jornalista pode dizer demais ou dizer mal. O computador é um facilitador e penso que o trabalho intelectual deve saber lidar com a dificuldade.

A rapidez sempre foi exigida aos jornalistas e hoje ainda mais, com as notícias na internet.
Sem dúvida, mas aí o jornalista compromete a qualidade do seu trabalho e do próprio jornal. Quantas vezes não vejo em textos jornalísticos duas expressões sinónimas, uma colada à outra. Claramente, o jornalista escreveu as duas e esqueceu-se de apagar uma. O computador faz perder a relação mais física, diria até erótica, com o texto, com o papel, com o lápis.

Portanto, não tem horários para escrever.
Já aconteceu estar a escrever durante noites e noites seguidas e numa delas ficar até às três da manhã a mexer no poema, quando no outro dia tenho de acordar às sete para dar aulas. Não faz sentido nenhum estar até às três da manhã, porque o poema não será publicado no dia seguinte nem sequer no mês seguinte. Porquê aquela urgência? Porque é uma urgência.

É um jogo?
É um jogo. É como se neste jogo a aposta fosse muito alta. No início perguntou sobre como vejo o meu trabalho. Diria que é uma aposta alta. A poesia tem de ser relevante, há poesia a mais no mundo para que se escreva apenas mais um poema, ele tem de se justificar. É difícil, porque o poema é um objeto sem nenhuma utilidade imediata. Um medicamento ou uma tecnologia, sabemos imediatamente se são úteis, conforme o número de pessoas que alcançam ou as melhorias de vida que proporcionam. Um poema não mudará a vida de ninguém, que se saiba. Pelo menos, não diretamente. A ação do poema é indireta, oblíqua, impalpável. A ação é alguém ler e momentaneamente ser deslocado, o poema desloca a alma, alguma coisa se move na pessoa.

É esse o seu objetivo?
É, por isso digo que a aposta é alta. O poema tem de ser capaz de fazer essa deslocação. É preciso mover alguma coisa, o mundo não pode ser mais o mesmo depois de o poema ter sido escrito. A ambição é muito alta. Muito alta.

Podemos então dizer que se considera um autor ambicioso.
Ah, sim, isso sim.

Para ficar na história?
Não, não estou preocupado com isso. Aquilo a que chamamos história leva muito tempo. Quantos autores muito celebrados numa época foram inteiramente esquecidos pouco tempo depois? Aquilo a que chamamos história é uma coisa enganosa. Fernando Pessoa, sim, está na história, venceu a história, é uma permanência, mas a história está sempre em andamento.

Eucanaã com Adriana Calcanhotto em 2016

Cesariny dizia que se considerava um grande poeta porque vivia numa época de teto baixo.
O raciocínio estará correto, mas a avaliação não. A poesia portuguesa do século XX é esplêndida, até muito melhor que a poesia portuguesa do século XIX. Cesariny foi um excelente poeta do século XX, estando entre os melhores poetas de Portugal de todos os tempos.

No Brasil, como foi o século XX na poesia?
Tivemos Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Murilo Mendes… Foi também um século de ouro.

Que explicação encontra?
Pode ter sido uma coincidência, mas as vanguardas europeias do início do século XX foram uma força renovadora muito importante, abriram muitas portas à poesia. O verso livre, a experimentação formal. Foi o século da velocidade, da multiplicidade, da liberdade. Foi um século que abriu muitas experiências e a poesia é feita de experiências, é a experiência mais radical da linguagem, nenhuma outra é tão radical.

Quer explicar melhor?
A poesia vai diretamente à linguagem. Quando um poema diz alguma coisa, aquilo nunca foi dito antes.

Já a prosa pode repetir fórmulas, é isso?
Se não procurar uma radicalidade, a prosa não será radical. A poesia é sempre radical, vai sempre buscar uma articulação nova da própria construção do pensamento. Na poesia não existe sujeito, verbo, objeto, esses elos estão ali para serem desrespeitados. Quando terminamos de ler um poema, não sabemos bem o que aconteceu, nem sabemos bem o que lemos. Grande parte do contacto com o poema não se dá racionalmente, nem pela via da compreensão, dá-se por uma espécie de simpatia ou antipatia. É sempre numa reação emotiva, física, é um acontecimento de ordem psíquica, porque o poema toca diretamente na linguagem, é uma proposta de renovação do pensamento e da perceção do mundo. Cada palavra vale pelo som. Num poema de Eugénio de Andrade ou de Sophia, cada palavra só poderia ser aquela, naquela posição em relação às outras. O poema tem a sofisticação formal de uma obra de arquitetura, é como um edifício, e ao mesmo tempo o que se projectou ali é uma coisa muito vaga, muito extrema, um estado de espírito, uma visão, um mundo. Cada poema é um mundo que começa e termina ali. Não pode ser contado de outro modo.

Como vê a poesia portuguesa e brasileira do século XXI. O que há de importante?
Em Portugal, gosto muito de Golgona Anghel. Quando a li, fiquei surpreso e muito animado. Pensei: a poesia portuguesa continua a responder ao tempo. No Brasil, também temos hoje um número extraordinário de poetas. É surpreendente verificar que é um género literário ainda tão procurado.

Há a ideia contrária. Os livros de poesia vendem pouco.
Como objeto de mercado, a poesia nunca foi grande coisa e continua a não ser. No entanto, há muita gente a fazer e a consumir. Há um público fiel, que se interessa, que procura, discute, briga, ama.

"Como o Brasil deu uma guinada para a extrema-direita nas última eleições, é quase inevitável que a esquerda, ou segmentos próximos do que se chama esquerda, respondam com a mesma rapidez e com a mesma violência. Mas a mesma violência não é o caminho certo."

A linguagem da internet, feita de fragmentos rápidos, ajudou ou prejudicou a poesia?
Curiosamente, penso que a poesia contemporânea tem usado um outro dispositivo. Os novos poetas escrevem normalmente poemas longos. O poema curto parece interessar menos aos autores contemporâneos. Talvez seja precisamente uma reação à leitura rápida e instantânea da internet. O leitor da internet, que pede velocidade, não é o leitor de poesia. A poesia precisa de tempo, de ser lida e relida, porque entre um verso e outro acontecem muitas coisas. O leitor precisa de disposição existencial, de entrar na linguagem, de mobilizar tanta coisa em si.

Uma vez que estamos a falar da internet, e até porque a sua poesia tem sido descrita como concreta e ligada ao mundo real, o que pensa dos efeitos das redes sociais? Foi alvo de uma polémica recente, com críticas nas redes sociais por causa de uma conferência que organizou e da qual estariam ausentes autores negros. Porque é que hoje estas discussões se tornam calamidades na internet?
Penso que a esquerda identitária está cada vez mais forte. Os Estudos Culturais tomaram conta das universidades, é um movimento forte nas universidades americanas e também chegou ao Brasil e à Europa. De facto, tentam responder a uma necessidade de visibilidade de produtores de arte e cultura que nunca foram atendidos, nunca foram introjetados nas universidades, na imprensa, no espaço público.

Parece desconfortável com esses discursos identitários.
Não, mas penso que a coisa se fragmentou demais. Falamos da identidade de grupos e nem sempre dos pontos de contacto entre os diferentes grupos. Cada vez mais, por exemplo, as feministas têm encontrado também uma pulverização: só mulheres brancas ou só mulheres negras ou só mulheres negras lésbicas.

A tribalização é negativa?
Parece negativa se pensarmos que existe algo em comum entre os grupos, que é o facto de terem sofrido algum tipo de problema social e cultural. Talvez fosse útil, num certo momento, que houvesse uma união em torno de uma identidade maior, mas há um desejo de atender às especificidades. De certo modo, acho que as redes sociais fomentam a diferença e, até onde observo, não vejo uma discussão aprofundada. É tudo muito rápido, as reações são muito rápidas, por vezes muito violentas. Onde deveria haver discussão e proposição, há uma resposta muitas vezes irrefletida.

No Brasil, em particular, essa lógica parece agora aliar-se a um mal-estar político e partidário. Concorda?
Sem dúvida. Como o Brasil deu uma guinada para a extrema-direita nas última eleições, é quase inevitável que a esquerda, ou segmentos próximos do que se chama esquerda, respondam com a mesma rapidez e com a mesma violência. Mas a mesma violência não é o caminho certo. Os mesmos procedimentos, o mesmo espírito autoritário que a direita usa, é um erro. É preciso saber detetar quem são os inimigos e eles hoje são muito claros. Há um enfraquecimento quando se confunde quem é o inimigo.

E quem é?
É a direita, são os governos de direita que querem acabar com vários avanços conquistados ao longo de muitos anos no Brasil.

A ideia de que há inimigos parece desde logo uma manifestação da violência com que não concorda.
Mas é o que é. Hoje temos governos assim. Não é só a nível do governo federal, a própria prefeitura do Rio de Janeiro é de direita. Estes são os inimigos. São claros e são realmente inimigos.

Pode-se argumentar que foi a escolha dos eleitores, logo, são governos legítimos.
Precisaríamos de fazer uma longa análise de como se deu o voto popular. A via democrática é a melhor, sempre, não tenho dúvida, mas é manipulável, tem falhas, e penso que o Brasil chegou a uma solução democrática muito ruim, muito oposta àquilo que o povo realmente deseja e de que necessita. Penso que este governo [do presidente Jair Bolsonaro] vai demonstrar isso, mesmo àqueles que lhe deram o voto.

Uma última pergunta: o Instituto Moreira Salles, com o qual colabora, vai ter um novo diretor, o português João Fernandes. Conhece-o? Tem boas expectativas?
Conheci-o muito rapidamente num encontro no instituto, quando havia só um convite e ele ainda não tinha respondido. Sei que já aceitou e vai morar em São Paulo. A minha expectativa é a melhor, desde logo porque é um português. Acho que ele conhece um pouco do Brasil, conhece literatura e arte brasileira, conhece o trabalho do instituto e fará um bom trabalho.

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